Um filme livre sem amarrinhas

Por Fabricio Duque


A diretora Joana Mariani cada vez busca mais o gênero religioso-sincretista. Seu mais recente documentário “A Imagem da Tolerância”, que co-dirige com Paula Trabulsi (de “O Astro”) pode ser definido como o fechamento da trilogia (“Marias”, “Maria: A Fé no Feminino”) sobre Maria, a Mãe do Filho de Deus. Aqui é questionado o poder da fé, a crença incondicional e absoluta na “madroeira” do Brasil. E também a tolerância em não “aceitar” os “diferentes”, mas sim em incluí-los como parte integrante de uma sociedade justa, solidária, amorosa, que potencializa a compaixão do “fazer o bem sem olhar a quem”.

“A Imagem da Tolerância” é um estudo pessoal-sentimental da fé nossa de cada dia. Como explicar este sentimento que “remove montanhas” e cura enfermidades? Que crença é esta que acalma os aflitos e indica o melhor caminho a ser seguido? Não é fácil, principalmente nos dias de hoje em que a submissão religiosa deu lugar ao empoderamento individualista, aumentando a ambiência do poder ser mais e de sermos os criadores de nossas próprias ações (e sofrimentos).

Chega a ser contraditório, em plena século vinte e um, a necessidade em modificar padrões comportamentais às aceitações das diferenças. Se antes o mundo reinava-se machista, heterossexual, misógino, preconceituoso, branco (até mesmo Jesus Cristo, que tinha olhos claros e cabelos loiros, ainda que judeu andante dos desertos da vida), então o agora deveria por lógica ser naturalmente tolerante, visto o desenfreado conhecimento da informação e o alto poder da ciência e da tecnologia.

Mas não. Ainda vivemos retrógrados e atrasados, muito estimulado pela Igreja Católica que aprisionava com culpa qualquer desvio fora da linha reta. O mundo mudou. E com a debandava dos fiéis, o templo católico também precisa se adequar à modernidade, e assim, escolheu o Papa Francisco, que possui “sensível alma feminina”.

“A Imagem da Tolerância” é sobre o amor incondicional e inexplicável à figura de Maria, que foi escolhida por Deus para ser a Mãe de seu filho, que por sua vez, seria crucificado pela Terra como solução radical obrigatória da mudança. O documentário aqui convida artistas (Maria Bethânia), padres, padre-cantor (Padre Marcelo Rossi), e uma artista travesti (Nanny People – devota e consciente de seu lugar na Igreja e na família) e pessoas comuns a fim de personificar com palavras esta fé que se impõe ímpar à alma humana.

É com “Sou caipira, Pirapora, Senhora de Aparecida. Ilumina a mina escura e funda. O trem da minha vida”, trecho de “Romaria”, de Renato Teixeira, na voz à capela de Maria Bethânia, que o filme é iniciado, mostrando o mar, rede e pescadores para com uma parábola visual estética contar a aparição da imagem de uma Nossa Senhora da Aparecida negra.

A história foi abordada na novela global “A Padroeira”. Os pescadores jogaram a rede e tudo o que conseguiram foram o corpo da imagem de uma santa e, na sequência, a cabeça dessa imagem, que era negra. Os homens atribuíram a imagem à Virgem Maria, rezaram e foram agraciados com uma farta pesca. “Roga por tudo, que tudo é teu. Maria de cada noite, de todo dia. Rainha de todas as horas”.

“A Imagem da Tolerância” é imagético e busca a tolerância religiosa. O drone que voa por romeiros e que mostra o templo de Aparecida (o “Reino mágico de Oz”); a fotografia estilizada com seus focos e desfoques traduz uma epifania sensorial de transcender o próprio corpo e uma simplicidade inexplicável. A imagem de Aparecida é devoção popular. É do povo. Dos romeiros (“que sempre vieram”) que madrugam na Catedral para vivenciar o quanto antes a experiência de transe religioso.

“Não tem a ver com a Igreja. Esta é a verdadeira fé. É o que se sente como forma de amor”, diz-se com depoimentos pessoais de monges budistas-tibetanos, umbandistas de Iemanjá, porta-bandeira e judeu. É o sincretismo. É a máxima de que Deus está em tudo e não somente em uma única religião. “Maria é a Senhora da tolerância”, rasgam os corações com amor sem limites.

É uma fé incondicional, aceita sem rebater. É passional, absoluta, emocional, intuitiva e primitiva, como os causos contados de milagres em projeção-coincidência e os pedidos de tudo dar certo em um desfile de uma escola de samba. São quereres urgentes, específicos, individualistas e familiares.

“A Imagem da Tolerância” é sobre o feminino resignado, sobre a “mulher que inspira a fantasia e o desejo. A transcendência e religiosidade. Compreensão e misericórdia. E sobre o homem que não aguenta a dor do parto”. É sobre a força da mulher pelo enfoque popular. De uma negra ter orgulha de uma Santa negra. É possibilidade, representação, esperança e expectativa. “A fé é um dom, tem que desenvolver”. E também subjetiva. É sobre o simbolismo da obra social, sobre a filantropia intangível de amar o outro em sua totalidade e “ajudar sem esperar retorno”.

É sobre o conceito do feminino. Sobre as mulheres como seres de amor com “energia do acolher”. É sobre não julgar o valor do ouro. É seguir pela “empatia, simpatia, amor e compaixão”. É igualar sabedoria (que resume o mundo) à tolerância. Maria é “poderosa, aliada, de proteção, acolhimento”. Atende na “urgência” como um “estábulo em uma montanha de ternura”. É um “artesanato da alma”. “O que nos une é muito maior que nos separa”, diz-se entre homenagens a Dona Canô (mãe de Bethânia, “que tem o espírito livre com algumas amarrinhas sem culpa” e Caetano Veloso), a Mangueira e ao Vaticano.

O documentário entende os fiéis por procissões, orações, devoções e aceita as “condições de cada um de ser o que é”. “Com o respeito casa, ganha o respeito do mundo”, diz-se. É um exemplo de fé de uma vida que testa a fé, uma “sincronia com Deus”. É uma simbiótica cristã, que “já fizeram loucuras tentando entender”. A imagem também é repleta de “contradições”, e por que não dizer provocações. “A imagem é uma escrava com aspecto de rainha. A Igreja do agora é mulher, que quer colocar seus filhos no colo”, diz Padre Marcelo Rossi.

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