Dois filmes abandonados em um

Por Francisco Carbone


Parecem existir dois filmes dentro de “Ara Pyau: A Primavera Guarani”, longa paulista em competição na seleção da Aurora na Mostra Tiradentes de 2018. O diretor Carlos Eduardo Magalhães tem claro envolvimento com a causa indígena, é empático com o grupo que resolveu abordar na sua estreia no cinema, e nutre um carinho sincero por aquelas pessoas que lutam por manter seu pedacinho de chão no meio da massa paulistana, incrustados no Jaguará. Na verdade a chegada das câmeras àquela tribo tão inusitada, com aquelas espécies de ocas quase muradas, todas em grupos perdidos no meio de uma montanha. É um grupo de índios nada usual, nada óbvio, mas ao mesmo tempo é um grupo como conhecemos hoje. Mesmo que Magalhães tenha essa espécie de proteção com eles, a verdade é que aqueles índios já avançaram para além das tribos, além da etnia. São os chamados índios aculturados, que perderam um tanto de suas referências visuais e externas, ao mesmo tempo que mantém sua ancestralidade. Mas como eu disse, nesse início apenas um dos filmes que existe; logo, começará um outro, mais ou menos pela metade do caminho.

Antes de entrar por esse lugar, observamos o carinho que digo que o diretor trata seus personagens através justamente dos silêncios de seu iniciar. Um macaquinho brinca com filhotinhos de cachorro. Um trio de crianças bem pequenas brinca com o posicionamento de câmera de Magalhães, no que talvez seja a sequência mais terna do longa. Cerimônias indígenas onde se utilizam violões. São pequenos toques em pequenas cenas, mas que abusam de uma humanidade que o filme perde a mão de ter sempre e de se apropriar de uma simplicidade calorosa que falta no restante da projeção. O filme não se apropria de uma espécie de cotidiano que seria um enorme acerto no olhar para aquele grupo, e ao invés disso lentamente vemos o filme avançar numa espécie de auto importância, que a bem da verdade grande parte dos filmes sobre o assunto tem até abertamente. E outra situação observacional que o diretor quer percorrer abre um leque para o filme, o deixando num meio termo de assuntos que acaba não sendo bom nem pra um tema nem para o outro. Isso sem contar o sem número de possibilidades que um conflito direto poderia abranger.

Logo o realizador entra no tema que é o motivo da realização do seu projeto, que é a desapropriação de terras previamente já demarcadas e pertencentes aos índios, essas mesmas terras que ficam no Jaguará. O filme começa a adquirir um status de thriller de invasão mas nunca parece ter um interesse muito grande em espelhar esse documentário em questões atuais de gênero cinematográfico, então essas pinceladas acabam não passando de apenas isso. Ao invés do que falei, o filme começa a se transmutar em outra coisa, fazendo parir essa nova personalidade de roteiro e entregando sequências extremamente comerciais e até meio bregas, que nunca é proposital; pelo contrário, creio que Magalhães tenha muito orgulho dessa “virada de narrativa” e assuma pra si todas as responsabilidades em relação a guinada de sua trama. Então um filme que era genuíno em sua delicadeza acaba tendo que lidar com essa situação política e sua mão pesada para transmitir as ideias, que acabam prejudicadas.

Então em determinado momento as crianças índias, os macaquinhos, as insólitas figuras oriundas da aculturação (como um hilario índio rapper), dão lugar a um nervoso filme de aventura, com direito a estilo de filmagem novo, um requinte de planos com o cúmulo do uso de drones para tomadas aéreas, ações grandiosas e uma trilha sonora que vai em crescente para dar musculatura dramática em um filme que já é dramático o suficiente. O filme passa a ter chamadas telefônicas tensas realizadas numa situação de blecaute, gritos de invocação ao enfrentamento pacífico, tudo sempre pontuado por olhares, acordes e luzes que tiram o tal ‘chamado realista’ pra uma zona de apropriação do gênero que não deixa de ser até curiosa, mas que simplesmente não teria como habitar no mesmo filme. Assim, a ‘Ara Pyao’ sobraria apenas o seu tema, mas nos últimos anos fomos assolados de todo tipo de narrativas com os dois pés nas questões dos índios, só ano passado tivemos ‘Martírio’, de Vincent Carelli, Ernesto Carvalho e Tita, e ‘Taego Awã’ de Marcela e Henrique Borela, que representam as tribos tão massacradas e humilhadas por aqui de maneira bem mais acertada.

No encerramento o filme resolve enfim voltar a sua ideia de projeto simples e seco, sem espaço para dramaticidades, só que aí o caldo já entornou e Magalhães passa a filmar os encontros entre os índios e as autoridades da maneira mais burocrática possível, enquanto imagem e enquanto texto. O longa se transforma num palavrório repetitivo e maçante, com discursos intermináveis e falas que não acrescentam nada ao que já foi dito até lá mesmo. Os mesmos 4 personagens se repetem por minutos afora numa sequência que seria um prato cheio para um editor sem envolvimento emocional com o material filmado, e não, eu não acho que teria qualquer potência diminuída dessa maneira; pra mim diminuiu justamente porque o filme não muda nada ao que justamente já está fixado mentalmente. Assim sendo, ‘Ara Pyau’ praticamente não traz nada de novo a quem já acompanhou esses processos de proteção ao nosso povo primordial através do cinema e dos documentos de imagens que já temos, que merecia um filme fresco e jovem, e não um cheio de saltos.

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