Previsibilidade em alto nível

Por Bruno Mendes


Um ursinho fofo que fala e anda com a postura de humanos, transita por Londres com tranquilidade – é claro que cometendo alguns deslizes, desajeitado do jeito que é – e ninguém liga para isso. Naquele meio ele é mais um a ser tratado educadamente, embora, hora ou outra, com a tradicional fleuma britânica(exemplificada de uma maneira muito peculiar). A obra “Paddington 2” (dirigida por Paul King) segue no embalo fabulesco do primeiro longa, As aventuras de Paddington e posiciona todos os integrantes do universo fílmico em um mundo idiossincrático.

Depois de ser adotado pela adorável família Brown, Paddington ganhou fama entre a comunidade e enche os olhos de quase todos os vizinhos. Feliz ele é, mas os olhos não brilham de maneira completa em razão de um motivo: a sua tia prestes a completar 100 anos está longe e ele precisa encontrar um presente perfeito para ela. Nessa busca, o urso encontra um livro valioso. Após fazer esforço entre um trabalho e outro e finalmente conseguir compra-lo, o objeto é roubado, o que dá início a uma série de consequências improváveis. Numa destas, por exemplo, o urso é preso e precisa do apoio da família para provar a inocência.

Seguem no time de atores Sally Hanks (indicada ao Oscar 2018 pela participação no filme “A Forma da Água”), Hugh Bonneville e como novidade, não dá para minimizar o destaque do rodado Hugh Grant, que entrega ótima participação, ao compor um vilão mesquinho, vaidoso, inconsequente e deliciosamente caricatural.

As sequências de ação, perseguições e passeios do ursinho acontecem em uma Londres peculiar. É florida, acolhedora e apesar de uma intempérie ou outra, todos naquele microcosmo passeiam como se não existissem problemas financeiros, embaraços no casamento, crises existenciais ou qualquer coisa mais “pesada”, tão frequente nas rotinas do outro lado da embalagem artística.O urso Paddingtton é o agente contaminador que espalha esse “alto astral”, e é só ele se afastar da vizinhança, que certo clima tenso ganha força.

Essa ambientação é desenvolvida com maestria e o arranjo técnico da produção é providencial no ato de transportar o espectador ao “ambiente onírico” tão gracioso quanto o do filme de 2014.

Seja no passeio pela vizinhança, quando o peludo recebe um cumprimento aqui e outro acolá, como se fosse (e na verdade é) o centro das atenções, nas bem desenvolvidas sequências de fuga, ou na exposição das relações entre presos, o tom leve e a inocência imperam. A graça surge suave, quase tímida, e menos escrachada ou presa em gagsque em outras produções com propostas similares. Em outras palavras, o filme não é cercado de elementos que nos fazem gargalhar, mas a imersão é pontual.

Pode-se dizer que nestes aspectos imersivos, ressaltados pelo bom desempenho do elenco e do irretocável design de produçãoPaddington 2 seja exemplar. Por outro lado, apesar de algumas novidades – em especial a participação para lá de carismática de Grant – observa-se aquela cara de “produto requentado” tão comum em continuações. O nível é bom, mas saltos além dos esperados fazem falta.

Espera um pouco, caro crítico? O filme foi o melhor avaliado da história pelo agregador RottenTomatoes. Exagero? Pois bem, cada avaliação crítica deve ser respeitada – entre concordâncias e discordâncias – afinal, apesar das esperadas compreensões sobre nuances técnicas, o contato íntimo de cada pessoa com qualquer obra, segue critérios subjetivos. Quando assistimos a um filme, o nosso “universo particular” conversa com aquele apresentado na telona e daí rimos, choramos e, também, retiramos algumas impressões. Portanto, o contato com a sétima arte nunca é estabelecido pela mesma ótica.

“Paddington 2” é visualmente estupendo e conduz sua narrativa por um caminho peculiar e digno de nota. Sabe quando você era criança, assistia a um desenho animado e refletia sobre a vontade de escapar um pouco desse mundo enfadonho e, por vezes, sombrio para se divertir com bichinhos que falam? O longa causa esse mesmo efeito, embora de maneira mais madura.

O ursinho cativa crianças e adultos e convida todos a se deslocarem para um lugar mais colorido, sem violência e envolto em positividades. Conclusão, este Paddington é bonito, é fino, é elegante e inteligente, mas por seguir em piloto automático, não transcende, mesmo com todos os benefícios a favor.

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