O ser camarim de cada um

Por Fabricio Duque


É inerente a todo e qualquer realizador de cinema lidar com as escolhas de qual caminho seguir em sua obra, até porque este profissional, por lógica, possui o controle absoluto do resultado final, como já dizia o cineasta francês François Truffaut. Sim, e principalmente se for do gênero documentário. E um plus a mais se for um retrato pessoal-familiar. É de se tirar o chapéu àqueles que aceitam a condição do ultra exposição de suas vidas a fim de criar terapias de suas existências.

“Quarto Camarim” é um exemplo que busca os bastidores da intimidade de uma vida particular e privada, optando-se por inserir, propositalmente, as fragilidades do próprio processo de criação para talvez estreitar a condição de uma melhor aceitabilidade do relacionamento amigável, inclusivo e participativo com seu público. É um documentário que supre a falta do passado com o encontro do presente.

É uma troca em tom exponencialmente caseiro, de forma amadora da própria imagem, preferindo mais o elemento conceitual da sentimento desencadeado que a preocupação com a iluminação cenográfica. O se estar ou não com o rebatedor, não importa. O foco escolhido é o livre discurso do cinema direto, de ligar a câmera (sem preparação) e tentar captar a essência da emoção, como o figurino do pai, que está de bermuda e chinelos.

O longa-metragem define-se muito mais na hesitação, de interpretar a espontaneidade à frente das câmeras, com suas recorrentes de interferências de trocas de carinho entre a diretora Camele Queiroz (a idealizadora e parte integrante) e seu companheiro co-autor Fabricio Ramos, estreantes na arte da direção. Aqui, na verdade, tudo é sobre a personagem-homenageada a ser perpetuada na História pelas lentes de uma afável câmera que só expõe suas belezas e nunca seus conflitos.

“Quarto Camarim” é sobre Luma Kalil, tio da diretora que se transformou em tia, um mulher confiante, elegante, perspicaz, espirituosa, corajosa, espontânea e “chique”, que lutou toda uma vida para ser plenamente o que sempre acreditou ser. Luma pode ser comparada fisionomicamente como um misto de Ingrid Guimarães, Paulo Gustavo (em “Minha Mãe é Uma Peça”) e Ney Matogrosso (este por causa do dentes separados). Ela transborda feminilidade, e não se sente excluída com seu salão de beleza e suas performances em boates.

Se analisarmos a filosofia em sua essência, então aceitaremos que toda e qualquer história de vida tem sua importância e merece ser contada, que é, primitivamente, a característica definidora de todo e qualquer documentário. Luma Kalil é acima de tudo uma figura fascinante, de luta transexual, de “marcar território” em um mundo preconceituoso, machista, hostil, cruel e de exclusão dos “diferentes”. Ela é um ser humano como qualquer outro, que sente dificuldades financeiras e que necessita mudar de estado para São Paulo como última opção encontrada.

O filme, que venceu o apoio do programa Rumos Itaú Cultural, por meio de uma abordagem documental, mostra o reencontro, depois de vinte e sete anos, entre uma sobrinha, que é a própria diretora, e a sua tia, com quem não manteve nenhum contato desde a sua infância. Sua tia se chama Luma, é travesti, trabalha como cabeleireira e vive em São Paulo.

Mas o que realmente incomoda em “Quarto Camarim” é a escolha de sua narrativa irregular, de colagem de instantes-elipses, de constantes fades temporais, de um que de egotrip, que prefere mais o auto-streaming de sensíveis emoções, perdidas no próprio querer objetivo de qual caminho seguir. O que se transpassa é mais um oportunismo do tema, que explorar um reencontro, que talvez só tenha surgido a ideia pela condição de minoria da tia, que ouviu da própria família que “não é aceita e que deveria ter morrido”.

Nós espectadores já testemunhamos muitos filmes deste gênero: de específica intimidade particular. “Os Dias com Ele”, de Maria Clara Escobar; “O Futebol”, de Sergio Oksman; “Elena”, de Petra Costa; “Não é um Filme Caseiro”, de Chantal Akerman. Todos estes trabalham a representatividade essência de seus homenageados. Mas no em questão aqui é muito mais um afago, um documento que complementa um perfeito e fofo álbum de família, ainda que em certos momentos, a própria diretora saia de sua zona de conforto e exponha o que acha que queria dizer com o filme.

“Quarto Camarim” não é ruim, tampouco desinteressante. Pelo contrário. Porém, sua forma excessivamente amadora e caseira soa como uma ingenuidade, uma inocente preguiça, em construir a própria obra, buscando no espectador uma cumplicidade sentimento-emocional (de final de novela das oito), muito semelhante àquela sensação de encontro de família em um almoço de domingo, que alguém liga a câmera e documenta livremente a organicidade da própria família.

“O filme acontece como uma composição que convida o espectador a participar do processo mesmo do filme e a fruí-lo como uma obra que entrelaça, a partir das contingências que fazem parte do teatro dramático do cotidiano, a memória afetiva da diretora e a vivência do reencontro com a sua tia Luma, combinando espontaneidade e mise-en-scène, tensões e aproximações”, seus diretores descrevem a obra no site oficial do filme.

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