Um filme sobre sonhos que esbarram na hora mais escura

Por Fabricio Duque


“Detroit em Rebelião”, de Kathryn Bigelow (de “Guerra ao terror”, “A Hora Mais Escura”), é um filme cruel. Sua diretora é uma torturada psicológica. Tudo porque busca potencializar a máxima da sinestesia do sentir em seu público. Nós somos cúmplices e observadores. Nós sofremos as mesmas dores, a mesma desilusão da morte dos sonhos. Inclusive de forma literalmente fiísica.

Nós somos lançados em sua experiência de personificar a xenofobia, a intolerância, a violência, o racismo, o machismo, o poder policial, o preconceito enraizado. Nós somos arrebatados pela câmera próxima e intimista. Pela pressão de seres que revivem a psicopatia à moda de “Violência Gratuita”, de Michael Haneke e ou a animalidade de “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick. Nós somos expostos a uma moderna e contemporânea “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, com seus novos “soldados inquisidores”. Nossa raiva é estimulado à moda de “Dogville”, de Lars von Trier. Queremos lutar, revidar, impor nosso lugar de indivíduo social. Nosso único “mal” foi ter nascido negro e pobre.

No verão de 1967, os EUA enfrentavam uma profunda inquietação social, com a Guerra do Vietnã e um número cada vez maior de casos de repressão racial. Durante os protestos em Detroit, a polícia local é chamada para investigar uma denúncia de tiros no Motel Algiers. Ignorando a lei, os policiais interrogam e torturam um grupo de afro-americanos, em um jogo mortal de intimidação. Ao fim da noite, três homens desarmados foram mortos e outros ficaram gravemente feridos. Baseado em uma chocante história real. É um soco no estômago.

Um filme necessário e imperdível que incomoda da primeira a última cena. E que reverbera a questão racial, que em 2017 ainda não diminuiu em nada e que volta com força total, vide o Festival de Brasília 2017.

“Detroit em Rebelião” configura-se como uma crítica a uma questão social que ainda persiste nos dias de hoje: o preconceito racial. O cenário temporal acontece nos anos sessenta, período em que a força tarefa dos policiais, os “capitães do mato”, era famosa por sua agressividade. Era o excesso de poder, que não se importava com direitos humanos. Uma festa de negros já era sinal de “alerta”, então estes excluídos, à margem das próprias existências, safavam-se por “espiões”.

A câmera “mosca” próxima e a edição em videoclipe insere seus espectadores a participar, a presenciar, a estimular a revolta, a rebelião. Somos olheiros. Qual o nosso lado? Pergunta esta, retórica, que nos obriga a escolher os mocinhos e os bandidos. Assim como a catarse da cena do primeiro “X-Men” (quando Eric “Magneto” usa as mesmas armas da polícia contra a própria polícia – como sobrevivência, proteção e vingança), aqui o filme também é a favor das minorias de cor. Os procedimentos policiais aumentam a tensão. E nós nos travamos impotentes dentro da tela do cinema. Lembrando, somos olheiros. Não temos voz e ação.

Entre fragmentos desviados do olhar, abusos, protesto que perde o controle desencadeando roubo, saques e depredação (inclusive de brancos que aproveitam a “oportunidade”), “Detroit em Rebelião” mergulha no mise-èn-scene de imersão total, sem suavizar nos dramas de alguns personagens, e desta forma, assume um estudo de caso testemunhal. Uma ação pode ser a gota extra d’água que derramará o copo.

Não se sabe mais quem é o inimigo. Tiros a esmo são disparados. Alguns acreditam que a violência não leva a nada de bom. Ficam “inertes ou loucos”. E vivem fugindo, com medo.

A narrativa, que intercala históricos arquivos políticos, é sobre sonhos engessados. Sobre oportunidades perdidas por “arruaceiros intolerantes”. O filme conta-se pela perspectiva pessoal de integrantes de um grupo musical, “The Dramatics”, que lutam para apresentar seus talentos à audiência, e consequentemente aos produtores de gravadoras, especialmente a Motown.

É um mundo “cão”, precisando que cada um deles invista tempo, paciência, suor e garra. Tudo pelo dom de cantar e de se projetar ao “The Supremes”, mas impedidos pelas brutais “advertências” de membros “psicopatas violentos” da polícia, que “não deixam supor nada”, que não “blefam”, que “deturpam provas” para atirar nos negros, vistos como “monstros”, e que precisam de um culpado para crucificar com “tática de interrogatório” e com sádicos jogos de poder. A crítica não cessa. O advogado negro tem cabelo alisado e precisa ser “branco” para ser respeitado. “Sempre há frutos podres. Até na polícia”, diz-se com um que de redenção a favor dos outros policiais não racistas.

Quase as mesmas palavras são usadas no filme “Três Anúncios Para Um Crime”, de Martin McDonagh, com um mesmo policial branco racista. “Se nos livrarmos de todos os policiais com inclinações racistas, então só teremos três deles que vão odiar os gays”, diz-se. Se lá há mudança comportamental ao politicamente correto, aqui, não nenhuma suavização é levantada, por menor que seja.

Nós, como já foi dito, sentimos a frustração e o medo deles. Isso nos causa raiva, impotência. Desejamos mentalmente a revidada igual à cena de Nicole Kidman no filme “Dogville”, de Lars von Trier.

“Detroit em Rebelião” caminho no limite da tensão. Não conseguimos descobrir o que acontecerá. É um filme acaso, desencadeado pelas próprias ações de seus personagens, um terror iminente da noite. Nos perguntamos: que ódio é esse? E lembramos de uma das cenas de “O Jantar”, de Oren Moverman, quando os filhos colocam fogo em uma moradora de rua.

Ainda que com um tom mais dramático no final, enaltecido por um música em coro, o longa-metragem é um exemplo maestria de um típico gênero catarse. É, talvez os americanos não estejam preparados para um radical confronto, aceitando apenas pontuações soltas temáticas. É uma pena. Concluindo, se o Oscar fosse diferente, “Detroit em Rebelião” ganharia de lavada as estatuetas peladas. E não podemos esquecer da música “It Ain’t Fair”, de The Roots (feat. Bilal), que encerra com chave de ouro.

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