Cúmplices rivalidades co-dependentes

Por Fabricio Duque


Não é sempre que um documentário consegue equilibrar conteúdo histórico-biográfico com uma ágil narrativa que conjuga estética visual com empoderamento popular. “A Luta do Século”, de Sérgio Machado (de “Quincas Berro D’Água”, “Onde a Terra Acaba”, “Cidade Baixa”, “Tudo Que Aprendemos Juntos”), consegue, firmando-se como uma obra que se desenvolve quase que exclusivamente pela força de sua história e suas derivadas curiosidades.

“A Luta do Século” não floreia sua trama, indo direto ao ponto da principal questão de seus homenageados-personagens com seus confrontos. É um retrato aprofundado sobre a maior rivalidade do boxe brasileiro e sobre o histórico de lutas (com três vitórias para cada um) que inscreveu o nome dos lutadores Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield na história do esporte no Brasil. É também uma análise minuciosa sobre a luta que os dois boxeadores tiveram que travar contra as dificuldades da vida, sobrevivendo como podiam.

O documentário conduz o espectador por imagens de arquivos documentais, como passagens por recortes de notícias de jornais e apresentações (e entrevistas) em programas de televisão. Os dois, um de Pernambuco, o outro da Bahia, implicam e incitam mutualmente, e toda vez que se encontram, brigam ao vivo e em qualquer lugar (sempre que se encontram trocam socos como dois famintos por um prato de comida). Isto se tornou conhecido e uma característica determinante. “Deus que subia no ringue e ajudava a confundir os adversários”, diz-se.

“A Luta do Século” é a vida de cada um desses dois lutadores “boxe do Nordeste”, da fama (de “reinar no mundo do boxe) “Rocky Nordestino” ao drama nu e cru da realidade. Da mágoa da derrota à revanche do desempato na possibilidade da “luta do século”. Da inimizade encenada ao carinho apoiador. Suas biografias são expostas em pormenores pessoais, como Todo Duro e suas três esposas; a pobreza, o acidente que deixou um deles em coma e com o corpo queimado; a eleição para vereador; a selfie com a filha.

Era uma época, com suas lutas mais amadoras, diferentes das de hoje em dia que são enriquecidos espetáculos-entretenimentos. O de lá era a ação pela ação. O esporte pelo esporte. A vontade competitiva de superação. A vida influenciava na arte profissional e vice-versa. Os dois passaram a vida combatendo suas existências, estreitando ao máximo o espaço entre o lado pessoal e o trabalho. Ficção e realidade. “A coisa ficou pessoal. Tornou-se clima de guerra”, diz-se com alimentação de “raivas” geográficas-estaduais. Cada um sentiu a glória e a queda. De chegar próximo ao topo. De limites no tira-teima que descontrolaram nervos e que desencadearam prisões.

“A Luta do Século” resgata uma inocência debochada (principalmente por sua narração) e traz uma oportunidade de revanche para estes “aposentados há onze anos”. De acordar o sucesso, ainda que com as dificuldades do treino. A de perpetuar estes dois lutadores que transcenderam a própria história do boxe como figurativos ícones-mitos “velhos inimigos com uma rivalidade de mais de vinte anos”. Eles interpretam à câmera seus sustentados papéis, forçando a naturalidade da ofensiva briga bate-boca.

De tanto investir em seus “personagens”, acreditam que precisam brigar o tempo todo, descambando para uma rotineira brincadeira. O filme muda de rumo, estruturando-se como um diário filmado, um álbum “bravura” como título. Eles trocam cúmplices picardias (“matador de baianos”). São passionais e “famosos” em seus bairros. E de novo, interpretam com “gaiatices” suas brigas “rixas com faíscas” assim que chegam um perto do outro. Um desses momentos que gera gargalhadas no público é quando a repórter fica com medo perto deles.

“A Luta do Século” é “agora”. É divertido, orgânico e propositalmente amador (que de tão excessivo na soltura de sua forma perdeu-se na cadência de seu ritmo em costurar as quebras-reviravoltas), tudo para ser livre, respeitoso e adentrar na essência verdadeira destes dois “atores” da própria vida, condicionados entre o “teatro para promover” e a “raiva” intrínseca e motivadora que se deve sentir para lutar. Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield preparam-se para “a luta do milênio”. “Quem vai ganhar desta vez?”, pergunta-se. São “dois veteranos voltando ao circo do boxe” que marcaram uma nova luta, que buscam o título de campeão da Justiça e do povo.

O documentário foi integrante do Festival do Rio 2016, com sua primeira exibição pré-estreia no Cinema Roxy em Copacabana, e todos, incluindo nosso site, com a câmera ligada sem desligar esperando o midiático confronto (que não aconteceu). Concluindo, é um filme que conta, humaniza, diverte e coloca mais “fogo” na rivalidade de décadas destes dois indivíduos que passaram suas jornadas realizando suas maestrias de lutar e de “comprar um ao outro”, até porque quem desdenha…


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