Além do além

Por Francisco Carbone

Direto da Mostra de Cinema de Tiradentes 2018


Há 6 anos atrás, a Rolling Stones BR publicou uma lista com os 30 maiores guitarristas de todos os tempos e nessa lista constava o nome de Lanny Gordin. Nascido Alexander Gordin há 66 anos atrás na China, esse filho de pai russo e mãe polonesa veio para o Brasil aos 4 anos de idade e se naturalizou aqui. Seu pai acabou sendo proprietário da casa noturna paulistana Stardust nos anos 60 e lá Lanny conviveu com a nata da música na época, onde começou a se apresentar no palco do lugar ao lado de nomes como Hermeto Pascoal. Ao atingir a maioridade, Gordin emplacou um álbum clássico atrás do outro, de artistas do naipe de Gal Costa, Caetano Veloso, Rita Lee, Jards Macalé, além de ter feito parte da Brasília Octopus, banda instrumental que o reuniu a Pascoal nos anos 70. No auge de sua importância como músico e consagrado, Gordin é diagnosticado com esquizofrenia e a partir daí começa seu ocaso.

“A Tropicalia é um elefante caminhando e devorando folhas de hortelã”. É desse Lanny Gordin que trata ‘Inaudito’, longa que faz parte da seleção da Mostra Olhos Livres do Festival de Tiradentes 2018. O diretor Gregorio Gananian investiga o homem hoje, com reflexos imagéticos e poéticos do seu passado de glória, que hoje voltou a ser celebrado. Um belo plano que elenca vinis de Caetano, Gal, Rita e da Brazilian Octopus são perfilados em silêncio em determinado momento, a pontuar sua trajetória. A radiografia que Gregorio faz de fato é cheia de lirismo e poesia, sem abrir mão da persona de Gordin hoje e sem excesso de reverência com esse homem que escreveu seu nome na música brasileira independente de qualquer enfermidade. É através dessa poesia, desse olhar suave e ao mesmo tempo impactante sobre um homem surpreendente é que o diretor desenha essa biografia muito merecida a essa figura cujo ostracismo não é omitido, ao mesmo tempo que também não é um foco de interesse. A personalidade de Gordin é tão indecifrável, quase mítica, que qualquer exagero estético não se faz necessário. Ao autor coube revestir essa personalidade com os elementos que o traduzem hoje, tal qual uma poesia inerente a ele próprio.

“As águas-marinhas são águas que são marinhas, e precisam ser libertas para voltar a nadar no oceano”. Gordin é um homem cujas circunstâncias libertaram uma aura libertária em relação a tudo, principalmente a tudo; ele inclusive se declara que hoje pratica o ‘free total’, quando pode tocar todos os gêneros sem precisar tocar necessariamente nenhum. Essa liberdade buscada pelo próprio biografado não teria como surtir efeito de outra forma a não ser libertando também Gregorio, que abusa do experimentalismo para esse foco. Uma das mais belas imagens captadas pelo diretor coloca a imagem de Gordin refletida numa poça d’água, cujo efeito acaba sendo quase o de uma carta de baralho, onde as imagens dos naipes se completam e também rivalizam uma com a outra. Gordin claramente é um homem repleto de camadas, e somente esse plano logo no início já situa os valores do personagem em questão. Reflexo de si mesmo, em imagem igual e ao mesmo tempo distorcida e oposta. Esse efeito será conseguido com resultados igualmente especiais algumas vezes ao longo do filme, em sequências com relatos de outros músicos e pupilos do personagem principal, que o enxergam com clareza mas também não veem o quadro todo, embora ele seja claro.

“O universo é como uma plantinha que cresce, cresce, até alcançar o léu”. Em determinado momento no entanto, apesar das soluções poéticas serem de bom gosto e não tão óbvias (como a dos quadros, e as tintas que mesclam branco, vermelho e azul – que se traveste de mar) e da articulação de Gordin ser sempre interessante e chamativa, o longa de 85 minutos parece dar sinais de repetição. Não cansaço nem queda de ritmo, mas fica a impressão de que cada novo depoimento dele e de cada nova sequência são uma nova ênfase em algo que já foi provado e verbalizado antes. Uma cena em particular deixa essa questão clara, quando Gordin e um rapaz negro tem uma espécie de gracioso duelo vocal numa escadaria, que se extende imensamente sem acrescentar nenhum novo detalhe considerável; apenas a cena não acaba. Aliás, talvez exatamente por isso, o filme pareça se encerrar por algumas vezes (inclusive nessa cena, que nunca é ruim, só extensa) e esse fim ainda demore sempre mais um pouco para chegar, nos levando a pensar que se talvez numa outra categoria de metragem não estivéssemos de frente de um filme excepcional.

“A música é um jacaré que come framboesas e cerejas”. Inaudito. O dicionário diz que é alguém único, especial. Ao olhar a palavra, vemos quase um parônimo, inaudível. Lanny Gordin se autoproclama como sendo o próprio som, como se tivesse vivido tudo que tinha pra viver e agora restasse apenas o que ele expressa de melhor, sua música, seu som, ele mesmo. Talvez nem todas as pessoas sejam inauditas como Lanny, só que ele também acaba provando que pessoas extraordinárias podem viver situações completamente ordinárias. O que Gregorio Gananian faz é devolver esse homem a esse local do não-comum que é puro ele, pura música, puro som. Ainda que não tenha sido sucinto como poderia, o olhar de Gregorio vai além do respeito e do protecionismo. É uma radiografia honesta de um homem que se reconstruiu sem jamais se destruir por completo. Um sobrevivente de si mesmo.

As frases que marcam o texto são de alcunha do próprio Gordin, que atravessa um longa inteiro num exercício de dialética no mínimo impagável.

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