Cinema para emocionar

Por Bruno Mendes


As possibilidades são amplas e igualmente desafiadoras quando se busca retratar as consequências de uma tragédia. Traumas são peculiares e na perspectiva da representação artística, a boa ficção transporta o espectador para o desconforto, o drama. Pensa nas perguntas: qual o olhar e a impressão cotidiana de um sujeito que perdeu parte das duas pernas após explosão? Como absorver as lembranças terríveis – refletidas em conta gotas – ao ver o próprio corpo ensanguentado e desfalcado de membros, enquanto se está deitado no chão em cenário semelhante ao de um campo de batalha no Vietnã ou Iraque? Vamos às respostas do cinema.

O filme “Stronger – O que te faz mais forte”, dirigido por David Gordon Green (de “Prova de Amor”, “Joe”), é uma adaptação do livro homônimo escrito por Jeff Baumann e Brett Writter. O autor da história Jeff Baumann (o ator Jake Gyllenhall) é um sujeito alto astral e para reconquistar a ex-namorada Erin (a atriz Tatiana Maslany, que protagonizou a série de sucesso Orphan Black), faz um cartaz carinhoso e vai assistir à participação dela na Maratona de Boston. Contudo, no fatídico 16 de Abril de 2013, um atentado no local deixou mais de 170 feridos e Jeff perdeu parte das duas pernas. Contando com o apoio da família e de Erin, Jeff busca se restabelecer física e emocionalmente.

A angústia do protagonista de Stronger conduzem aos questionamentos do primeiro parágrafo, dentre alguns outros. Têm-se um “filme de superação de tragédia” envolvente, graças ao excelente desempenho do elenco e aos destaques importantes e verossímeis nesse campo do “enfrentamento das dores”, muito dos quais presentes nos altos e baixos da dinâmica familiar e na necessidade de amadurecimento para salvar uma relação amorosa. Há primor no desenrolar de tais questões, sem dúvidas.

Construído como um sujeito carismático e leve, Jeff também é imaturo e, por vezes, irresponsável. Justamente por “furar” compromissos e ser exageradamente influenciado pela mãe, sua relação afetiva com a sensata Erin enfrentou tantos percalços antes mesmo da tragédia.

Se por um lado o protagonista é estimulado pela família a dar entrevistas e a enxergar a si próprio como um herói – algo que ele contesta a todo o momento – sua parceira enfrenta a matriarca e busca auxiliá-lo por um viés mais maduro e racionalmente adequado à situação.

Aliás, chega a ser inquietante e chata a urgência midiática em reconhecer nuances heroicas aliadas a determinado “orgulho americano” (ao meu ver, postura politicamente oportunista, como tantas outras) na vítima. E é uma pena que a filme embarque nesses floreios e as exaltações nacionalistas ganhem contornos foras do tom. Jeff sofreu consequências físicas após um atentado criminoso, mas é um sujeito normal, errante: beberrão, meio “criança”, bom coração, apaixonado. Por mais que seja louco por um esporte símbolo dos Estados Unidos e tenha valores patrióticos, não é um herói. Nem quer ser!

Voltando às qualidades: o longa indiscutivelmente ganha pontos quando Gyllenhall e Maslany estão em cena juntos. O trabalho do ator de O Abutre e O Segredo de BrokeBack Moutain é pontual ao oferecer concretude às distintas percepções de mundo de Jeff e suas tomadas de atitude em meio àquele caos. E sua companheira de cena é hábil ao conceber uma personagem ponderada, empática ao último nível, mas ao mesmo tempo, sufocada por carregar tantos problemas nas costas.

A sequência do carro, na qual ambos discutem de forma intensa após a apresentação de uma novidade e Baumann se movimenta em desespero atrás da moça é um competente registro de explosão de sentimentos. Infelizmente o emprego intrusivo da trilha sonora piegas em distintos momentos do casal – e, É CLARO, nas referências ao tio sam – atrapalha boas intenções e empurra a obra para aquela gaveta dos “filmes feitos para emocionar. Raso!

“Stronger – O que te faz mais forte” é eficaz nos instantes em que coloca a lente de aumento na construção dos personagens, nas interações e exposição dos caminhos que o protagonista percorre para recuperar a saúde. Em contrapartida despenca degraus ao insistir em componentes simplórios para comover o público.

Cinema é manipulação e a obra, hora ou outra, atinge bons objetivos, mesmo no campo do lugar-comum. Mas aguentar o lenga lenga patriótico em alto volume já é um pouco demais.

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