O lado etéreo da alma russa

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2018


Exibido na mostra competitiva do Festival de Berlim 2018, o longa-metragem “Dovlatov”, do russo Alexey German Jr., é muito mais que um filme de biografia histórica, configurando-se como uma sagaz e híbrida sátira política, que estreita os limites com a metalinguagem. A responsabilidade de encarnar o personagem do título caiu nas costas do ator Milan Maric (de “Parada”), que interpreta pela economicidade à moda livre, espontânea e não encenada de Casey Affleck em “Manchester à beira-mar”, de Kenneth Lonergan.

Mais um aniversário da Revolução Russa está sendo comemorado em 1971, mas o país não apresenta progresso político, econômico ou cultural. Os manuscritos do judeu Sergei Dovlatov (Milan Maric) são rejeitados regularmente pela mídia oficial por ter uma visão indesejada na União Soviética. Outros censurados passam por problemas similares, como seu amigo escritor Joseph Brodsky (Artur Beschastny), que foi exilado à força pelo governo.

“Dovlatov” é um filme de passeio existencial, à moda de “8 e Meio”, de Federico Fellini,, como se seu protagonista daqui caminhasse igual ao de lá fora do corpo, tendo momentos divertidos, sem, contudo, estar totalmente presente. Busca-se uma atmosfera proposital de distanciamento, como que se dissesse ao público que nem mesmo a história abordada pode explicar o que acontece.

“A história, que nos ensina que em tempos sombrios, afeta o Estado, os cidadãos mais vulneráveis são os artistas, escritores e poetas. Dovlatov e Brodsky, que foram forçados a emigrar, não lutam contra o governo soviético. A única coisa que eles queriam era exercer suas profissões, escrever livremente. Nenhum país é imune das tragédias. Este filme é uma maneira de entender a vida russa, construído em imagens visuais da vida sob a Cortina de Ferro. É um filme sobre o destino inevitável de um indivíduo, sua família e seus amigos em um tempo muito difícil”, tenta explicar seu diretor Alexey German Jr. na coletiva de imprensa em Berlim.

O longa-metragem também busca a nostalgia quase saudosista pela fotografia nevoada. Com uma narração resignada, em Leningrado, no início dos anos setenta, conjugada com o jazz nos créditos de abertura, nós somos convidados a viajar. A participar de uma imersão ao submundo da vida artística, boêmia e livre, com seus jogos de futebol, papos socialistas.

Seus personagens “impressionistas” e “abstracionistas” estão “cansados de não serem ninguém”, ainda que “gentis e talentosos”. E, ainda, precisam escrever sobre outros assuntos, animais, por exemplo, para sobreviver. A câmera acompanha tudo atentamente em longas tomadas, como personagem observador. É um teatro de ações com seu “círculo vicioso” e humor espirituoso, histérico, nervoso, desengonçado, brincalhão, adjetivado, sarcástico, nervoso, naturalista, humanista, perspicaz, silencioso e de verborragia implicante com os outros, inclusive com o “capitalismo da França” e ao interpretar eles mesmo com nomes famosos.

“Dovlatov” é muito mais que uma simples biografia ficcional, integrando filhas, figuras protagonistas que não desligam nunca seus pensamentos e seus antagonismos. É um estudo de caso sobre uma época política em que “imigrantes têm medo da própria sombra”. Entre manuscritos não publicados, tipos de metáfora, guerras diárias, os ciganos, as bebidas, a “vulgaridade do Moulin Rouge”, “King Kong”, Pink Floyd, a obra “Lolita, indecente, mas fascinante”, o filme faz uma auto-análise não sensível de “fantasmas” reais. De sonhos deturpados. De uma estranha e amadora epifania. Não há como negar que aqui tem um que do universo de Woody Allen.

“A literatura não pode ser mais ou menos”, diz-se. É quase um Mockumentário de pessoas “honestas e simples”, que “dizem o que pensam a respeito” de tudo e todos. Ainda que a narrativa perca ritmo, fique mais encenado, galgando outro tom, insira muitas outras questões, aborde muitos outros tabus, ainda assim, nós espectadores já estamos vivendo, compactando e tentando entender essa comédia da vida privada tão intimista e tão ficcional. Concluindo, “Dovlatov” é uma competente homenagem a estas figuras artísticas que foca em um período de suas trajetórias até suas transformações em ícones políticos.


Festival de Berlim 2018: “Dovlatov”


Do diretor russo Alexey German Jr. (que concorreu na 65a edição da Berlinale com “Under Electric Clouds”), 126 minutos. Com Artur Beschastny, Milan Maric, Danila Kozlovsky.


Leningrado, novembro de 1971. A cidade está envolta em névoa. Um outro aniversário da revolução está sendo celebrado, mas o país não está fazendo nenhum progresso – política, econômica ou culturalmente. Sergei Dovlatov (o ator Milan Maric) tem seus manuscritos regularmente rejeitados pelos meios de comunicação oficiais. Sua visão sobre coisas e pessoas não é levada em conta. Outros estão enfrentando problemas semelhantes, um deles é o amigo Joseph Brodsky (o ator Artur Beschastny). Sergei, no entanto, está determinado a permanecer e levar uma vida normal com sua esposa Lena (a atriz Helena Sujecka) e sua filha Katya. Ele quer escrever sobre a descoberta da realidade, sobre os trabalhadores do estaleiro e sobre a construção do metro, em que um dia os corpos de trinta crianças são descobertos durante a Segunda Guerra Mundial.

O filme de Alexey German Jr faz uso de grandes quadros de rastreamento prolongado para retratar o mundo do escritor russo-judeu Sergei Dovlatov (1941-1990), cujos textos imprimiam ironias e foram proibidos (sua impressão) na União Soviética sob o comando de Brejnev.


“Dovlatov” integra a mostra competitiva oficial do Festival de Berlim 2018.


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