Jornadas em livres tempos para andar, esperar, silenciar, amar e proteger

Por Fabricio Duque


A diretora alemã Valeska Grisebach (de “Sehnsucht”) imprime em seu mais recente filme, “Western”, sua característica principal, que a de analisar de forma humanizada e orgânica os seres humanos que convivem socialmente, precisando assim transformar seus silêncios em palavras, seus tempos em necessidades e suas sobrevivências em oportunidades.

O longa-metragem, que integrou a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2017, conduz-se pelo hibridismo de gênero, estreitando os limites do documentário (pela presença de não-atores) e da ficção, que se desenvolve pelo cinema direto, lembrando em muito a estrutura do brasileiro “Arabia”, de João Dumans, Affonso Uchoa.

“Western” é um road-movie de auto-conhecimento. De se aventurar em regiões a fim de recomeço, ida, vinda e ou perda. São instantes-detalhes-pontos que entram na vida do local. A câmera busca uma imersão ao acompanhar, em suas naturais ações, o solitário protagonista, trabalhador cortador de madeira (em um estilo Village People com seu brinco), colocando assim o espectador como companheiro de suas andanças e seus silêncios.

É acima de tudo sobre a existência social. Um grupo de trabalhadores alemães da construção civil iniciam uma jornada de trabalho dura em uma remota região rural da Bulgária. No local, enquanto o senso de aventura dos homens aparece, eles também são confrontados com seu próprio preconceito e pela desconfiança devido à barreira da língua e às diferenças culturais. Mas tudo se intensifica quando passam a competir por reconhecimento. É o afloramento do lado mais primitivo, de um perdido instinto ainda em limitada construção.

“Western” é pautado pelas micro-ações continuadas, pelos detalhes que ora conectam, ora afastam. Tudo ambientado em uma vista de bucólica beleza natural (de comtemplação editada) e pelo comportamento-testosterona hostil, não simpático e embrutecido de seus “desconfiados” e defensivos (e por implicantes conflitos por diversão simples e pura, como forma de passar o tempo e o tédio) colegas de trabalho (que trocam picardias como brincadeiras de “marcação de território” de “babacas machos-alfa” – e que se “comportam” como homens estereotipados quando veem uma mulher).

Mas nosso protagonista Meinhard Neumann foge do conceito padronizado. Não fala quase nunca, não é tão esperto assim e não sabe lidar com as mulheres (muito menos flertar, soando descompassado e incompatível). Mas possui uma latente sensibilidade e dom para domar um cavalo branco perdido. E para deferir frases adjetivadas de “moral da vida”.

O longa-metragem é também um retrato comparativo entre as culturas diferentes dos dois países “planeta forte”: Alemanha (“alemão, gente sofisticada”) e Bulgária (‘os brutos”). Cada vez Meinhard é mais estimulado às intolerâncias de próximos enciumados, gerando caronas “arrastadas” que o deixa em lugares inóspitos. Essa é a deixa para um novo começo. De madeira para pedra. Novo lugar, novas hostilidades e novas desconfianças dos “soldados da região”.

A confiança vem aos poucos, fazendo tudo o que precisa para trabalhar, e nas horas vagas, “pedras com rostos” e jogar Poker. Mas novas brincadeiras voltam a intimidar. Há a fofoca da vida alheia e o “dever” de usar a violência (que não é a dele), entre lutas livres de MMA. “E a Alemanha finalmente pedindo desculpas”, debocha-se.

“Western” é também acordar a obrigação da vingança, como por exemplo, o “cavalo pelo dama”. É quando “Forrest Gump”, de Robert Zemeckis encontra “Dogville”, de Lars von Trier. É um mundo de homens que potencializam seus machismos para provar masculinidade a outros homens.

“Eu cresci com o gênero faroeste, sentado na frente de um aparelho de TV na década de 1970, Berlim Ocidental. Senti o desejo de voltar a ele: me cativou profundamente. Eu queria lidar com os heróis solitários, melancólicos e a mitologia masculina. Fiquei entusiasmada com a modernidade do gênero – apesar de todos os seus elementos conservadores – em sua tentativa de capturar a construção social e a responsabilidade individual, ainda repleta de suas próprias contradições. Eu estava interessada na intimidade do duelo, a inversão do “amor à primeira vista. Todos os atores têm outros empregos. Eu me aproximei de Meinhard Neumann em um mercado de cavalos em Brandemburgo. Eu sabia que queria fazer um filme com ele. Com os outros atores, houve um tipo imediato de faísca. Ainda assim, houve um longo processo de conhecer uns aos outros, de casting e audições, para resolver com todos os envolvidos se e como poderíamos fazer este filme juntos”, disse a diretora Valeska Grisebach na coletiva de imprensa em Cannes.

“Há uma anedota sobre Milos Forman, que durante sua primeira peça, Black Peter, confiscou os roteiros dos atores pouco antes de começarem a filmar. Isso me inspirou desde o início e me encorajou a comunicar um roteiro verbalmente, a descrever as cenas e o diálogo em voz alta. Eu anseio por esse desfocamento, a imperfeição, a diferença entre a intenção e o momento em que acontece. Através de cada projeto, há filmes que me acompanham. Durante “Western”, por exemplo, foi “Profissão: Repórter”. Nunca posso resistir à atração de Antonioni, o desafio de considerar a arquitetura e o mecanismo de seus filmes. Para mim, pessoalmente, são as pessoas, os rostos e os momentos – o que você lê entre as linhas – que colocou tudo em movimento durante o cinema”, finaliza.

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