“Agora eu vou dirigir o sol…”

Por Francisco Carbone

Direto da Mostra de Tiradentes 2018


Meu primeiro contato com Julia Katherine foi em ‘Filme Catástrofe’, de Gustavo Vinagre. Me pareceu fascinante a interação entre ela e Gilda Nomacce ali, naquela mise-en-scene arriscada, confinadas, suaves e potentes, presas pelo querer e sujeitas ao imponderável. Quis ver mais daquela história, que é o melhor desejo que se pode sentir sobre qualquer filme.

Meu primeiro contato com Gustavo Vinagre foi ‘Nova Dubai’, há 5 anos atrás. Depois vi os outros filmes de Gustavo (igualmente potentes, como tudo que Gustavo faz), mas aquela sessão primeira de ‘Nova Dubai’ me pegou em transformação. Eu já era crítico de cinema fazia tempo e o cinema brasileiro já era uma devoção ainda há mais tempo, mas teve um anúncio interno ali que nunca mais foi consertado em mim e que se seguiu nas, sei lá, 10 vezes outras que revi o filme. Gustavo me parece dos realizadores mais inteligentes e interessantes do nosso cinema hoje, um cara que desfia um manancial de temas a cada novo projeto de maneira incansável, pintando quadros aparentemente desconexos com o que se pretende, mas que incute mensagens muito poderosas no nosso inconsciente sem jamais esgarçar sua obra ou nos pegar pela mão, essa que é infelizmente uma característica tão comum do nosso cinema mas que Gustavo jamais incorre, passando incólume pela grandeza do seu discurso sem jamais fazer um.

Ao me deparar com “Lembro Mais dos Corvos” totalmente cru, totalmente sem conceitos ou leituras prévias (como geralmente faço em Tiradentes e no Olhar de Cinema), reencontro Julia e Gustavo. Ela aperta os botões que ele deseja, esses botões acionam reações nela mesma e no público. Julia é atriz, roteirista, e das mulheres mais fascinantes que “conheci” ano passado. Provavelmente Gustavo soube disso há anos atrás quando a conheceu e também se impactou com todo aquele arsenal humano. Foi preciso decantar essa relação para que eles estivessem juntos e prontos para o externo, e aí Gustavo a prende para retomar alguns temas do trabalho anterior deles descrito na primeira frase. Em tese confinamentos urbanos e dependência emocional de espaços fechados, o autor não está a fim apenas disso, como sempre. Um documentário que é tudo inclusive documentário, criador e criatura se confundem propositadamente em cena, alternando os valores de suas entregas no material. Em uma noite, Gustavo e Julia experimentarão diferentes estágios e diferentes processos em frente e atrás de uma câmera, todos riquíssimos.

Mas quem é Julia, e será que Gustavo quer descortinar todo o fascínio? Julia é a mulher tímida que não sabe como se abrir, mas que se abre. Nascida menino, logo percebeu seu caminho e o trilhou sem amarras. Nos relatos de Julia, ter sofrido com pedófilos (inclusive dentro da própria família) se confunde entre a iniciação sexual e a certeza de ter sido vítima de abuso. Intensa, Julia vai abrindo frestas de seu mundo que Gustavo explora com destreza. Julia então reparte com o espectador histórias que o diretor já conhecia, e talvez por já sabe-las se dedique a explorar os relatos e a relação da própria Julia com o espaço cênico que é a sua casa, mais precisamente a sua sala. Na parede, ‘O Que se Move’ de Caetano Gotardo – Julia não se move. Essas felizes desconstruções permeiam a nossa jornada por passagens da vida dela, tantas dramáticas e outras nem tanto. Os closes servem para tornar Julia real e tangível, através de poros e tez. A relação claramente íntima entre diretor e atriz e que poderia atrapalhar todo o processo é reinterpretado, e ressignificado durante o longa, quando acessamos que os lugares se confundem e misturam, tornando tudo um amálgama entre uma amizade e um projeto.

O que se desenha de uma forma inicial, não é como se desdobra nos caminhos seguintes, e o processo de montagem do filme opta por clarear o todo e criar em consonância com o roteiro outras possibilidades de acesso ao processo, dando camadas extras a algo que naturalmente já não tinha limites para as mesmas. Brincando com as barreiras que separam artes ficcional e documental, Gustavo pinta ao mesmo tempo um retrato onde se procura um tanto de afeto na exclusão e outro tanto na reclusão, duas narrativas que permeiam os relatos e as ações de Julia. Aos poucos, tudo se borra (quando ela pergunta o valor do aluguel de determinado objeto cênico, um ‘alarme toca’) e precisamos ir encontrando nas entrelinhas o tanto de verdade que se esconde no todo. A surpresa é constatar que o longa é pura verdade do início ao fim; ao mostrar o movimento das cidades ao introspecto social, o filme é urgente e abrangente, e ao nos levar ao convívio de uma personagem que a sociedade marginalizou, ele é inclusivo e amoroso como poucos tem sido no cinema moderno. Temos então essa dubiedade de sentimentos, uma mulher que interage com o objeto do desejo através de um binóculo também é a mulher que fuma perto do mesmo objeto em busca da atenção que fantasia de sua janela. A propósito, o título do filme é de uma magnitude e uma perspicácia impressionantes, ecoando em uma frase toda a história de uma vida.

Olhando em retrospecto, eu sinto ter ido a Tiradentes por muitos motivos, como sempre; esse ano, a exibição de ‘Lembro Mais dos Corvos’ parece ter sido o essencial. Os relatos de Julia, a infância de Julia, a relação dela com o cinema, o fato de ter trabalhado em vídeo locadora, tudo isso bateu muito forte na minha própria história, senti uma conexão forte com essa mulher. Lógico que nada disso é suficiente para ser grande cinema, mas Gustavo sabe dar a carpintaria necessária a obra, delicadeza a dureza, e no meio disso tudo ainda se insere, como autor e mentor, no processo da criação dessa noite. Comovente e necessário, ‘Lembro Mais dos Corvos’ é mais uma prova da capacidade de Gustavo Vinagre em revestir de cinema situações tão particulares. Em tempos onde a política é tão óbvia e gritada, talvez venham dele os petardos mais cheios da humanidade e contundência da atualidade. Cinema de atitude e de beleza em igual medida para tempos onde a sombra está em todos os lugares, até dentro de nós.


TROFÉU VERTENTES DO CINEMA

MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES 2018

“Lembro Mais dos Corvos”, de Gustavo Vinagre, foi o vencedor do Troféu Vertentes do Cinema de Melhor Filme da Mostra Aurora, pelo vertenteiro Francisco Carbone, que justificou seu prêmio:

“Pela construção de confinamentos de matérias e sonhos, pela união entre as linguagens ficcional e documental, pelo encontro de afetos através das dores comuns a todos nós no filme e no extra filme, Lembro Mais dos Corvos.”

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