A maestria cadenciada do junto e misturado

Por Fabricio Duque


“Híbridos – Os Espíritos do Brasil” poderia ter se definido como mais um exemplar estereotipado-etnográfico-exótico de “gringos” para “francês ver”. Mas não. Pelo contrário. É uma obra de livre celebração da riqueza da espiritualidade brasileira. De respeitar sincretismos religiosos. De “seguir o vento” nos quatro anos de sua produção.

Seus diretores, franceses, Vincent MoonPriscilla Telmon, imprimiram uma poética “declaração de amor pelo Brasil de uma forma “diferente” por uma narrativa que imerge completamente o espectador, criando um ritmo cadenciado, como se viajasse por livres acordes musicais de um transe musical.

O documentário, que tem como objetivo principal proporcionar um “material de graça” (tanto que os vídeos separados dos rituais estão disponíveis no site oficial do filme hibridos.cc), busca o elemento imagético para expressar seu conceito, e opta por não explicar antecipadamente os rituais religiosos, com isso, constrói um equilíbrio uniforme em estreitar os limites de começo e término. Sensações psicodélicas são equiparadas a uma mesma forma por sobreposições de imagens, como se fossem inerências comungadas da meditativa experiência vivenciada.

“Híbridos – Os Espíritos do Brasil” contempla a imagem da natureza por uma plástica, poética, saturada e estética fotografia que mais parecem obras de arte, como os últimos raios solares sombreados de um fim de tarde. Aves, cachoeiras, nuvens e auroras completam o cenário natural dos costumes indígenas, retratados com câmera próxima, em super close, que anda, silencia, acompanha e dança, potencializando nossas imersões mais inconscientes e primitivas.

Somos convidados a participar, a observar, a sentir a emoção desenvolvida destes rituais, como transformação de nossos seres em “detalhes da cor branca, que lembram o brilho do neon”, que estão nas indumentárias “veículos” que almejam a cura das sôfregas enfermidades, e expandir a mente a fim de encontrar a espiritualizada ancestralidade, esta que acalenta a alma e impulsiona o seguir.

É um filme de instantes. De frames a frames. De tradução orgânica e metafísica, querendo mais a desconstrução de uma forma padronizada que características típicas do classicismo do gênero documentário. É um retrato despretensioso de espontaneidade casual editado com um preocupado dever de maestria. Não há interferências e sim, apenas observações. Tudo é ligado a tudo. Cada micro-ação é adequada para servir como instrumento de nostálgica e infinita conexão, como um sentimento de pureza acriançada e de felicidade desmedida (única e simplesmente pela possibilidade do autoconhecimento).

“Híbridos – Os Espíritos do Brasil” é o transcender na simetria, na percepção satisfatória do mínimo, na música fluida que nos intercepta a nossa veia autoral. Aqui é sobre cada um e cada coisa, é uma experiência temporal que idolatra a natureza: suas belezas, formas, cores, movimentos, formatos. É sobre a tolerância.

Sobre o respeito. Sobre evangélicos, católicos, espíritas, kardecistas, budistas, carnavalescos, umbandistas, freqüentadores do Santo Daime, do Tantra, Círio de Nazaré , romeiros, com suas penitências, devoções, passes, defumações, bruxarias, enfeitiçarias, despossessões, búzios, incorporações (como no filme “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, de Jerry Zucker) oferendas a Iemanjá, superstições de fim de ano (nos fogos na praia de Copacabana com seu ruídos potencializados para se unir ao outro), que sintetizam e mesclam suas crenças.

É o sincretismo dos espíritos. É tudo junto e misturado de um povo que agrega e não exclui. Com seus sinos e ou batuques de bateria (à moda do grupo Imagine Dragons) e ou hinos religiosos à capela (cujo coro tão poderoso que dá a impressão que está dentro do cinema, ao vivo na mesma sessão).

O documentário tenta responder a pergunta de como explicar a fé? Sobre a epifania da divindade cósmica. É mergulhar no transe catártico (de encontro com o próprio eu) e ou elevar as mãos aos céus a fim de personificar a energia e adjetivar a essência em tela.

Nós sentimos a carga emocional. Sentimos a força, corroborando assim uma das principais características do cinema, quiça a mais importante, que é a entrega pura, simples e confiante, deixando livre para que cada um possa sentir (como o olhar com medo de uma visitante de um Centro Espírita).

O incrível é que em “Híbridos – Os Espíritos do Brasil” parece que as ações são encenadas, de tão articuladas e teatrais. O público é presenteado com um verdadeiro documento antropológico do comportamento popular.

É esta mistura que nos define, que nos faz suportar as recorrentes dificuldades e que fascina e encanta quem é de fora, que por distanciamento, e falta total de preconceitos, consegue melhor traduzir nossas sociais idiossincrasias-particularidades-religiosidades. É um retrato único, que ajuda a enxergar a forma como nos desenhamos para nós mesmos e para os outros.


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