Existências que amam e se completam na cumplicidade do errar

Por Fabricio Duque


Já foi dito que todas as histórias já foram contadas, e que essência de uma obra cinematográfica é como se traduz sua narrativa. “Amante Por Um dia”, do diretor francês Philippe Garrel (de “Os Amantes Constantes”, “À Sombra de Duas Mulheres”, “O Ciúme”, “A Fronteira da Alvorada”) bebe essencialmente da fonte do classicismo da cinefilia, em que a simplicidade do conteúdo sobrepõe-se à forma, mitigando multi-artifícios ilusórios (parafraseando o realizador português Manoel de Oliveira) e dando lugar à pureza do “prazer dos olhos”, como já dizia o cineasta François Truffaut.

“Amante Por Um dia” busca a estética estrutural da literatura, que é transposta na tela, permitindo assim que complexas questões existencialistas sejam analisadas pela palpável organicidade da vivência dos próprios sentimentos. O que se apresenta é o sensível material bruto efêmero das possibilidades infinitivas de se amar e de se enjoar em apenas setenta e seis minutos.

O outro é dotado de infinitude, particularidades, idiossincrasias e detalhes tão únicos que respeitam o processo temporal de cada um. Do aceitar, do mudar e ou de postergar medos retro-alimentados e co-dependentes, estes como um mecanismo de acovardamento contrastado e conflituoso com o real querer (e objetivo) do ser-humano que precisa estar no social.

“Amante Por Um dia”, exibido na mostra Quinzaine des Réalizateurs do Festival de Cannes 2017, pode ser entendido como uma sessão cognitiva de terapia direta, como um tratamento urgente, catártico, direto e de choque, que se cura pelo confronto com o mergulho ao medo mais profundo e ainda não aceitado.

Após um duro término de namoro, Jeanne (Esther Garrel – filha do diretor e irmã de Louis Garrel – de “L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância”, “Me Chame Pelo Seu Nome”, “A Bela Junie”) busca abrigo na casa do pai (Éric Caravaca, de “Irmãos”, e diretor estreante em “Carré 35”), um professor universitário. Estabelecida, a jovem extremamente abatida pela separação descobre que a nova namorada dele tem a sua idade e, superado o choque inicial, as duas passam a compartilhar segredos.

“Amante Por Um dia”, em fotografia preto-e-branco, cujo monocromática tem o papel de aprisionar a nostalgia na realidade do agora, criando assim a liberdade poética de se pausar o tempo para contemplar ações, reações e porquês de suas personagens no cotidiano abordado, e de expandir nossas percepções que se fosse com cores seriam limitadas.

A câmera (mosca) livre conjugada constrói a intimidade do sexo no banheiro, da nudez sem estímulos sexuais, do catarro que sai após o choro. É a personificação da naturalidade em espontâneos momentos da vida privada que somos convidados a participar de personagens interligados, como um emocional filme coral.

Aqui, por intermédio de um off que narra os sentimentos da história), nós podemos pessoalizar, com a praticidade objetiva do sentir, a melancolia, humores bipolares, amores livres, o sofrimento “mimado” que pede atenção (excessivamente sensível e de drama potencializado – de um imediatista, dramático, descontrolado, louco, frágil, jovem, surtado, narcisista, defensivo e esperado comportamento-reação de uma adolescente francês em meio a infortúnios afetivos), a submissão da volta à casa do pai após “acabar com o namorado”. São personagens que alimentam infelicidades como uma solução ao tédio que vivem.

“Amante Por Um dia” desestrutura maniqueísmos ao corroborar o humanismo nas relações: a crueldade detalhada da filha com a namorada do pai que não reclama, por exemplo. São cúmplices no entendimento destes característicos comportamentos rotineiros. E são ajudados com a trilha-sonora que os encaminha à próxima fase, com seus ruídos intensificados (de bater a porta, por exemplo). “Alguns são fiéis a coisas que não têm sentido para outros”, diz-se.

Entre músicas, sonhos, o ato de se amar instintivamente e a “filosofia que não é um divórcio com a vida”, o filme busca “despir-se das infelicidades” regando “plantas quando passa na rua”. Toda e qualquer ação de todo e qualquer personagem é alimentado com verborrágicas e cerebrais questões sobre o ir, o vir, o voltar, o querer e o tempo. São instantes “descobertos” em digressão e ou em “truques”, que ora funcionam, ora não, que dançam, que sentem ciúmes, que se preocupam com fugas-diálogos.

“Amante Por Um dia” é sobre o acaso. Sobre novos desdobramentos. Sobre novas traições. Sobre machucar quem não merecia. Sobre errar, acertar, perdoar e errar de novo. Sobre amantes profissionais. Sobre a aceitação das enganações. É sobre causos. De querer ou não saber. Sobre dizer e ou “nunca dizer”. “A vida é um longa que os olhos não veem”, dz-se.

É sobre o olhar para a pessoa, parar na frente e fazer com que o outro sinta-se nu. “A solução é fazer a mesma coisa: trair”, finaliza-se. É um filme que presta atenção nas sutilezas de uma vida que se experimenta na mais absoluta plenitude do existir.

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