Skate Kitchen não é uma escola

Por Lisandra Detulio

Durante o Festival de Sundance 2018


“Skate Kitchen”, exibido na sessão programa Next do Festival de Sundance 2018, da diretora americana Crystal Moselle (da série “Something Big Something Small” com Pharrell Williams), é um daqueles filmes que faz a gente acreditar que tem lugar pra todos nós no mundo, não importa quão esquisito você seja, quão fora do padrão, quão solitário você se sinta.

A narrativa segue pela estrutura amadora de conduzir seus personagens e seus dramas, mas com bom gosto, qualidade e cuidado para retratar a vida real, quase um documentário sobre o mundo vivo e autêntico dessas adolescentes, um grupo de meninas skatistas em New York.

Camille, uma menina do subúrbio, quando encontra esse grupo, encontra também a si mesma.
Apesar de ter prometido a sua mãe que nunca mais andaria de skate após um acidente, sua paixão pelo skate era muito maior que sua palavra.

“Skate Kitchen”, que tem o brasileiro Rodrigo Teixeira como um dos produtores, traduz com imagens a união destas meninas, que têm um estilo de vida único, andando, treinando e enfrentando na atitude, em um Park, meninos skatistas rivais pelo espaço do lugar. O filme suavizava o tom atmosférico ao espectador, que poderia estar achando viver uma forma de ilusão da memória que nos faz acreditar de já ter visto isso em “Paranoid Park”, de Gus Van Sant.

Todos buscam uma fuga da realidade nua e crua. De seus problemas potencializados por suas imaturidades, escapando a lugares isolados para fumarem maconha, pulando catracas no metrô para não pagar passagem, e ou curtindo a noite em festas um tanto quanto psicodélicas, com direito a drogas e a muita “pegação”.

Camille pode estranhar no início, mas aos poucos vai se adaptando e se sentindo mais à vontade como nunca estivera. Quando sua mãe descobre que a menina (de Long Island) têm escapulido todas as tardes para andar de skate em New York, as duas discutem e isso leva a jovem a se mudar temporariamente para a casa de uma das meninas do grupo, a mesma que ja tivera um dia uma relação com o personagem de Jaden Smith (filho de Will Smith), e ainda teria uma certa dor de cotovelo.

Ao desenvolver da história, Camille arruma um emprego em um supermercado. Seu colega de trabalho é, nada mais, nada menos, que o próprio “ex” de sua amiga/colega de quarto. Com o tempo, eles vão se tornando amigos. “Skate Kitchen” também poderia inferir a mais um exemplar românticos de diferentes que se encontram. Mas não. Tudo porque o filme nos dá a esperança de que podemos ser o que quisermos ser e não há nada de errado em nos comportamos fora do padrão.

Quando o grupo descobre que um dos rivais e também o ex de uma das integrantes tem saído com a novata do grupo Camille, rapidamente elas a excluem do grupo e Camille fica sem ter pra onde ir. Entre conflitos, reviravoltas, dificuldades para dormir por causa da “farra” dos meninos até tarde, hesitações do namorar, dúvidas de amizade versus sexo, frustrações adolescentes, decepções hiperbólicas e típicas da idade, o longa-metragem investe na redenção do amor.

“Skate Kitchen” é sobre a própria aceitação de cada um. Quando mais se acredita no próprio sonho, mais fácil é “convencer” os próximos-outros (até mesmo a comungar da mesma paixão, como andar de skate) a concordar com nossas escolhas definitivas e sem volta, porque o retorno se constituiria como desolador e traumático. E se desculpar, uma forma de seguir adiante sem picuinhas do passado.

Concluindo, é um filme divertido, alegre, despretensioso e com um final que atende a skatistas e também àqueles que não são. E que há sim uma solução para nossos erros e nunca é tarde para aprender ou se desculpar. Como já foi dito, nós percebemos explicitamente a técnica amadora, principalmente pelo som. Mas a história por si só já se sustenta. E as falhas tornam-se quase despercebidas.

Percebemos também que o roteiro procurou ser aberto. Em construção em conjunto. De improvisos coloquiais e acertados, principalmente pela força e maestria das interpretações de seus atores em um elenco integrado com química. Os atores disseram que o produtor Rodrigo Teixeira  levava ao Set de filmagem açaí para toda a equipe presente. E para finalizar, a diretora teve o cuidado de conhecer um a um e dar o tempo necessário para filmar o primordial e o necessário. “Skate Kitchen this is not college”, disse a atriz em entrevista exclusiva para o Vertentes do Cinema.

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