Uma tradução que doa e humaniza

Por Lisandra Detulio

Direto do Festival de Sundance 2018


“Un Traductor”, dos irmãos cubanos Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso, integra a mostra competitiva mundial de drama do Festival de Sundance 2018. Conta a história de um professor de literatura russa da Universidade de Havana que é recrutado para traduzir às vitimas infantis de Chernobyl, quando são enviadas a Cuba para tratamento contra câncer/leucemia (visto que o país possui um dos melhores sistemas de saúde do mundo).

É um filme importante e necessário, e tem no elenco o ator Rodrigo Santoro, que na entrevista exclusiva do Vertentes do Cinema, disse que não sabia da historia real de Malin (das crianças que foram mandadas para Cuba em 1989), e ao ler o roteiro se sentiu emocionado e privilegiado de poder contar essa historia.

Digressionando pessoalmente, talvez eu seja a pior pessoa para escrever criticas, pois meu grau de envolvimento é altamente passional. Alguns dizem que até mesmo exagerado, mas optei por não mudar essa característica, até porque “time que está ganhando não se mexe”. E uma história impactante como esta seria impossível não reagir de forma diferente. Nós não saímos imunes, e esta sensação é um dos propósitos do filme. Enquanto tento escrever essas linhas, ainda tenho arrepios lembrando das cenas das crianças vitimas de Chernobyl, acidente nuclear que aconteceu em 26 de abril de 1986, na União Soviética.

Aparentemente o professor Malin (o ator Rodrigo Santoro – que cada vez diversifica mais sua veia interpretativa) vive uma vida normal com sua esposa e filho Javi, mas devido à mudança de habitat, de uma sala de aula para um hospital com crianças tão jovens e cheias de esperanças, sofrendo desde pequenas, as coisas se alteram radicalmente dentro de Malin, e suas novas percepções são refletidas em seu comportamento em casa com sua família.

“Un Traductor” é grandioso em seu conceito-contexto, fervendo emoções, que nos faz sentir o quão pequeno nossos problemas são comparados a dessas crianças. Malin, um homem de poucas palavras, hesita inicialmente (como uma forma de separar e se proteger), mas inevitavelmente acaba se envolvendo com os pacientes, contando histórias, e pedindo para que as crianças desenhassem e escrevessem as fragilidades do que sentiam. Algumas acabaram falecendo, o que destrói de vez o coração de Malin. É impossível sair imune, até mesmo o mais insensível dos seres humanos, e não inferir “Patch Adams – O Amor é Contagioso”, de Tom Shadyac.

Uma dos elementos mais importantes que avalio ao resenhar um filme é sempre a história. E quando esta se apresenta tocante e humanizada, e com narrativa bem estruturada, então as emoções ficam à flor da pele

Acredito que poucos saibam o que aconteceu em Chernobyl em 1989 e menos ainda sobre a operação em Cuba para tratar as vítimas infantis, como a “confissão” de Rodrigo. Assim, este filme tem a proposta de contar essa história para o mundo, ora como denúncia, ora como documento de enaltecimento aos que ajudaram e diminuíram as dores desses sôfregos pacientes.

“isso é só arte”, diz Malin a sua esposa quando ela precisa de alguém em casa para cuidar do seu filho Javi, pois tem uma exposição na galeria que trabalha. O filme busca nos humanizar, pela delicadeza, e nos fazer sentir mais importância ao próximo do que nossos futeis e atarefados compromissos efêmeros.

Mas arte nunca é só arte! Este filme é uma arte e também não só arte. É uma historia que precisa ser contada, que precisa ser exposta e compartilhada. Não é difícil ao público entender o personagem que se sentia tão pequeno quanto ao pouco que poderia fazer por essas vitimas, como um sentimento de impotência por não ser um super-herói dotado de poderes especiais, mas apenas um ser humano que quer e luta para salvar seus “irmãos” sociais.

Nós não podemos controlar o que sentimos e ou a forma de que as coisas são, contudo, com certeza, este professor dedicou-se da melhor forma possível a essas vitimas, e mesmo (por pequenez dos outros olhares não envolvidos, tendo faltado em casa, nós nos surpreendemos com um final de redenção e de orgulho ao trabalho feito. O que Malin tinha feito por aquelas crianças era muito maior do que o que sua esposa podia esperar.

Os diretores Rodrigo Barriuso e Sebastián Barriuso são filhos do próprio personagem Malin na vida real (um spoiler válido e que não atrapalha a surpresa). Por isso, é inevitável seu tom extremamente pessoal e emocionante. “Un Traductor” é uma das mais bonitas homenagens cinematográficas. É um filme que emociona, e que ensina como apreciar o que temos e a nos desculpar. É redenção e terapia. É fazer o ser humano ser mais humano. Tudo conjugado em um roteiro preciso e amarrado, em uma interpretação irretocável do ator brasileiro, em uma trilha-sonora envolvente, em uma fotografia simples e realista (que não quer brilhar sozinha, apenas retratar o brilho da história) e um controle absoluto da delicada direção, que optou trocar o drama dark pelo tom esperançoso e luminoso.

“Un Traductor” nos passa a mensagem de que há coisas muito maiores na vida, coisas que não podemos controlar. Nós somos todos tão pequenos, mas juntos temos a força de mudar o imutável. É um filme que arrepia! No fim eu só consegui agradecer aos diretores por esse presente. E, humildes, agradeceram de volta. Sinceramente, espero não perder a credibilidade por mais uma nota máxima, mas fazer o que se a seleção do Festival de Sundance nivelou por alto sua qualidade?

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