A simplicidade é mágica

Por Bruno Mendes


“A Melhor Escolha” talvez seja um dos filmes mais singelos de Richard Linklater. Contudo, a assinatura do diretor de Boyhood e da excepcional “trilogia do antes” mantém-se viva no tom naturalista exposto nos diálogos e principalmente na maneira simples de como a história é conduzida.

Não há elipses, flashbacks, flashfowards, ou firulas vaidosas típicas daquele jogador que tenta dar um drible mais bonito – e por vezes desnecessário – para mostrar que é craque. Em pouco mais de 2 horas na sala escura, o espectador vivencia uma rica experiência, graças à leveza da condução da narrativa, aliada à magnífica construção dos personagens.

No longa, trinta anos depois de servirem juntos na guerra do Vietnã, o ex marinheiro Larry Doc Sheperd (o ator Steven Carrel), reúne antigos amigos; o irreverente e dono de um bar Sal Nealon (o ator Bryan Cranston) e o reverendo Richard Mueller (o ator Lawrence Fishburne) para enterrar o seu filho, um marinheiro que morreu durante a Guerra no Iraque.

As obras citadas de Linklater – e também posso incluir os ótimos, Jovens Loucos e mais Rebeldes e Escola de Rock – são poderosas no trato com os seres humanos em questão. Das mais comerciais aos “filmes para prêmios”, os partícipes do universo fílmico são caracterizados com formidável zelo.

É difícil não se envolver emocionalmente e em meio ao deleite diegético não sorrir involuntariamente, vibrar ou torcer com o roqueiro professor vivido por Jack Black, nem com o casal dos três filmes românticos interpretados por Ethan Hawke e Julie Delpy, ou com toda a gama de personagens que cresceram e envelheceram durante as 12 horas de gravação da obra prima Boyhood. Concorda? Seja bem-vindo a um novo embarque.

Além de ser um exímio roteirista – neste exemplar o trabalho ocorreu em parceria com Darryl Ponicsan – e de conduzir histórias com altíssimo nível de organicidade, Linklater é habilidoso em extrair a melhor interpretação dos atores. E se A Melhor Escolha oferece elementos capazes de arrancar MUITOS sorrisos e propor reflexões, devemos louvar a brilhante participação do trio principal.

Representando um tipo tímido e apequenado pela tristeza de ter perdido o filho em circunstância trágica, Carrel concebe um homem longe dos elementos engraçados que por tantas vezes deu vida em obras passadas. De todo modo, o sorumbático sujeito também revela leveza e bom humor após relembrar de situações cômicas.

Em termos de humor e até mesmo em razões filosóficas (nada pretensiosas, para deixar bem claro), porém, os grandes momentos de A Melhor Escolha estão na dinâmica entre Muller – sujeito que durante a fase da guerra “pecou” bastante e agora segue a ética e a disciplina ditadas pela sua religião com rigor – e o ateu e beberrão Sal, concebido por um inspirado Cranston.

Embora existam diferenças abissais entre ambos e estas sejam até conflitantes em momentos iniciais, as boas e más recordações são preponderantes e indubitavelmente os deslocam para aquela tortuosa década de 1960.

Os diálogos sobre a existência e atuações de Deus e possíveis punições divinas, em meio a risadas altas, são elaborados com a já conhecido expertise do diretor e o resultado da combinação entre o talento interpretativo e o texto que parece estar aberto a improvisos será apreciado em distintos momentos.

O roteiro de Linklater e Ponicsan não deixa fazer sutil crítica à política bélica de George W Bush, ao rigor formal de generais e ao próprio (não) sentido das guerras. Mas claro, não há aprofundamento ‘político’ na posição contrária aos confrontos.

A Melhor Escolha é uma ode à amizade e à renovação de sentimentos “congelados” em tempos difíceis (sim, há lembranças sadias e hilárias dos tempos da guerra, por que não?). É um pequeno ensaio sobre o luto, o enfretamento de dores, amadurecimento e reflexão sobre conceitos de certo e errado.
Richard Linklater entrega mais um trabalho soberbo sobre pessoas comuns, conversas singelas e amenidades recheadas de significados profundos.

Três sujeitos distintos de meia idade, um casal apaixonado que viveu histórias em três fases da vida, a típica família americana, adolescentes loucos (e rebeldes). A vida de todos nós caberia numa obra cinematográfica.

É claro que os artifícios técnicos da sétima arte manipulam, ‘transportam’ e iludem até em sentido positivo. Neste caso, o show é da simplicidade!

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