E mais uma noite foi salva…

Por Fabricio Duque


Uma das primeiras ideias que passam pela cabeça do público quando assiste à animação “Meu Amigo Vampiro” é a de que realmente fomos mal-acostumados pela estética-atmosférica da Disney-Pixar. Nossa mente divaga e inevitavelmente busca encontrar a perspicácia da narrativa que une emoção naturalista com um espontâneo alívio cômico. Não que o filme em questão seja ruim, pelo contrário, mas nós esperamos o mais, a surpresa, a precisão do ponto que nos desligue da realidade e nos faça mergulhar em nossos sentimentos mais primitivos.

Os diretores uniram forças e referências anteriores. Richard Claus, que de certa forma traz em sua carreira uma “obsessão” perceptiva do universo fantástico (ele foi produtor de “O Pequeno Vampiro”, de Uli Edel; e de “Um Lobisomem Americano em Paris”, de Anthony Waller), além de dirigir “O Senhor dos Ladrões”, uma espécie de Robin Hood infanto-juvenil. Já Karsten Kiilerich importou seu conhecimento no gênero animado com “Mamãe, Virei Um Peixe”, como roteirista, e diretor em “Putz! A Coisa Tá Feia”).

“Meu Amigo Vampiro” desenvolve-se pelo politicamente correto, e se figura como uma obra essencialmente infanto-juvenil voltada para toda família. O filme é propositalmente ingênuo, pautado na simplicidade inocente das crianças, as protegendo de palavrões, de piadas aprofundadas demais, da morte (como a cena salvadora da explosão do avião) e até mesmo de personagens sem camisa (e com uma larga cueca).

O tema principal é a amizade incomum entre um pequeno humano e um vampiro. Os dois embarcam em uma aventura de aceitação das diferenças. E nos conta que o vampiro Rudolph, entediado, prestes a completar o trigésimo aniversário pelo 300º ano, decide se aventurar no mundo dos humanos por novidades. Por um acaso, fica amigo de Tony, adolescente de 12 anos apaixonado por assuntos vampirescos.

O filme, baseado na série best-seller “My Little Vampire” da escritora alemã Angela Sommer-Bodenburg – os livros já venderam mais de 12 milhões de cópias), aborda outra questão: a intolerância à existência do próximo. Um caçador de vampiros (à moda de Abraham Van Helsing) investe todo o tempo para caçar os “chupadores de sangue”.

Rudolph internaliza as principais características da infância: curiosidade, impaciência, impetuosidade, imediatismo, desejo exacerbado pela liberdade, crença absoluta na força de si mesmo, um irreal otimismo, uma pureza automática e poética, e a descoberta do carinho afetivo (e da sexualidade platônica e o ciúme defensivo). O roteiro, visando ganhar o coração de seus espectadores, utiliza mais um objetivo a ser atingido, que o acréscimo e o resultado.

Assim, a atmosfera encenada ao humor paspalhão-infantilizado permanece na superficialidade (como vacas voadoras), quase teatral, de despertar a magia por si só como um gatilho comum sentimental. É completamente o inverso da estrutura criativa da Pixar. Como já foi dito, não é ruim, mas é comum, ordinário, aceitando o nivelamento em uma padronizada zona de conforto, onde crianças mortais e importais unidas “salvam a noite, a família, a amizade e o hotel” dos perigos “xenófobos” de intransigentes preconceituosos.

Para proteger seu novo amigo “cool”, Tony entra em um impasse com Roque e coloca em perigo não só o vampiro e seu clã, mas também sua própria família. Não há como não referenciarmos “A Família Adams”, “Drácula”, “Hotel Transilvânia”, “E.T. O Extra-Terrestre” pelos detalhes como alho, crucifixo e urnas mortuárias. Entre camadas aventureiras de acaso reviravolta, “Meu Amigo Vampiro” cumpre seu papel de divertir pela simplicidade, ingenuidade e inocência sem recursos perspicazes e ou voltados aos adultos. Concluindo, contextualiza-se a mensagem que se acreditarmos, então o impossível torna-se possível. E que a esperança vem de onde menos se espera de ideias fantasiosas de pequenos que não conhecem o não como resposta.

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