Cinco perdidos numa noite densa

Por Francisco Carbone

Direto da Mostra de Cinema de Tiradentes 2018


Há de se louvar que o cinema brasileiro comece a observar mazelas de outras metrópoles, doenças sociais de periferias fora dos já citados anteriormente nas imagens estabelecidas e tanto debatidas. Minas Gerais, por exemplo, é cenário de “Baixo Centro”, filme dirigido pela dupla Ewerton Belico e Samuel Marotta e que compete na Mostra Aurora nesse Festival de Tiradentes 2018. Ambientado exclusivamente na noite da quebrada mineira, com suas comunidades, caminhadas, delírios noturnos, encontros de amor fugazes e shows ao ar livre, o filme ameaça transpirar o cheiro quente dos desgarrados e da fauna urbana, centrando foco em cinco animais locais em quebra da ruptura formal no cinema, nos encontros e na estrutura social. Apresentação feita e formada uma rede de relações entre eles e esse quinteto pouco a pouco começa a desmoronar na tela, mediante ingestão de males que vão das drogas à paixão. Escolher um caminho de mínima sugestão em um projeto tão liberto de formas habituais pode ter um preço a pagar e o longa não rejeita o desafio.

Enquanto há um despojamento dos atores e das normas quadradas de atuação ou interpretação de valores, imageticamente nada foi tão forte esse ano em Tiradentes até agora. A espetacular fotografia de Leonardo Feliciano (o gênio por trás de ‘Arábia’, ‘Branco Sai Preto Fica’, ‘Constelações’ e ‘À Parte do Inferno’) dá texturas tanto a cidade que se move quanto aos corpos fotografados ou filmados à perfeição. Nesse trabalho conjunto dos diretores com Leonardo se extrai um dos casamentos mais felizes daqui da Mostra, não apenas por utilizar a luz noturna em total integração com a proposta estética do longa, mas também pelo balé de imagens promovido na tela, em movimentação de câmera sempre a captar o tanto de deslocamento aqueles corpos empreendem no cruzamento com a própria cidade ao seu redor. A montagem de Luiz Pretti também cadencia essas imagens potentes e cria uma estrutura de entendimento cuja lógica é organizar o fluxo de ideias coordenado em cena, em espasmos.

Não há necessariamente uma trama a se seguir, propriamente falando. Apesar de existir um grupo de personagens reconhecíveis na tela e eles se relacionarem entre si com uma espécie de possíveis intenções a se seguir, essas situações só abrem espaço para reflexões acerca do próprio deslocamento, das interações entre eles ou em silêncios constantes que refletem obviamente o vazio daquelas vidas, mesmo que inseridas num contexto de opressão social e emocional. O roteiro segue um grupo de cenas/momentos onde cada um desses encontros (entre si ou com o cenário em particular) é quase definitivo sobre o debate em questão naquelas pré-determinações. De situações bem leves envolvendo uma explosão de desejo carnal até momentos de densidade crescente em diálogos sobre uma queda no vício, tudo é intenso em camadas de expansão, onde o descompromisso inicial dá lugar a um crescente estado de incômodo e exasperação, como se a malha urbana carente conseguisse acessar a nossa e tornasse aquelas micro existências em fantasmas frágeis sem rumo, em meio a sons internos e externos.

Como em outros títulos já vistos em Tiradentes esse ano, aproximadamente na metade do longa o que se desenhava como uma noite afetos feitos e desfeitos pelas ruas mais tristes de Minas começa a sutilmente dar lugar a uma espécie de tratado (ou depoimentos?) sobre as enfermidades de hoje em centros, sejam elas palpáveis ou não. Aos poucos o filme cai numa zona escura e depressiva e não parece muito interessado em voltar, ou pelo menos parece escolher esse movimento não apenas com decisão como também sem reservas. Os males da alma começam a parecer ínfimos mediante o que se ingere com regularidade. Então em determinado momento tudo parece fazer mais sentido em um tratamento externo ao filme do que àquele grupo, que passam a servir de voz de uma geração, esquecendo do apelo particular, que não seria o que importa como também encontraria muito mais relevância se observado de dentro. Esse é um ponto de desligamento do projeto com o seu interior, o que faz com que sua força fique comprometida. Acho que um projeto tão potente em sua mise-en-scene poderia não ceder a tentação muito deslocada do depoimento em primeira pessoa pra tela, que inclusive nem tem nada a ver com o material.

Perto de seu encerramento, “Baixo Centro” parece começar a mostrar sinais de esgotamento temático, e o filme passa a ser apenas mais uma versão de corpos em movimento sobre a cidade, não que isso não renda possa render um grande filme (o oposto do curta ‘O Olho e o Espírito’, apresentado em competição), mas foi apresentado um quadro mais amplo que acaba fazendo falta quando a opção por algo mais íntimo parecia fazer sentido. Quando o recorte muda de lado e o olhar passa a querer adensar situações que já são naturalmente densas, e fica a impressão que o mergulho num certo estado de espírito interiorizado perde a conexão com o olhar sobre a cidade, que não é humana portanto precisa ser relativizada de maneira externa. Ainda que belas, as imagens acabam por se tornar excessivas e seu desfecho acaba levando o filme para um ainda terceiro lado, nada inesperado aquela altura, mas ainda mais desnecessário e quase panfletário, transformando um longa poético e intenso num projeto categorizado e compartimentado em si, com uma linha de conexão se não forçada mas pelo menos imposta, num tráfego deslocado entre a beleza e a feiura da periferia. Ok, ele existe e não pode ser calado… muito menos evidenciado de supetão.

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