O (grande) homem por trás da (grande) mente

Por Francisco Carbone

Durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2018


Não é a primeira vez que Tiradentes se encontra com Tico. Ano passado, o escritor que tirava dos sepultamentos seu sustento (Tico odiava ser chamado de escritor-coveiro, dizia “sou escritor e estou circunstancialmente coveiro”; vou respeitá-lo) apareceu no curta ‘Ferroada’, igualmente dirigido por. Explica-se: o longa é um desdobramento do curta, algo super comum no cinema, mas raramente visto com tamanha rapidez. A história de Tico claramente renderia um longa, e esse assunto andou pelas ruas da cidade na edição 2017. Não sabemos se há um ano atrás a ideia já rondava os diretores Adriana Barbosa e Bruno Mello, mas parece que o desejo do público foi atendido e tivemos novo e superior encontro com Tico, com desenvolvimento melhorado e questões muito mais aprofundadas. O filme nem precisa se desdobrar tanto para provocar curiosidade e fascínio, porque a história do escritor é impressionante, dessas pessoas que qualquer um de nós gostaria de conhecer, dividir um café, trocar prosa, ou ser amigo mesmo. Infelizmente isso não é mais possível a nenhum dos novos amigos e admiradores de Tico; esse ano já fazem três anos de sua morte, e essa informação é dada na primeira frase do filme.

Tico viveu, e não foi pouco. Vítima de alcoolismo, Tico viu seus sonhos de ser um escritor consagrado irem por água abaixo ao precisar se internar para tratar seu vício. Já curado, anos depois Tico viria a sofrer novo revés ao perder tudo e precisar passar um tempo em “situação de rua”, aumentando a estática de sem tetos em São Paulo. Um dia, depois de pensar em se suicidar por conta de tanto sofrimento, Tico vê um anúncio colado numa parede onde dizia de uma prova do governo para coveiro do estado. É a partir desse momento que o filme retorna a Tico, para que toda essa epopeia seja contada e tenhamos consciência de sua situação. Mas no primeiro contato da câmera com o personagem, a mágica já se dá e o que vem a seguir é só a comprovação de que estamos diante de uma personalidade riquíssima, inteligente como poucos, cativante, de sorriso raro mas franco, dono de sabedoria não apenas popular como também erudita, e sua situação que não é bonita ou boa para ninguém, vai se tornando cada vez mais infeliz aos nossos olhos. Como alguém a quem aparentemente a vida não deveria recusar nada viveu sob tantas cordas bambas?

Adriana e Bruno se deixam filmar por suas próprias câmeras em interações com Tico, ainda que de maneira breve. Em momentos de processo investigativo no qual o público é convidado a entender uma parte do interesse e da forma como o curta se fez, o filme é um misto de extensão pura e simples do outro formato, making of e diário de filmagens, e também apresenta um grupo de relatos entre amigos, admiradores e do filho de Tico. Esse combo amplia o universo já imenso de Tico e nos ajuda a montar um quebra-cabeças afetivo de um homem que nunca deixa de transparecer afeto em todas as suas falas, até quando aparentemente muito irritado. É a presença dos diretores e desses mesmos amigos que irradiam a suavidade que é toda de Tico. Como no longa de Gregorio Gananian exibido na Olhos Livres, o filme pega o carisma de seu retratado e o eleva a enesima potência. A diferença é que Tico (sem menosprezar ou diminuir Lanny Gordin) tinha plena posse de suas faculdades, e não era apenas dotado de carisma e charme. Sua inteligência era de fato prodigiosa e advinha dela tanto de seu magnetismo pessoal.

Cabe no projeto apresentado toda a mise-en-scene exposta para transformar o longa na estrutura de um livro, com prólogo, capítulos e epílogos. Com o carinho que o personagem tem pela arte de escrever, nada mais justo e normal que essa seja o molde escolhido e muito bem desenvolvido. É através dessas e outras escolhas que o curta conseguiu se transformar em longa de maneira bem sucedida, sendo uma experiência ainda mais rica para que não o viu, obviamente. O que talvez o impeça de alçar o voo máximo é a insistência numa certa dramatização de Tico, com uma inserção de trilha sonora alta, pomposa e insidiosa, pontuando um personagem que dispensa apresentações e essa espécie de grandiloquencia, que creio seria incompreendida pelo próprio Tico. Apesar de em uma cena ela ter um peso e uma certa adequação (a que insere uma cena do clássico de John Huston, ‘Os Desajustados’), a música no geral coloca um peso melodramático a vida de um sujeito que seria o oposto disso tudo, além de que o próprio material filmado abdicaria dessas maiores ênfase lacrimais.

Entre os acertos do filme estão a da situação que borra a presença de Renan Rovida em cena (que não é nenhuma novidade, eu sei), mas que era melhor sustentada no curta. Ainda assim suas inserções na realidade de Tico expõem a realidade de um homem que, vivendo da maneira mais independente possível, relata suas desventuras com a bravura que somente homens muito simples têm. A câmera de Adriana e Bruno tenta ao máximo não alterar aquela realidade, ainda que a proposta clara seja de ressignifica-la. Com essa dose de ambiguidade em um projeto tão carinhoso sobre um homem tão íntegro com suas escolhas, o filme consegue equilibrar seu único senão com um banho de honestidade, carinho e deixa qualquer espectador com a tristeza imensa de ter passado a vida sem trocar as tais meia duzia de palavras com um cara tão absurdamente gente boa. É isso, “Madrigal para um Poeta Vivo” deixa indelével a marca do quão gente boa era esse tal de Tico.

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