Muros sem liberdades próprias e com ditaduras invertidas

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2018


Exibido no Festival de Berlim 2018, na categoria fora de competição, “7 Dias Em Entebbe” corrobora a estrutura cinematográfica mais Hollywoodiana que diretor José Padilha (que venceu o mesmo festival em 2008 com “Tropa de Elite”) vem trilhando nos últimos anos (vide a nova versão de “Robocop”).

A trama, baseada no livro “OperaçãoThunderbolt: Voo 139 e o Sequestro no Aeroporto de Entebbe”, de Saul David, é pululada de gatilhos comuns, que suavizam, amenizam e deixam mais palatável a história construída. É uma novela de ação transformada para ser exibida na tela grande, com seus característicos e genuínos clichês, óbvias e encenadas reviravoltas e diálogos, que de tão superficiais, beiram uma tentativa forçada de naturalismo.

“7 Dias Em Entebbe” objetiva ser um documento ficcional político, livremente inspirado no acontecimento real do sequestro de um voo de Tel-Aviv à Paris forçado a pousar em Entebbe, na Uganda. Por uma edição de limítrofe perigo iminente, o roteiro intercala encenada reconstituição com conceito de uma performance teatral a fim de construir o simbolismo das ações, reações, imaturidades e radicalismos de protestantes-terroristas que almejam “consertar” o mundo moderno.

Cada personagem vítima-sequestrado, assim como os “algozes”, são humanizados em seus dramas pessoais, buscando destituir a simplista percepção maniqueísta. Os duzentos e trinta e nove passageiros (sendo oitenta e três judeus) são mantidos reféns para que seja negociada a liberação dos terroristas e anarquistas palestinos presos em Israel, na Alemanha e na Suécia. Sob pressão, o governo israelita decide organizar uma operação de resgate, atacar o campo de pouso e soltar os reféns.

A narrativa, contada por dias, com câmera próxima, na mão, em planos diretos, desenvolve os conflitos, questionamentos, desmandos, redenções, porquês, causas, e potencializa a força da música, que participa não mais como um elemento técnico, e sim como uma participante decisiva que manipula, direcionando a emoção de quem assiste e completando silêncios para que não entremos em divagações.

“7 Dias Em Entebbe”, configurando-se como a maioria dos filmes de gênero de ação, pede cumplicidade ao público para explorar frágeis liberdades poéticas, como por exemplo, a arma que passa no controle de um aeroporto da Grécia. Os diálogos, por interpretações de efeito (histéricos, apressados, urgentes e desengonçados) são milimetricamente explicados, soando como um episódio mais descuidado (até mesmo pela presença do alívio cômico ingênuo de “Voar pela Air France” e seus plano e contra-plano) da Netflix, que exibe “Narcos” e “O Mecanismo”, ambos criados pelo diretor do longa-metragem em questão aqui.

Padilha, ao longo de toda duração, “morde e assopra”, tudo dentro do permitido e aceitado do politicamente correto. A reunião diplomática e suas negociações políticas, os argumentos Israel versus Palestina, o recolhimento do passaporte, a condescendia em deixar uma menina ir ao banheiro, lutadores de luta livre versus terroristas, a questão no Oriente Médio (pelo nivelamento superficial), a falta de prática do sequestrador, os que “desistem”, “suicídio político”, os “heróis da África”, slogan anti-fascista, a vítima do nazismo, a ética da tripulação de ficar. “Se fizermos certo, conseguimos o que queremos”, diz-se.

Outros filmes já citaram o sequestro em Entebbe: o israelense “Operação Thunderbolt”, de Menahem Golan; a minissérie “Resgate Fantástico”, de Irvin Kershner; e “Vitória em Entebbe”, de Marvin J. Chomsky, este com grande elenco: Kirk Douglas, Richard Dreyfuss, Elizabeth Taylor, Burt Lancaster, Anthony Hopkins.

Mas é em “7 Dias Em Entebbe” que a história é contada de forma mais abrangente e mais pessoal. Temos aqui Wilfried Böse (o ator Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (o atriz Rosamund Pike) lutando pela liberdade da Palestina, e o ministro Shimon Perres (o ator Eddie Marsan) “protegendo” Israel de alguma “invasão”. Só que infelizmente não há química crível. Não conseguimos acreditamos e embarcar no voo.

De um lado, o discurso do movimento revolucionário. De outro, a política reinante. “São humanos, podem ser enganados”, “Alemães mataram judeus, não quero matar pessoas”, Você tem dúvidas? Então deve ir embora”, frases esses que desejam despertar nossas humanidades mais sensíveis. Eles não são “assassinos”, são lutadores sociais. Viu? Morde e assopra. Em hesitações palatáveis. Padilha disse que foi convidado a este projeto justamente “por não tomar partido” e “não defender nenhum dos lados”. Em certos momentos, muitos até, as frases saem das bocas de suas personagens como se estivessem acabado de decorar o roteiro. “Não há escolhas”, alguém diz e é rebatido com “Há sim!”.

“7 Dias Em Entebbe” ganha maestria quando intercala a performance do espetáculo teatral de Ohad Naharin (que já foi abordado no documentário “Gaga – O Amor Pela Dança”, de Tomer Heymann), com seus dançarinos que traduzem dores, tiros, sangues, bombas, crenças, catarses, submissões, medos, poesias e textos subjacentes. “Um dia você precisa aceitar e fazer a paz”, confronta-se. É um balé centrista que convida a todos, gregos, troianos, americanos, berlinenses, brasileiros, judeus e palestinos, a olhar sem opinião e a dançar conforme a música que não muda e não transforma sua melodia.


Festival de Berlim 2018: “7 Days in Entebbe”


Do diretor brasileiro José Padilha (de “Tropa de Elite“, “Narcos”, “Garapa”, “Segredos da Tribo“, a nova versão de “Robocop”), 107 minutos. Com Rosamund Pike, Daniel Brühl, Eddie Marsan. Fotografia de Lula Carvalho. E edição de Daniel Rezende (que dirigiu “Bingo – O Rei das Manhãs“).


Em 27 de junho de 1976, quatro seqüestradores sequestraram um voo da Air France, por dois membros do PFLP (A Frente Popular para a Libertação da Palestina) e dois membros alemães do grupo extremista de esquerda, células revolucionárias. O avião estava a caminho de Tel Aviv para Paris. Eles confinaram mais de uma centena de reféns – principalmente israelenses – por uma semana inteira. Entre outras exigências, eles queriam a libertação de quarenta terroristas e combatentes palestinos presos. O filme reconstrói o que aconteceu depois que a aeronave pousou em Entebbe, lugar que os sequestradores foram apoiados pelo ditador Ugandan Idi Amin. Com base em novas pesquisas, o filme oferece sua própria versão do sequestro, em particular no que diz respeito ao lançamento de reféns não-judeus. Ao mesmo tempo, descreve com minuciosos detalhes os esforços do governo israelense, cujo comando de segurança acabou trazendo todo o evento ao fim pela força.


Como em suas obras anteriores, o diretor José Padilha usa eventos reais como uma oportunidade para explorar temas de medo, violência, destruição e autodestruição.


“7 Days in Entebbe (7 Dias em Entebbe)” integra a mostra fora de competição do Festival de Berlim 2018.


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