Um frágil, enlamaçado e vingativo coração valente

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2018


Na coletiva de imprensa do filme hors-concours “Black 47”, seu diretor Lance Daly indica ao espectador o tom narrativo da condução da trama. “É um filme grande”, diz, dando a entender que a estrutura tende mais ao comercial, principalmente pelas cenas de ação. Sim, definitivamente é destinado ao grande médio público, mesmo quando disfarça inovações, como a língua clássica irlandesa.

“Black 47”, construindo-se propositalmente como um teatro com forma de cinema (com seu plano e contra-plano de edição rápida, mitigada de silêncios, é utilizado todos os gatilhos comuns, todos os clichês existentes e todos os artifícios palatáveis das ações-reações encenadas por diálogos-interpretações anti-naturalistas, como o choro histérico de efeito e sem lágrimas, para potenciar uma manipulação sentimental, visível e explícito pela presença da música que aumenta energicamente e “rasga” a cena. Nos primeiros dez minutos o público já absorve tantas frágeis e ingênuas armadilhas dramáticas (e já olha retoricamente ao relógio – visto que sabe que terá que suportar cem minutos).

A trama é sobre um homem e seu cavalo que retorna a sua terra natal (à procura de sua mãe) e encontra tragédias; e uma vida sofrida repleta de dificuldades controlada por detentores do poder absoluto. Seu propósito é “abandonar” o lugar e tentar a sorte na América das oportunidades. A câmera observa e espreita, como um personagem que contempla com medo cenas artificiais (por exemplo, quando o protagonista cai na terra, seu rosto suja-se rapidamente de lama – inferindo assim a “Coração Valente”, de Mel Gibson), e ou como uma cobra armada de defesas e instintos, que entende a violência primitiva do que assiste.

“Black 47” passeia e se ambienta por paisagens inóspitas e gélidas, inclusive com pessoas congeladas (cena esta tão terrível que gera um debochado riso e uma pena humanizada pela falta de talento empregado). É um faroeste irlandês de um desertor que usa sua raiva a fim de buscar vingança e restaurar a honra-orgulho de ser-humano ferido.

É também um filme coral, com núcleos que se encontram em um determinado e necessário momento. Mesmo que o espectador mais tolerante queira incondicionalmente acreditar com inquestionável cumplicidade, não consegue pela recorrência intermitente de caricaturas simbólicas e hipócritas maniqueísmos. Quando uma trilha-sonora de suspense começa, nós realmente temos a impressão de que é um filme de comédia, que usa um sarcasmo tão sutil para nos embalar em uma paródia. Mas infelizmente não é.

Entre julgamentos sociais, vingadores, perseguidores, “soldadinhos de chumbo”, “olhares superiores” altivos, músicas irlandesas (com um misto de Irã com India), porcos sem cabeça e pessoas com cabeça de porco, nós realmente desistimos do filme, porque nossa inteligência não é respeitada, nivelada como uma infantilizada pretensiosa obra. “Deus vem antes da comida”, grita-se.

Porém nem tudo é lama em “Black 47”. Há sim bons momentos (poucos) que salvam à cotação de uma câmera em nosso site, como a cena de conflito-confronto na fogueira. “Vai para casa, inglês”, diz-se. E ou quando nosso personagem principal não fala inglês, lutando e impondo sua tradição existencialista-geográfica.


Festival de Berlim 2018: “Black 47”


Do diretor irlandês Lance Daly (de “Life is a Breeze”, “Paixão Obsessiva”, e que participou do filme “The Commitments – Loucos pela Fama”, de Alan Parker, como a criança na Harmônica”).


Irlanda, 1847. Depois de lutar pela coroa britânica na guerra no Afeganistão, Martin Feeney retorna a sua pátria irlandesa como desertor. Ele encontra seu país com dificuldade. A fome destruiu as culturas e mais de um milhão de pessoas morreram. A família de Martin também foi afetada: sua mãe está entre as vítimas e seu irmão foi condenado à morte pelas forças de ocupação britânicas. O plano de Martin de emigrar para os Estados Unidos com sua cunhada e seus filhos falham, e testemunhar que seus últimos parentes remanescentes estão perdendo a vontade de viver. Em desespero, ele começa uma vingança sangrenta em toda a hierarquia social e política da Irlanda. Para parar esse vingador furioso, os britânicos contratar o inspetor Hobson que lutou com Martin no Afeganistão.


Adaptando o filme do curta “An Ranger”, Lance Daly baseia-se nos motivos do ocidente para seu drama sobre um capítulo sombrio do colonialismo britânico na Irlanda vizinha, que raramente foi dito na tela grande. O realismo ardiloso da fotografia transmite a miséria de pessoas que sofrem, e descreve indivíduos lançados à deriva em austeras paisagens.

Foi um dos maiores surtos de fome da história, a praga da batata nas plantações da Irlanda, entre os anos 1845-1849.


“Black 47” integra a seleção fora de competição do Festival de Berlim 2018.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados