O voltar a um lar que virou o “outro”

Por Fabricio Duque


Desde que o mundo é mundo, por volta de três mil anos antes de Cristo, o Líbano (que significa branco), país montanhoso (chamada de a “Suíça oriental”) do Oriente Médio localizado na extremidade do Mar Mediterrâneo (fronteira com a Síria e Israel), guerreia por marcações de seu território e pela liberdade de seu semitismo. Ainda que hoje, o país viva do turismo, o passado de seus moradores locais, e expatriados, que após o fim da Guerra Civil, retornam para rever suas moradias.

“De Volta”, da diretora libanesa Jihane Chouaib, que pode ser definido como a versão ficcional de seu documentário anterior “Pays rêvé” (que traz a história real de sua irmã Nada), é, acima de tudo, um resgate-lembrança da identidade natal de pessoas que sofreram com a necessidade obrigatória da partida. É uma interior aventura pessoal que mergulha na força do passado a fim de libertá-lo por memórias, fantasias, projeções, catarses, fantasmas mentais, dramas alimentados, emoções, tentativas de descobertas e ou entendimentos, tudo canalizado no simbolismo da volta, do retorno à casa da infância, época esta de tendência à inocência e à ingenuidade.

A narrativa conduz o espectador à intimidade, a uma experimentação quase sensitiva da “volta de Maria Mercedes” e à percepção existencial do querer pertencer. Os libaneses do exterior regressam, como uma missão, ao “país sonhado” com o objetivo de resgatar seu lar, de se retomar a essência inerente geográfica antes de ter se tornado “outro”, como imigrantes de um lugar que aprenderam a se acostumar.

“De Volta” mostra que a volta é inevitável a alguns, principalmente aqueles que precisam completar os flash. Nada (a atriz iraniana Golshifteh Farahani, de “Patterson”, “Dois Amigos”). De volta ao Líbano, ela percebe que é uma estrangeira em seu próprio país, mas ainda há um lugar que ela pode chamar de lar: uma casa abandonada em ruínas e assombrada pela presença de seu avô que desapareceu misteriosamente durante a guerra civil. A atriz, que vivenciou na própria vida uma história parecida, fugiu de seu país em protesto às restrições do cinema, e se viu longe de sua família. Em 2012, em uma manifestação contra a repressão das mulheres, as autoridades iranianas a notificaram a não mais poder retornar a seu país.

O filme, como já foi inferido, é pessoal, e toda história sentida na própria pele é dotada de passionalidade subjetiva. Assim, o discernimento pode sofrer interferências sentimentais. Sim, este último é o que acontece exatamente aqui. Seu roteiro desenvolve-se na liberdade poética emocional, nos pedindo que sejamos cúmplices de uma frágil estrutura de conexões ao tom de uma novela, com seus núcleos-digressões corais, para desta forma suavizar o tema que desde o início já optou pela superficialidade atmosférica pululada de diálogos urgentes e anti-naturalistas, e de instantes fragmentados sem ritmo e equilíbrio narrativo.

Ainda que “De Volta” busca, propositalmente, a organicidade mais caseira para construir a imersão de seu público, nós, seus espectadores, não conseguimos embarcar na história da trama. Precisamos montar as peças de um quebra-cabeças junto com seus personagens que investigam o passado familiar. O irmão por dinheiro e ordem. A irmã por terapia cognitiva de confronto em Aley, um distrito libanês na província de Monte Líbano, à sudeste da capital do país, Beirute.

Nada gera uma paranoia. Todo e qualquer morador do vilarejo representa um perigo, uma intimidação, um inimigo contra sua ancestralidade. A casa é também uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que liberta a lembrança (na maioria das vezes descompassada), acorda os medos que por anos projetaram a “missão” necessária de viver o presente. Nada revive sua infância, seus detalhes, seus possíveis acontecimentos. E escreve novas histórias. É um filme que se busca pautar pelo psicológico. De dentro para fora. De voltar ao interior para resolver os demônios do que achava.

“De Volta” é sobre a conservação da família. É proteger a era antiga da desimportância que cada vez instaura-se mais no cotidiano presente. É lembrar e perpetuar a lembrança, que é visualmente inserida na fotografia de espectro, de sensação fantasmagórica realista de se estar fora do corpo olhando para o próprio corpo.

A diretora buscou sentimentalizar, mas distanciou quem assiste quando optou pelas pontas soltas, sem um grande momento. Sim, é um filme de instantes conceituais-histórico-sociais, só que não equilibram o contexto e somem com coadjuvantes, fazendo assim que nós sintamos o desejo de voltar a nossas casas. Não é ruim, pelo contrário. Apenas comum e sem uma narrativa que prenda o espectador. Um dos destaques é a música de encerramento, dos créditos, “Yalla Tnan”, cantada pela atriz Golshifteh Farahani. Exibido no Dubai International Film Festival 2015.

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