Um documento que eterniza a coragem

Por Fabricio Duque


Uma das principais características da arte do documentário, a mais essencial (talvez), é informar com curiosidades biográficas sobre algum personagem histórico que passou mais despercebido por nossas referências, neste caso em questão aqui, com um que de contraditório e marginal demais para ser fofo (e com recorrentes tendências suicidas) sobre vida, existência e obra do poeta, letrista, ator e cineasta Torquato Neto, um ser intenso e impulsivamente apaixonado pela vida, tanto que não suportou a pressão do viver, a ponto de interrompê-la com o gás (a “melhor” forma e mais “eficaz”).

“Torquato Neto – Todas as Horas do Fim”, dos diretores Eduardo Ades (de “Crônica da Demolição”) e Marcus Fernando, que fizeram um “filme tropicalista”, resgata de forma humanizada a força desta figura polêmica e vanguardista, muito à frente de seu tempo, cujo existencialismo incompreendido o aproximava de sua sôfrega, melancólica e depressiva individualidade. “Eu sou como sou: pronome pessoal e intransferível. Acredite na poesia e viva ela – o poeta que trai sua poesia é um infeliz completo e morto. Resista.”, de um poema narrado pelo ator Jesuíta Barbosa, conjugado por uma trilha-sonora à moda de Jards Macalé.

A narrativa é construída por fotos (de família), imagens de arquivo, um único registro sonoro de 1968 com sua voz de Torquato, muitas referências de filmes da época (como “O Bandido da Luz Vermelha”, “Macunaíma”) e por livres depoimentos de Gilberto Gil, Tom Zé, Moreira Franco e Waly Salomão, por exemplo, que o adjetivam com poesias coloquiais (de “medula e osso”, “é a releitura brutalista, agônica, desesperada”).

Foi um espirituoso, perspicaz, sarcástico e altamente inteligente com um cirúrgico e popular humor natural “poeta maldito do vampirismo”, à margem, como uma união de Machado de Assis com Augusto dos Anjos, passando por Nelson Rodrigues, Humberto de Campos e Carlos Drummond de Andrade. “É poesia da vida e das marcas do Nordeste, com sua severidade dos elementos humanos e seus raquitismos”, diz-se.

“Torquato Neto – Todas as Horas do Fim” busca contar sua história pelo tom pessoal e íntimo, personificando sentimentos como os dos pais (“criaturas simples” que tinham “medo dessa inteligência de Torquato”), tentando assim traduzir pelos olhos dele os porquês de suas radicais escolhas, de sua tendência literária à estética semelhante de Ariano Suassuna (com muito de Charles Bukowski) e de sua angústia intrínseca, latente e incurável.

O documentário, que imprime uma fotografia de uma nostalgia envelhecida, insere inúmeras performances musicais de interpretações das músicas de Torquato, como “Mamãe, Coragem”, por Gal Costa. “A gente queria que ele fosse por um lado, mas ele ia para o outro”, diz-se seguindo com sua biografia definitiva na praia de Copacabana, nos filmes, com Caetano Veloso, contra o movimento Tropicalismo, como um “imigrante nordestino tradicional” que ainda recebia uma polpuda “mesada do pai” e que “dormindo” passou pelo ataque a Une.

Documentário sobre a trajetória de vida do poeta, cineasta, compositor e jornalista Torquato Neto. O longa-metragem acompanha da infância do artista em Teresina, sua cidade natal, até seu aniversário de 28, quando tirou sua própria vida após deixar colaborações indeléveis em movimentos artísticos como a Tropicália. O ator Jesuíta Barbosa dá vida a poemas e outros escritos de Torquato.

Torquato seguia com a “morte” espreitada, que escrevia compulsivamente com disciplina, especialmente sobre o amor. Era um carente e romântico incorrigível, que tinha Cachrinha como um gênio. “Seja marginal, seja herói” e que implicava com a Tropicália (“Tropicalismo para iniciantes”). Que tinha uma dupla personalidade, que era um inveterado pensador do “baião da solidão”, que não descansava a mente, que era um “louco” performático, que freqüentou voluntariamente o Hospital Psiquiátrico para curar a vontade de morrer e a de aceitar melhor a vida, que “destruía a linguagem”. “Quem não se arrisca, não pode berrar”, diz.

“Torquato Neto – Todas as Horas do Fim” cria e recria um documento histórico, de verdadeiras imagens de arquivo da época, passando pela coluna de jornal “Geleia Geral” de nosso realista homenageado, pelo exílio dos outros (“que quem voltou já era outra coisa”), pela “destruição natural da vida”, pela revista Nave Louca, pelos Beatles, por Jimmi Hendrix, a viagem pelo Europa, pela exposição de Helio Oiticica, pelo haxixe, que era “bonzinho para ouvir música”, pelo “deslumbramento por Londres”, pela obsessão tediosa de assistir “nove vezes” ao musical “West Side Story, pela “moda” do “Super 8” (“o quente é filmar” com a “bitola das poesias de família”). É “relembrar a força da rejeição para calcular a quantidade de novidades”, diz-se.

O filme é uma peça única, particular e de íntima afinidade história. Um mergulho nu e cru sobre a vida de existencialismo tortuoso e tumultuado do artista poeta Torquato Neto, que viveu todas as horas até o fim.

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