O Mal Entendido Dente por Dente

Por Fabricio Duque


“O Insulto” figura-se formalmente como um estudo de caso, que talvez consiga na essência explicar todo o background passado das questões do Oriente Médio. Estas pontuações pautadas por sensibilidades idiossincráticas de comportamento orgulhoso e defensivo, que desde o mundo é mundo, desencadearam guerras.

Aqui, um “mal entendido”, ou um considerado simplista minúsculo rebatimento nomeado como “insulto”, retroalimenta reações mais primitivas de dois indivíduos em dois lados sociais, que sofreram massificação psicológica de engolir crenças já concebidas por outros próximos. É inerente ao ser humano o enraizamento de sua individualidade, mas o mesmo precisou aprender que o universo em que vive é plural e comunitário.

É um conflito filosófico e fisicamente interno. Todos nós fomos ensinados a tolerar a presença do outro, a dar a “outra face”, contudo na verdade, no real âmago desejoso o “dente por dente” da máxima “farinha pouca meu pirão primeiro” impera, causando uma contradição que pode ser manifestada de inúmeras maneiras por nosso corpo.

Em “O Insulto”, dirigido pelo libanês Ziad Doueiri (de “O Atentado”) que concorre na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2018, parte dessa premissa para nos mostrar uma antropologia antropofágica comportamental dos humanos, seres que se desenvolveram nas aparências mas não nas emoções.

Assim como as experiências de “Detroit em Rebelião”, da diretora Kathryn Bigelow; de “A Separação”, de Asghar Farhadi; e “O Julgamento de Viviane Amsalem”, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz, o filme em questão aqui busca despertar a sinestesia, nos imergindo e nos mergulhando em uma onda de raiva-consequência que mais parece a de adolescentes no auge de suas descobertas hormonais.

Nós seres sociais somos “convidados” a julgar as causas de cada um dos lados, assim nós mesmos somos analisados e confrontados a perceber nossas pequenezas. Sim, nós somos animais em construção, em um processo constante, diário e temporal.

O longa-metragem busca o coloquialismo da realidade em uma encenação ficcional, e embasa uma proteção de sua crítica quando no início informa que “não reflete a opinião do governo libanês, só dos autores e do diretor”.

“O Insulto” pode ser considerado uma colagem de referências-discursos que nós recebemos da vida cotidiana em que vivemos, como o “partido cristão que sustenta o Estado” contra “palestinos”. A narrativa de cinema direto (com seus cortes e elipses de micro-ações continuadas) constrói uma atmosfera com um que de novela por seus núcleos, dramas, porquês, motivos e motivações.

A trama acontece em Beirute, capital do Líbano que é conhecida como “Paris do Oriente Médio”. Toni (o ator Adel Karam) é um cristão libanês que sempre rega as plantas de sua varanda e um dia, acidentalmente, acaba molhando Yasser (Kamel El Basha, vencedor de Melhor Ator no Festival de Veneza 2017), um refugiado palestino. Assim começa um intenso desacordo que evolui para julgamento com ampla cobertura midiática e toma dimensão nacional.

O que poderia ser interpretado como um “mal entendido”, uma discussão natural, ganha então uma hiperbólica dimensão, potencializando assim uma exposição visceral de sentimentos racistas, xenófobos e machistas por ingênuos julgamentos que estão intrínsecos a todo e qualquer ser humano.

Um “pequeno” insulto provocativo começa literalmente uma guerra, mergulhando nas mais primitivas sensibilidades defensivas de indivíduos que não relevam miudezas por suas “honras” feridas. São homens e crianças mimadas ao mesmo tempo. Dois “gênios orgulhosos” e “egoístas”. Cada um de um lado com a certeza absoluta da verdade. Sem paciência, tolerância e sem o mínimo de altruísmo. Nenhum deles “amacia”. E não se “curvam”. “Para alguns, é difícil pedir desculpas”, diz-se.

É um povo que não aprendeu a amar (tampouco aceitar as diferenças de seu próximo), apenas suas próprias individualidades têm a máxima importância. “Não somos os negros do mundo árabe”, diz-se com novos insultos a outros próximos, incluindo juízes.

“O Insulto” é orgânico e propositalmente amador. É político, religioso e altamente humanizado. É crítico e polemista. Busca-se dissipar o maniqueísmo, até porque se observamos o contexto, todos estão certos. No seriado “Black List”, há uma frase-pensamento dita por um de seus personagens: “Não existem lados, apenas jogadores”. Sim, porque ora estamos contra, ora a favor. Nós “tomamos lado” por nossas “afinidades”. Trocando em miúdos, é tudo uma questão de perspectiva do lado A e ou do lado B.

O filme estreita a linha entre humanidade versus ufania. O “dono” e o “capataz”. Um “ataque premeditado”, fruto de um “descontrole emocional” gera um processo e o julgamento da razão. É a máxima do jogar “fezes no ventilador”, de “quanto mais cava, mais lama é encontrada”. Na teoria do caos, chamado efeito-borboleta, um simples bater de asas pode gerar um terremoto no extremo oposto do mundo. Aqui, uma ação consumida aumenta preconceitos já internalizados, que crescem e dominam a alma em um ódio incontrolável que poderia ter sido evitado e não apaziguada.

“O Insulto” pode ser traduzido como uma crítica à excessiva sensibilidade. O agora está mais politicamente correto, e as pessoas sentem-se mais ofendidas. Na cultura libanesa, o dinheiro é vencido pela integridade e pelo o que as pessoas pensam sobre cada uma delas. Todos vivem para os outros, importando-se mais e mais com julgamentos alheios que atentam contra a honra e os bons costumes.

“Todos insultam. É uma característica social. Ouvimos discursos ofensivos o tempo todo”, diz-se entre guerra de advogados, perda dos controles emocionais, e a “escavação da vida privada” do famoso artigo 228. A “sagrada causa” vira um circo à mídia e àqueles que enaltecem efeitos variáveis de acordo com as condições do meio em que respiram, gerando “ameaças de morte”.

Todos os envolvidos encenam as próprias vidas com “showzinhos”, fragilidades, carências, vitimismo, “culpas por associação” e conflitos cúmplices, às vezes infantilizados, às vezes “virando a página”, às vezes “fugindo ao Brasil” e às vezes usando estes sentimentos decrépitos como a única forma de libertar suas almas. É uma terapia. Cognitiva e de choque. Pela emoção dramática.

Contudo, sua mensagem busca o positivismo. É o ensinamento da ficção ao mundo real de hoje de ser o “início da aceitação do outro”. Da diferença. E com emoção, pausa suavizada, redenções, humanismo e não “poder mostrar fraquezas”, “O Insulto” prende o espectador mesmo quando opta por deixá-lo ir. É causa, consequência e solução. E a transmutação da utopia de se encontrar um mundo melhor.

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