Ganhar ou ganhar

Por Bruno Mendes


Em certa passagem de “A Grande Jogada” (dirigido por Aaron Sorkin), o pai orienta a filha no treinamento da prática de esqui, mas quando ela demonstra que não quer continuar e diz que está cansada, o adulto pontua: “Diga um sinônimo de cansada”. Sem pensar duas vezes, a jovem esportista responde: “fraca”, e volta a praticar a atividade praticamente esquecendo-se da exaustão. Tal sequência define um dos temas primordiais do longa de Sorkin, as consequências de se viver em uma sociedade competitiva onde ganhar é uma obrigação em basicamente todas as circunstâncias da vida.

Elencando a ênfase nos “focos”, nas determinações, dissabores e nas frustrações que são consequentes da corrida por sucesso – seja no âmbito profissional, esportivo, financeiro, etc – o filme é inspirado na história real de Molly Bloom ( foi indicado ao Oscar 2018 de Melhor Roteiro Adaptado), uma esquiadora, (interpretada pela atriz Jessica Chastain, sim ela é a garotinha descrita no parágrafo inicial) que após sofrer um acidente e perder a chance de participar dos Jogos Olímpicos, torna-se uma organizadora de jogos de poker, que reúnem endinheirados de todos os tipos: artistas de cinema, empresários e até pessoas de condições suspeitas no aspecto legal. Inteligentíssima e determinada, Bloom não demora a ganhar MUITO dinheiro em sua nova empreitada.

Como nem tudo são flores, a descoberta da presença de membros da máfia russa na jogatina, faz com que Molly enfrente problemas na justiça e ela recorre ao advogado Charlie Jaffey (o ator Idris Elba) para lidar com os imbróglios. Os flashbacks utilizados para trazer à tona situações da infância e adolescência da ‘princesa do Poker’ – recurso que pode se mostrar conservador/enfadonho, mas neste caso não prejudica a integridade narrativa da obra – dão luz à mostra da tortuosa relação de Molly com o pai Larry (o ator Kevin Costner), personagem fundamental para a construção do arco dramático que, em sentido amplo, é o cerne do filme.

Vaidoso, ultra egocêntrico e perfeccionista, o terapeuta sempre foi extremamente rigoroso nas cobranças da filha e ao longo do momento em que conviveram, demonstrou ínfimo afeto. E como por mais que rejeitem e discordem do modus operandi no tratamento, os filhos não deixam de ser – em grande medida – o espelho dos progenitores, ela se transforma em uma mulher centrada, destemida e extremamente hábil no convívio com homens poderosos. É tão fácil para ela unir e persuadir figuras proeminentes do high society estadunidense, quanto escapar de galanteios dos mesmos. É moleza deixá-los no vácuo.

Segura como mostrou em obras como “A Hora Mais Escura” e “Histórias Cruzadas”, Chastain oferece a complexidade emocional precisa, de uma das personagens femininas mais fortes e impactantes dos últimos anos no cinema. Do mesmo, modo, Idris traz multidimensionalidade ao advogado que não fica indiferente à personalidade de Molly Bloom. É prazeroso observar a dinâmica de dois grandes atores em cena.

Embora hora ou outra nas sequências do jogo de poker o longa torne-se um pouco “complicado” para quem não tem ideia sobre como funciona o conjunto de regras daquele universo (eu sou essa pessoa), nos eletrizantes e dramáticos embates de cartas, a narrativa é conclusiva ao apontar certa semelhança entre a personalidade daqueles homens e de Molly no quesito

“ganhar ou ganhar”. Ambição, perseverança e perspicácia estão na mesma trilha que ansiedade, depressão e alcoolismo.

“A Grande Jogada” não deixa de ser um filme sobre o mundo do Poker, mas acima de tudo é um drama centrado no “censo de urgência” de uma mulher – e em menor escala dos participantes do jogo – que deseja estar em constantemente em evidência e sofre na pele as consequências dessa “jornada”. O uso da narração voice over – recurso “perigoso” –, aliás, funciona adequadamente para estabelecer a ponte entre os dilemas de Bloom nas distintas fases e experiências da sua vida.

Molly Bloom, em certo momento da narração, cita uma frase de Winston Churchill que diz: “o sucesso é a capacidade de se mover de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”. Não há dúvidas de que a tal sociedade competitiva é uma fábrica de fracassados. Como vencer? O que de fato é o topo, a consagração?

A interessantíssima personagem vivida por Chastain não é uma rocha e expõe fraquezas e feridas – especialmente no último ato – mas assim como no treinamento esportivo, está sempre preparada para vencer o “cansaço” e partir para a próxima.

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