Entre o reggaeton e a realidade

Por Francisco Carbone

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2018


Platamama” integra a seleção da Mostra de Cinema de Tiradentes 2018. Choco. Choquito Sensual. Um grande astro do reggaeton que vive no Brasil há alguns anos e aqui cria sua família, esposa e filhinho que nasceu há um ano. Dono de videoclipes muito bem produzidos e disponíveis no YouTube, Choquito é na verdade um imigrante boliviano que se tornou cantor aqui e agora administra sua concorrida carreira enquanto assiste seu bebê crescer, se prepara para a enorme festa de 1 ano dele e aguardo um grande chamado, ao mesmo tempo que grava seu novo CD.
Corta.
Denilson trabalha com a esposa e a sogra costurando roupas femininas em grande escala para lojas de atacado na Grande São Paulo. O maior número de roupas por dia garante um ordenado maior para a família. Eles precisam ir além das capacidades, mais e mais, se quiserem vencer como imigrantes no país. Os bicos para ganhar mais são necessários, as promessas nem sempre são cumpridas, e a vontade de desistir e voltar para sua terra é imensa. Mas há o sonho de uma vida melhor, ainda que explorado economicamente por coreanos em sua atividade. A propósito, Choquito Sensual e Denilson são a mesma pessoa.

Alice Riff acabou de lançar no circuito ‘Meu Corpo é Político’, documentário observacional onde passeia pelo dia a dia de quatro personagens do universo LGBTQ, atuantes política e culturalmente que trabalham em prol de ampliar o debate e as melhorias de vida de grupos marginalizados. Aqui, o conceito de observação permanece e Alice adentra uma família boliviana em condições iguais a tantas outras no nosso país: explorados por outros imigrantes como eles, vivem também marginalizados, ainda que de outra ordem. Como a ponte escolhida foi a mesma, Alice se sentiu livre para fazer seu trabalho de manter o contexto social caminhando em paralelo a sua observação bem crua. Não há interferência externa de qualquer ordem e a diretora tenta criar suas intersecções de análise no meio do panorama que ela procura criar dentro do núcleo familiar. Com a câmera ligada e só, temos a certeza sobre o intuito dela em não ser um agente de mudança direta daquele grupo, que podem ou não ter um esforço através do resultado final, mas sem que com isso Alice precise mover situações na direção dos retratados.

Alguns defendem a funcionalidade desse tipo de produção, já que eles não garantem qualquer alteração na realidade dos retratados, ao mesmo tempo que acendem uma fagulha de esperança mesmo que involuntária nos mesmos. Mas essa situação é própria da natureza dos documentários observacionais; a clareza desse jogo no que tange suas intenções, de ambas as partes. Se Alice manteve todas as cartas na mesa em relação a isso, então não teve qualquer desvio ético cometido. A situação que se encontra a família do filme não é das mais confortáveis, no que concerne trabalho, realização pessoal e projeções futuras, mas não é da alçada da diretora a mudança dessa realidade. Um acordo verbal e informal geralmente é feito nesses casos, e aqui não foi diferente. Logo, não concordo com essa questão que alguns críticos levantam e defendem, como sendo depreciativo para longas como ‘Platamama’ que essa colocação diminua os projetos ou as decisões filmicas de seu autor.

Agora algo sim é notado na produção. Choco e sua família passam dificuldades, mas são retratados em regime de confinamento. Essa situação se altera poucas vezes, como quando ele e a esposa vão a vizinha pagar uma conta por um jogo comprado, quando toda a família vai ao mercado com a ajuda de um vizinho ou nas cenas onde o protagonista está em gravação em uma espécie de estúdio, perseverando em seu sonho, além da cena de abertura do filme, um videoclipe improvisado. Adicionado a isso, uma situação que se repete algumas vezes de tempos em tempos é uma cena capturada de dentro de um ônibus, por onde vemos o corredor urbano de lojas nos quais são destinadas as roupas feitas pela família e por outros grupos em situação parecida a deles, provavelmente alguns até em esquema de escravidão (o que não é o caso aqui). O filme então cria um equilibro estranho que não se justifica dramaticamente, não fechando seu roteiro em torno de sua ‘prisão domiciliar’ mas também não abre o leque de situações pelo qual todos ali podem passar se retratados durante todo o dia, criando assim uma monotonia sem sentido cujo roteiro não compra, além de restringir o escopo daquelas pessoas a uma realidade que poderia ter outros desdobramentos.

Dada a natureza do longa e suas perguntas não respondidas, creio que o trabalho de Alice Riff aqui mantem o nível do seu longa anterior, ainda que aqui não aja o esquema de depoimentos para a câmera – que nem sempre funciona ou faz sentido. Isso tudo aliado ao carisma do jovem que precisou amadurecer muito cedo (Choco tem apenas 18 anos quando o filme começa, reproduzindo uma realidade infelizmente comum tanto no Brasil quanto provavelmente na Bolívia) e temos um longa documental típico mas eficiente, que nos coloca em contato com outra realidade, outra cultura que se entrelaça a nossa (reparem como as telenovelas locais são uma constante no filme), e também pinta um quadro da imigração hoje e a exploração no qual tantos são submetidos.

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