Um Filme Enferrujado

Por Lisandra Detulio

Direto do Festival de Cinema de Sundance 2018


Todo e qualquer diretor de cinema, acima de tudo, é um ser humano e um indivíduo propenso a acertar e errar na construção da própria trajetória. Até porque são dotados de subjetividades, influências externas e conhecimento de mundo. É factual que nem sempre se consegue a perfeição intangível de reiterar, em todas as obras, a magnitude da maestria da anterior. Sim, eles são em sua essência, e inerência, seres errantes que acertam. Esta é a média e quase uma regra padronizada. “Ferrugem (Rust)” é um desses filmes que se desgarra da carreira de seu realizador.

Precisamos falar sobre o cineasta Aly Muritiba, ex-agente penitenciário, formado em História e estudou Comunicação Social e Cinema. Ele despertou uma paixão incondicional pela sétima arte. E um recomeço de desenho a seu futuro. Seu “Para Minha Amada Morta” venceu o Sundance Institute’s Global Filmmaking Award in 2013. Realizou também o documentário longa-metragem “A Gente” e os curtas de ficção “Tarântula” e documentário “O Pátio”, que foram bem recebidos pelo público e crítica.

Em seu mais recente filme de ficção, “Ferrugem”, que integra o Festival de Cinema de Sundance 2018, na categoria World Cinema Dramatic Competition (Competição Dramática do Cinema Mundial), a sensação-inferência por parte de seu espectador é a de que o diretor foi impulsionado por uma limitação-engessamento no processo de seu trabalho, principalmente por seu roteiro que apresenta uma construção frágil e pautada na superficialidade. A narrativa é pululada de gatilhos comuns, óbvios e furos-clichês que ajudam apressadamente as reviravoltas e suas retomadas ao equilíbrio da história, como o “caminho” da mochila.

A trama versa sobre Renet, Renata e Normal, que são parte de uma família na qual as coisas não são ditas às claras, apenas sugeridas, a maioria das vezes caladas. O assunto sobre o qual não se fala no momento é a partida da mãe, Raquel, deixando o marido David sozinho com as crianças. Os adolescentes estudam no mesmo colégio. Ali o assunto da vez é o vídeo compartilhado entre os alunos via whatsapp em que uma das garotas, Tati (a atriz Tiffanny Dopke), aparece felatiando seu namorado.

Numa manhã, Tati reaparece na escola e no intervalo vai ao pátio e surpreende a todos. David decide levar os adolescentes para a praia até as coisas se acalmarem. Descem para o litoral e encontram a praia vazia, é baixa temporada. Raquel reaparece, está grávida. Agora a família está reunida outra vez e terá que lidar com os fantasmas do passado e os silêncios do presente.

“Ferrugem” aborda o universo High School de uma geração perdida em seus crescimentos, que se retroalimenta de Bullying(s) e dramas hiperbólicos, passionais, urgentes, ingênuos, inocentes e no limite de suas decisões. E com suas típicas brincadeiras toleradas de forma cúmplice entre eles.

É intrínseco à idade uma desorientação. Uma deturpação de valores. Um burburinho de emoções em um vulcão em erupção. Isto pode desencadear ações radicais e ou de simbolismo realista, ora como defesa, ora como vitimismo, do porte de uma arma, por exemplo, e sua consequência inesperada.

Essa geração também é cruel e com infantilizados parâmetros impulsivos ético-morais. Esses jovens investem muito mais em picuinhas, amizades adolescentes que não são amizades, e detalhes articulados com o intuito de se esquivar ou atacar. É uma guerra com seus planos, estratégias e ilicitudes.

Quando um problema acontece, como vazar fotos em um celular, é inevitável não referenciarmos ao episódio da terceira temporada “Shut Up and Dance”, do seriado “Black Mirror”, em que um jovem é chantageado por hackers invisíveis para que siga um conjunto de diretrizes ou, caso contrário, imagens ele serão vazadas para o mundo.

Outro filme que lembramos explicitamente é o filme “Segundas Intenções”, de Roger Kumble, que exemplifica de forma cirúrgica a cena norteada do longa em questão aqui. É um universo mórbido, violento e instantâneo. Com medo dos pais descobrirem e as constantes zoações e implicações, uma tragédia acontece. O tema já foi incessantemente abordado no cinema. Vídeos gravados que vazam e que a solução é lutar contra a a possível publicação. Outro filme lembrada é “Sex Tape: Perdido na Nuvem”, de Jake Kasdan.

“Ferrugem” é dividida em três partes. Esta foi a primeira. A continuação é o desenvolvimento do drama do René, que já era quieto, na dele, mas quando a tragédia acontece, sua depressão é potencializada. Entre falsas pistas para despistar o público, o filme é contado de uma maneira crua, sem nenhuma profundidade (motivos apresentados rasos) e com diálogos anti-naturalistas que não convencem a imersão à história. A transição temporal não fica evidente a quem assiste pela passagem rápida e brusca. Falta ritmo e cadência em equilibrar as partes.

O filme, uma produção Globo Filmes, conduz inferências superficiais. De “Elefante”, de Gus van Sant, ao seriado “13 Reasons Why”. O ponto alto está na fotografia de Rui Poças, que busca prender o espectador. Mas só isso não é suficiente para sustentar seu contexto, nos deixando perdidos com pontas soltas e falhas não entendidas. É amador, quase caseiro. Concluindo, infelizmente, “Ferrugem” é enferrujado.

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