Uma turbulenta fábula sobre o amadurecer

Por Fabricio Duque

Festival do Rio 2017


Unicórnio é um animal mitológico, que tem a figura de um cavalo e um único chifre em espiral na cabeça. É a representação da pureza, força e docilidade, adjetivos estes que também podem ser empregados nas construções cinematográficas do diretor Eduardo Nunes, cuja característica principal é a predileção pela fábula, mais ao realismo, a fim de traduzir metáforas cotidianas de cunho filosófico existencialista.

Seu cinema pausa o elemento temporal, assim nós espectadores somos conduzidos a um universo único, próprio, silencioso, perceptivo, de espera e de contemplação detalhistas de micro-ações, ora continuadas, ora em elipses de projeção imagética e imaginada. Se seu filme anterior “Sudoeste” criava a duração de uma vida em um dia, aqui em seu mais recente “Unicórnio”, há múltiplas existências possíveis para cada um.

“Unicórnio”, integrou a mostra competitiva ao Troféu Redentor do Festival do Rio 2017, e foi o filme vencedor do Prêmio Vertentes do Cinema, porque nós entendemos e vislumbramos a completude irretocável de uma obra que foi feita agora mas na verdade é para todo o sempre.

Nossa justificativa: “Pela inovação estética, pela unicidade narrativa, pela fábula existencialista, pela metáfora da descoberta da sexualidade, pela fotografia que nos aprisiona em um universo particular e lúdico, pelo desenvolvimento de tempo pausado, pela percepção psicológica do dentro para fora, pela liberdade despretensiosa de manter o significado do ser, pelo realismo fantástico à moda de “Mary Poppins”, pelo respeito a nossa inteligência de enveredar pela personificação do mundo de Hilda Hilst, pela filosofia poética do olhar”.

“Unicórnio” participa também da seleção da mostra Generation 14plus do Festival de Berlim 2018, que tem a presença ilustre do cineasta Felipe Bragança (de “Não Devore Meu Coração!”) como membro do júri.

A narrativa constrói a trama pela simplicidade do menos, mitigando excessos, gatilhos comuns e apoios. Por uma fotografia saturada ao constraste de uma luz viva, acordada, resiliente, como uma atmosfera de magia fantástica (quase como uma animação); por planos-ângulos estéticos (psicodélicos e plásticos como o desfoque e o zoom); por uma trilha-sonora sensorial de transcender o tudo que já está fora da realidade, o público contempla o lado de dentro de suas personagens. É presente e possível.

Suas emoções são catapultas que caminham na corda bamba limítrofe: de um lado a liberdade de se expôr o sentimento, do outro a hesitação silenciosa como proteção defensiva da desconhecida consequência.

“Você parece triste”, “Triste não, sozinho. Eu estou no meu canto”, dialoga-se por uma voz em off. “Começa por onde?”, “Pela infância. Um mundo maravilhoso que não volta mais”. O filme é um conto de fadas, uma epifania, como se suas personagens que possuem vocativos ao invés de nomes.

Maria (a atriz mirim Barbara Luz), uma menina de treze anos, está sentada num banco ao lado de seu pai (o ator Zécarlos Machado). A conversa que eles têm ali, conduz a narrativa do filme: acompanhamos a história na rústica casa de campo, onde ela mora com a mãe (a atriz Patrícia Pillar), e aguardam a volta deste mesmo pai. A relação entre Maria e a sua mãe muda com a chegada de um outro homem (o ator Lee Taylor).

“Unicórnio” pauta-se em um roteiro fragmentado, não linear. Precisamos montar o quebra-cabeças. À princípio sem sentido, a história não suaviza seu propósito. Vai com calma, ritmo e cadência, em um misto de nostalgia, saudosismo, lembranças, situações reais e da perspectiva das “frutas gigantes”, inferência sutil a “Alice no País das Maravilhas”.

Formigas, paciência, reconstituições, a casa, o refúgio “mais escuro”, a solidão, os esconderijos da “mente”, o vento sussurrante, o tédio desmotivado, o muro, a aceitação do permanecer na condição em que se está, tudo pode ser o pretérito do futuro do antes? “Ficar em silêncio e sentir a vida”. “O que tem no outro lado do muro?”, “As Ruas”, “E depois?”, “Mais ruas”, dialoga-se parecendo uma cena do filme “THX 1138”, de George Lucas. É poesia à moda de Manoel de Barros. Há um coloquialismo psicológico observado.

As metáforas ficam mais explícitas. O prego na árvore. É o simbolismo quase bíblico do despertar do pecado original. É “Beleza Roubada”, de  Bernardo Bertolucci. São sexualidades descobertas por sobreposição de imagens. “Somos os ratinhos de Deus”, diz-se, enquanto assistimos uma animação por traços simples. As emoções transmutam-se por sutilezas. Por diferenciados comportamentos. São parábolas em “ária gregoriana”. Os ruídos potencializam-se em uma apatia bucólica.

“Unicórnio”, adaptado da obra da escritora brasileira Hilda Hilst, é altamente filosófico, terapêutico e cognitivo. É sobre o ser-humano. Seus desejos e seus medos. Ao mesmo tempo que quer transpor o muro, também alimenta a ideia de que “o muro fique mais alto, para ter a certeza que nunca conseguir subir”. Desejo, medo e a fantasia da alma.

Maria descobre. Sente. Experimenta. Entende. “As pessoas mais velhas não precisam dormir muito”, ouve. Novos “chegantes”. Novas visitas. É a perda da inocência de um homem que mata a pureza. É a jornada ao mundo. É um filme que dilacera o próprio conceito da tumultuada mudança de uma menina em mulher, que se torna a “Chapeuzinho Vermelho” para um lobo irracional.


Festival de Berlim 2018: “Unicórnio”


Do diretor brasileiro, de Niterói no Rio de Janeiro, Eduardo Nunes (de “Sudoeste”, “Reminiscência”), 123 minutos. Com Bárbara Luz, Patrícia Pillar, Zé Carlos Machado, Lee Taylor.


– Não sei o que foi, pai. Eu acho que foi a luz que atravessou a janela e acendeu o rosto. Mamãe! Por que você parece tão bonito?
Em uma imersiva inundação de imagens, este drama misterioso retrata a idade de 13 anos de Maria, que vive em uma remota casa rural, sozinha com sua mãe. Quando um jovem se move para o bairro com seu rebanho de cabras, sua vida é repentinamente virada de cabeça para baixo. À medida que os desejos e medos secretos se agitam dentro de Maria, ela percebe ansiosamente que sua mãe parece ter ganho um respiro da vida. Maria confia apenas em seu pai, quem visita em um surreal sanatório. Por que ele está aí? E por que ele diz que Deus é mau? Maria decide dar um passo drástico.


“Fico muito feliz com a seleção para o Festival de Berlim. É um dos mais importantes festivais do mundo. E isso vai aumentar muito a visibilidade do nosso filme. E sei que – de alguma forma – estaremos contribuindo para a afirmação de uma cinematografia brasileira, com uma identidade própria e forte. E exibir o filme na mostra Generation é uma experiência bem interessante. Pois a personagem do filme é adolescente, e passa por uma experiência de auto conhecimento num ambiente em que está isolada de tudo; onde suas referências mais importantes vem da sua conflituosa relação com a mãe. Por isso, exibir o filme numa mostra onde o do foco é o universo adolescente é a possibilidade de discutir isso com outras pessoas interessadas nesse universo, essa parece a janela ideal para este filme.”, afirma o diretor Eduardo Nunes.


“Unicórnio” participa também da seleção da mostra Generation 14plus do Festival de Berlim 2018.


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