Uma viagem que oferta lembranças

Por Fabricio Duque


Cada vez cresce mais em nós a impressão de que quanto mais simples, livre e despretensiosa a realização de uma arte cinematográfica maior é sua maestria traduzida em tela. O cinema é o “prazer dos olhos”, já dizia François Truffaut, e uma forma verdadeira de captar a essência dos tempos, coisas e pessoas.

Em “Visages, Villages”, duas gerações juntam-se a fim de experimentar vivências, trocar idiossincrasias, viajar “on the Road” a particularidades humanas (por paisagens, cidades fantasmas, rostos e aldeias habitadas), aceitar a diferença do comportamento individualista e, acima de tudo, alimentar a inocência perdida na humanidade ao fornecer lembranças perpetuadas nem que por minutos.

Em uma extremidade, com oitenta e nove anos, Agnès Varda (que se configura como a primeira, e mais idosa, indicada ao Oscar deste ano), cineasta do icônico clássico “Cléo de 5 às 7” (de 1962) e fotógrafa belga, radicada na França, que discute em seu filmes abordam questões referentes à realidade social no documentário. E que “não usa mais a carteira de motorista por ser razoável”, e que “não é mística, apenas vive a vida”.

Na outra, o artista parisiense de trinta e quatro anos, JR, pseudônimo de Jean René (descrito por Fabrice Bousteau como “o Henri Cartier-Bresson do século XXI”), e que não retira seus óculos escuros (como uma auto-referência, um que de preservação defensiva e tímida, a Jean-Luc Godard, este que aqui é desenhado como “aquele que despreza”). Sua arte é intitulada photograffeur e exibe grandes imagens fotográficas em preto e branco em locais públicos, de maneira semelhante à composição do ambiente construído pelo grafite.

Nesta reta que os une, a veterana embarca nas ideias “viajondonas” criativas de seu novo colega-amigo de trabalho, que acredita que a “rua é a maior galeria de arte do mundo” e que desafia “os preconceitos amplamente realizados e as imagens redutoras propagadas pela mídia (outside)”. Eles não se encontraram na “estrada, nem no ponto de ônibus, nem na padaria, nem em uma pista de dança”.

“Visages, Villages” é uma viagem de conhecimento, em uma truck-van que é uma câmera, de desbravar culturas coloquiais, tipificadas em suas orgânicas localidades, surpreendendo seus moradores ao perpetuar seus retratos, os inserindo definitivamente na história de seus vilarejos natais. O documentário nos inicia com desenhos animados que interferem nos créditos de abertura.

A foto tirada na hora pela máquina polaroid, imprime, aumenta rostos e cria instalações de arte moderna na arte. São os “buracos da memória” e a “última sobrevivente dos mineiros”. O filme usa de paralelismos, metáforas, “sobra de “pães” e muitas histórias. É “saudar a resistência” com tempo, ação, utopia, conceito e a essência da simplicidade.

Os dois diretores, com respeito e cúmplices sarcasmos-picardias, vão construindo o universo deles e o filme com conversas, improvisos e micro-ações do cotidiano (como o melão). É a escolha de deixar a vida ser a própria vida. De ser levado pelo acaso. É um tempo pausado, perspicaz e existencialista. É contrastante também por apresentar no presente do agora uma sensação mais direta e analógica do olhar.

“Visages, Villages” é um filme sobre levar arte contemporânea a bucólicos campos. Ao interior. É ficar de olho na colheita. E exibir a imagem dos antepassados no muro das casas, atestando a posse concretista com a marcação de seus rostos. É simples, poético e lindo, como o Balé dos Sinos e como a cabra. É humano, orgânico e terapêutico, resgatando talvez uma inocência perdida com a verdade visual para assim “inspirar sonhos”.

“Útil é excitante. A de perpetuar trabalhos, uma bela contribuição. Parecem imagens reais em animação real”, diz-se. É sobre vidas, “loucuras” e pessoas (esta o material bruto do mundo em que vivemos). Eles experimentam e brincam com os objetos. Em certo momento, Agnès pensa no “O Cão Andaluz”, de Luis Buñuel. É felicidade nos menores momentos nem um pouco oportunista.

“Visages, Villages” busca a sensação de pureza das crianças, o processo de colagem de “sorrir com olhos”, o encontro “imprevisível” e “fora de tom” com cineasta Jean-Luc Godard (“que criou o cinema”, diz Agnès), com a crueldade do não do “solitário filosófico”. Este é um filme único, de vida, de existência, que eleva a filosofia minimalista de que a alegria está nos outros.

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