Um Indígena entre ávidos homens por mudanças

Por Fabricio Duque

Direto do Festival de Berlim 2018


Ao conhecer sobre a evangelização de indígenas que vivem na aldeia Paiter Suruí, o diretor-documentarista Luiz Bolognesi (realizador da animação “Uma História de Amor e Fúria”, roteirista de “Bingo – O Rei das Manhãs” e casado com Laís Bodanski, de “Como Nossos Pais”, “O Bicho de Sete Cabeças”) foi motivado a contar esta história como um observador estudo de caso documental. É uma crítica conduzida pela inferência, e muito construída pela expertise background de Luiz, formado em antropologia.

“Ex-Pajé” busca imergir o espectador em um tempo contemplativo, e de tempo real-pausado, do atual e transmutado estilo de vida destes “progressivos” indígenas, que sofrem, dia após dia, em uma mudança desgovernada, o desaparecimento de sua cultura, de seus costumes e de seus típicos comportamentos.

Se analisarmos profunda e cirurgicamente, então perceberemos que há dois filmes em um. Duas partes. A primeira que explora dramas, limites e limitações, e a segunda que desperta no público um sentimento de pena que desencadeia a raiva, por nos confrontar com nossos próprios comportamentos de homem branco que procura desenfreadamente pelo nosso individualismo blasé intolerante.


Festival de Berlim 2018: “Ex-Pajé”


Do diretor brasileiro Luiz Bolognesi (de “Uma História de Amor e Fúria“, que foi vencedor do prêmio Cristal de Melhor Longa Metragem em Annecy, e roteirista de “Bingo: O Rei das Manhãs“), 81 minutos. Documentário.

Até o contato do povo Paiter Suruí com os brancos, em 1969, Perpera era um pajé poderoso. Após chegada dos brancos, um pastor evangélico afirma que pajelança é coisa do diabo e Perpera perde seu papel na tribo, passando a viver com medo dos espíritos da floresta. Mas quando a morte ronda a aldeia, o poder de falar com os espíritos pode novamente ser necessário…


“Num momento em que as casas de reza indígenas estão sendo queimadas e os pajés demonizados pela violência evangélica, ter o filme Ex-Pajé selecionado para Berlim significa levar as vozes dos espíritos da floresta mundo afora através do cinema. Por isso, estou feliz.”, comentou o diretor.


O longa mostra o drama contemporâneo dos povos indígenas a partir da história de Perpera, um índio Paiter Suruí que viveu até os 20 anos num grupo isolado na floresta onde se tornou pajé. Após o contato com os brancos, um pastor evangélico afirma que os atos e saberes do pajé são coisas do Diabo e Perpera passa a viver um conflito interno. Apesar de se dizer evangélico e se definir como ex-pajé, continua tendo visões dos espíritos da floresta.


“O mais comovente neste cinema verdade que o Luiz Bolognesi se propôs a filmar com toda a delicadeza que o tema exige é a transformação de nós espectadores em testemunhas dos últimos minutos de existência de uma cultura milenar cheia de sabedoria que não foi registrada na história deste planeta e nem passada para as novas gerações. O último suspiro.”, conta a produtora Laís Bodanzky.


“É com grande emoção que Caio e eu recebemos a notícia da seleção oficial do Ex-Pajé no Festival de Berlim, pela nossa aliança com o Luiz Bolognesi e a Laís Bodanzky que são nossos parceiros de cinema e de vida e pela relevância do assunto que estamos tratando. Acreditamos que a história do Ex-Pajé dialoga com muitas histórias de minorias em todo mundo e foi isso que Berlim soube ver com muita precisão.”, comentou Fabiano Gullane.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados