Spielberg e o seu mundo azul claro

Por Bruno Mendes


Os prazeres do jornalismo estão majoritariamente relacionados à ideia desbravadora e heroica que se pode ter – seguindo um pressuposto até certo ponto pueril – sobre o profissional das letras. Desmascarar mentiras de poderosos torna-se um dever cívico importante, e ao mesmo tempo, é uma “massagem” completa no ego de um grupo de sujeitos que, sim, está ávido por elogios e reconhecimentos. Em certa passagem de “The Post – A Guerra Secreta” (dirigido por Steven Spielberg de “A Lista de Shindler”, “Amistad”, “O Resgate do Soldado Ryan”, “Lincoln” e “Ponte dos Espiões”), um personagem pontua que “a notícia é o primeiro rascunho da história”. Eis a relevância!

O conhecido teor congratulatório spielbergiano se faz presente em seu novo filme, e sem inovações no modus operandi, o zelo estético e a conhecida competência ao estabelecer desenvolvimento ao ritmo da narrativa ali estão. “The Post” não demora para fazer o espectador torcer pelo sucesso da saga dos editores do The Washington Post Ben Bradlee(o ator Tom Hanks) e e Kat Graham( a atriz Meryl Streep, sempre ótima) em unir documentos que comprovam a participação dos Estados Unidos na Guerra Vietnã durante o governo Nixon e publicar uma matéria bombástica.

Ser fiel ao papel social do jornalismo e apontar a verdade ou pensar na saúde financeira do veículo de comunicação e deixar de tocar em assuntos espinhosos para não constranger figuras proeminentes do âmbito político e do mercado? Eis um dilema-flagrante e atual no jornalismo, área que tende a ser observada de maneira ingênua e romântica, por fora, principalmente por estudantes universitários, em períodos iniciais. Na luz e no breu da verdade, contudo, redatores, editores e até os “focas” não são super-heróis o tempo inteiro. Esse obstáculo chamado poder é grandioso e, por vezes, corrompe.

Obviamente no mundo ficcional do diretor, que melhor ratifica em tela os aspectos éticos e íntegros do “bom americano”, não há espaço para jornalistas mal feitores. Kat Graham herdou o jornal da família e tem o dever de contornar dificuldades financeiras, por isso precisa buscar ajuda e participar de reuniões ou pequenas festas com engravatados do mercado financeiro, figuras ambiciosas e quase definidoras de critérios editoriais.

É útil destacar a boa composição de planos nos momentos em que Graham conversa com estes homens de negócio, e tem sua fala interrompida com frequência. No momento de exercer autoridade, Graham é subjugada e sutilmente desrespeitada, um pontual registro de um tempo cuja posição de mulheres como líderes no mercado de trabalho era rara.

Por estar deslocada do contexto hierárquico vigente, ela sentia-se acuada e impedida de tomar a atitude “jornalisticamente” certa naquela situação.

Palmas de pé para a Meryl Streep ao conceber uma personagem interessada nos bons caminhos da profissão, e ao mesmo tempo insegura diante de “brucutus” que sabem de sua fragilidade, e que tiram proveito, algo não tão distante do que acontece nos tempos modernos atuais. Os olhares confusos mini-pausas em esclarecimentos verbais e os não-ditos, ilustram ansiedade, medo e todas as nuances exemplificadas acima. Streep entrega mil verdades. Sábia!

No imbróglio entre a dúvida editorial de publicar ou não publicar, o herói da verdade e defensor do real papel da imprensa, de “monitorar o poder”, é ofertado à Ben Bradlee sujeito idealista, teimoso e destemido. Bradlee defende que “queria estar nessa bagunça”, ao pensar nas consequências práticas de algo tão grave se tornar público. Na concepção dele, as autoridades estadunidenses têm a obrigação de respeitar a primeira emenda da constituição, que diz respeito à liberdade de expressão e de imprensa.

The post parece reto, certinho demais e estranhamente “positivo” quando há tantas adversidades pelo meio do caminho? Sim! O filme não é intrincado e temos um herói (a repetição desta palavra é proposital, certo?) cuja filha “fofinha” vende limonada aos conhecidos repórteres quando o trabalho é realizado na casa dele. Ao som da trilha eloquente de John Willians é fácil concluir: Spielberg não nega o seu positivismo azul claro.

Em tempos onde figuras como Edward Snowden e Julian Assange são perseguidas pelo governo norte americano em razão do vazamento de informações secretas, a verdade (ou versões de “verdades”) ainda é MUITO valiosa. O que os comandantes querem esconder? Jornalistas éticos e destemidos talvez ofereçam boas contribuições para um mundo mais azul. Ouso afirmar que o diretor de ET pensa o mesmo!

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