Querida, a Humanidade encolheu

Por Fabricio Duque


Desde que o mundo é mundo, há a metáfora da diminuição física dos seres-humanos. A Igreja Católica transformava seus cristãos em simbólicos grãos de arroz para assim estimular recorrentemente a humildade. O cinema, representante das mudanças sócio-comportamentais, já abordou a pequenez em por exemplo na comédia americana dos anos noventa “Querida, Encolhi as Crianças”, de Joe Johnston; na animação cem por cento brasileira “Peixonauta – O Filme”, de Célia Catunda, Kiko Mistrorigo, Rodrigo Eba; e no recente alemão “Encolhi a Professora”, de Sven Unterwaldt Jr., entre tantos outros.

O diretor americano Alexander Payne (de “Nebraska”, “Os Decendentes”, “Sideways: Entre Umas e Outras”, “As Confissões de Schmidt”), que tem como característica principal imprimir uma atmosfera independente de hesitada estranheza, também embarca no tema ao apresentar “Pequena Grande Vida”, uma fábula-ode de ficção científica, de crença esperançosa na humanidade, investindo argumentos para provar que o indivíduo social ainda pode ter salvação, apesar de suas individualizadas idiossincrasias, manias, excentricidades, tempos existenciais de auto-crescimento, medos e ou impulsos primitivos.

O longa-metragem, que precisa da atenção do espectador para montar o quebra-cabeças, é iniciado com uma hipster música indiana, que lembra em muito o universo ambiente de John Hughes (de “Esqueceram de Mim”, “Curtindo a Vida Adoidado”, “Mulher Nota 1000), conjugado com a estrutura cinematográfica de Steven Soderbergh; e com “Okja”, de oon-Ho Bong. Mas são apenas inferências, visto que Payne já possui uma única estética narrativa, que nos aprofunda na complexidade das questões humanas por um fantástico realismo cientista de “ratos adormecidos”.

Corta. Cinco anos depois, na Turquia, é criado uma radical solução surreal-ambiciosa com o intuito de resolver o mundial problema da sustentabilidade (o “desequilíbrio da economia”): diminuir as pessoas. Alguém com um metro e oitenta seria transformado em apenas dezessete centímetros, em uma “redução celular se efeitos colaterais”. Do grande ao pequeno. Do incômodo à submissão de nunca atrapalhar. De nunca ser incomodado ao viajar de avião e ou descarregar o lixo. “É o único remédio viável para a humanidade”, diz-se em uma palestra de “vendas”. “A porta para felicidade está aberta”.

“Pequena Grande Vida” é sinestésico. O público sente o arrepio e a emoção natural sem manipulações e ou gatilhos comuns oportunistas, despertando nossos sentimentos mais básicos. É um conto de fadas de cunho socialista e tolerante com estrangeiros (o primeiro homem é norueguês), de pensar em comunidade (“Ficar pequena para crescer e mudar o mundo”), de ser uma “andorinha” e “ajudar a fazer verão”. O filme é também uma sarcástica crítica. “Encolhem, mas não descobrem a cura da fibromialgia”, reclama-se.

É também sobre resetar o universo. Recomeçar do zero. A vida que acontece agora afeta, oprime e limita. Sim, é entretenimento. E é encenado (à moda de “O Show de Truman”, de Peter Weir, com o propósito de escancarar a hipocrisia da futilidade alienante. É a filosofia do minimalismo. Então a aventura começa. A jornada a uma nova vida. Uma nova existência com “criminalidade zero”. “Não pode ter os mesmos direitos e não participar da economia”, discursa-se.

O “procedimento irreversível” (de um para 255 mil de dar errado – “confiança na tecnologia”) causa a sensação de que esqueceu de algo. Cada vez fica mais realista e lúdico (este por causa de sua música). Depilação, procedimentos invasivos, balé de corpos à mudança, o “parque da Disney”, a “chave do reino”. É utópico e distópico ao mesmo tempo. O mercado enlouquece, o ativismo ambiental cresce e os imigrantes tentam entrar. Não tem jeito, o ser humano sempre será um ser humano, sempre insatisfeito com seus presentes, buscando sempre o próximo passo ao futuro “Eldorado”. Sempre.

“Pequena Grande Vida” é sobre adaptação. Aprender a lidar com o pequeno. Com o simples luxuoso que não ocupa lugar. Festas, presentes grandes, mães solteiras, cartão de crédito, encontros, os problemas são os mesmos. Quem é solitário, continuará solitário, confrontado por vizinhos amigos. As pessoas não mudam porque diminuíram. “Se for pobre, só fica menor”, diz, como a empregada imigrante que rouba, e que mora no “outro lado da Disney”. Inferimos a “Projeto Flórida”, de Sean S. Baker. A vida segue. Sedex viaja mais rápido, o primeiro bebê, as drogas. É a jornada de transformação de nosso protagonista de experimentar momentos “relaxados” em efeitos psicotrópicos.

Na cidade de Omaha, as pessoas descobrem a possibilidade de reduzir de tamanho para uma versão minúscula, a fim de terem menos gastos vivendo em pequenas comunidades que se espalham pelo mundo. Encantado após ter contato com amigos que passaram pelo processo, um homem (Matt Damon) decide convencer sua esposa (Kristen Wiig) a adotar o curioso novo estilo econômico de vida.

“Pequena Grande Vida” tem um que de José Saramago, visto que aqui, os Estados Unidos é a “terra das oportunidades”. Pessoas egoístas do lado de muro versus os sobreviventes (“borboletas migratórias”), que vivem na “ilha dos fracassados” (mera coincidência com Cuba e ou México) e que se alienam assistindo televisão.

Nosso personagem principal ainda em esperança. Ajuda os necessitados e fala espanhol. O filme ganha o tom constrangedor, de tour original, de Arca de Noé, de hippie Woodstock, que verbaliza “os oito tipos de sexo para americanos”. É um épico de escolhas. De acasos seguidos. De fazer o bem. De silêncios. É um “Senhor dos Anéis” social. Ele aprende sobre o “desperdício assustador na natureza”, as rachaduras do sistema, a outra extinção (novos “dinossauros”). Com o perigo do mundo acabar, aprende também a amar as imperfeições.

“Pequena Grande Vida” é sobre a essência da vida. É sobre a origem antes da deturpação da espécie humana. É sobre a magia bucólica naturalista do campo. É retornar ao simples, ao que é necessário, libertando-se dos excessos mundanos e reconstruir amizades, amores, solidariedade e o altruísmo. Pode ser entendido como um filme de auto-ajuda, de parábola transformadora, de buscar o “pôr-do-sol”, porém é muito, mas muito mais que isso.

A atriz Hong Chau foi indicada ao Globo de Ouro 2018 na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante. É o filme mais caro de Alexander Payne. 68 milhões de dólares. “Eu venho de uma era de filme de autor na Alemanha. Werner Herzog, Fassbinder e Win Wenders fizeram filmes sem dinheiro, porque queriam fazer um filme nunca falando sobre bilheteria ou como quanto dinheiro o filme fez”, finaliza o ator Udo Kier, aqui no Festival de Berlim 2018.

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