A adolescência em ponto de fuga do todo

Por Francisco Carbone

Direto da Mostra de Cinema de Tiradentes 2018


A ficção “Dias Vazios” integra a seleção competitiva da 21a Mostra de Cinema de Tiadentes. Goiás é um estado que vem provocando certas surpresas no cinema atualmente. Depois de Fábio Meira ter estreado na direção de longas com o delicadíssimo ‘As Duas Irenes’, os curtas de Hélio Fróes, Daniel Nolasco e Isaac Brum também aqui em competição, e de Dostoiewski Champangnatte ter assinado o roteiro do blockbuster do momento ‘Fala Sério, Mãe!’ (e ter sido justamente muito elogiado por isso), chega a ver de Tiradentes abrir as portas para essa região do país que parece estar pronta a chegar no mapa do cinema. Robney Bruno Almeida veio a Mostra para lançar seu primeiro longa de ficção, “Dias Vazios”, um filme que se desenrola com roteiro cada vez mais surpreendente e competente, provavelmente o trabalho de escrita mais acertado da Mostra até o momento. Sempre fica a esperança de casos assim acabarem fazendo germinar o tanto de talento plantado nesses jardins fora dos grandes centros e uma torcida para que nenhum desses tiros sejam únicos, principalmente pelo trabalho bonito e pessoal que esses longas locais vêm fazendo ampliar o escopo local, que o filme de Robney não cansa de vender seu ambiente, ainda que a mensagem não seja necessariamente positiva do ponto de vista da perspectiva jovem local.

O longa tem uma ambientação juvenil, um elenco ainda mais jovem, e temas que devem estar na pauta deles hoje. Usando um colégio católico como picardia para falar também sobre algo tão rechaçado pela igreja como o suicídio, o longa se utiliza de um universo diferenciado para situar um grupo de personagens adolescentes. O filme acompanha dois garotos, Daniel e Jean, além de suas respectivas namoradas, Alanis e Fabiana. Daniel está na idade de precisar escolher os rumos profissionais da vida e nesse momento recorda da morte de Jean dois anos antes, e como Fabiana desapareceu desde então. Daniel se torna tão obcecado pelo casal que dá partida num livro sobre essa situação que abalou a cidade. É a partir daí que começamos a acompanhar a situação bifurcada, com os dois casais e seus dilemas em rota de colisão com o momento de suas vidas, seu desinteresse com o futuro, seu incômodo com sua aldeia. O espelhamento dessas relações deixa claro mais tarde qual é o ‘plot twist’ do filme, que amplia a discussão proposta e calibra o produto pro alto.

Falando uma linguagem moderna sem ser esdrúxula e que pode provocar atração no público-alvo com clareza, o diretor assina o roteiro e constroi seu olhar por sobre aquela cidade de Silvania da maneira mais consciente possível. Planos organizados, limpos, bem realizados e com câmeras que escolhem bem suas movimentações, trata-se de uma direção funcional porém discreta, mas com uma certa personalidade, arriscando até alguns planos-sequências e montando um painel super honesto sobre uma parcela da classe que parece ter descoberto uma válvula de escape na depressão, que justifica todos os medos, dúvidas e introspecção da idade. Quando Robney decide filmar a cidade também como uma espécie de alterador de estado de consciência, com suas ruas iguais e sua inércia, ele pode até abrir uma polêmica com seu lugar de origem, mas também trata de reafirmar que o meio onde se vive será preponderante para seu futuro, positiva ou negativamente (e um dos indicados ao Oscar desse ano, ‘Lady Bird’, trata muito disso), e que as marcas desse lugares estarão conosco ou definirão nossa história.

Um dos incômodos do filme vem da falta de funcionalidade dos coadjuvantes e personagens periféricos da trama. A freira vivida por Carla Ribas é um dos casos, um personagem chapado que serve apenas como bússola dos protagonistas, e que é salva pelo talento de Ribas. A espécie de prostituta vivida por tem bem menos sorte, praticamente ser qualquer de existir para além de ‘encher linguiça’ e aumentar a duração do longa com duas cenas onde ela não precisava estar. É estranho também o filme não desenhar outros adolescentes além do quarteto central é no mínimo estranho, se não atentarmos para erro. Outras questões do roteiro referentes a movimentação temporal e sua estrutura diária precisam ser ignoradas para que material tão honesto e feito com claro empenho, que esses momentos são minimizados e acabam empalidecendo diante da simpatia generalizada. Como o filme tem a seu favor uma forma muito acertada e nada didática de explorar o posicionamento daqueles corpos jovens em seus planos, respeitando tantos os atores como o trabalho de direção, Robney é absolvido de acusações que diminuam e impeçam esse filme de ser visto.

Pra finalizar fica o registro de belo quarteto de jovens de personalidades distintas que protagonizam o filme, com as meninas (Natália Dantas e Nayara Tavares) sendo ainda superiores aos meninos (Arthur Ávila e Vinicius Queiroz) e com suas aptidões muito evidentes em excelentes cenas. Com a ajuda deles, esse diretor goiano consegue dar conta de uma leitura sobre a necessidade do deslocamento como instrumento de sobrevivência de maneira muito eficaz e deixando sempre exposto do como os excessos internos acabam definindo os externos, em sequências ora melancólicas ora assustadoras. E por isso mesmo de novo melancólicas.

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