Arte fora da caixa

Por Bruno Mendes


O que acabei de assistir? Eis o questionamento imediato após o término da sessão de “Corra!” (do diretor Jordam Peele), um terror com elementos cômicos, mas que nunca esbarra no terrir oitentista de Sam Raimi ou qualquer um destes exemplares parodias repletos de gags. O filme evoca questões sérias sobre o racismo e no universo fílmico “ilógico” por onde os personagens passeiam, residindo a metáfora sobre as condições difíceis e inacreditavelmente cruéis que os negros passam no mundo real, este sim, lógico.

É de se supor que o passeio por diferentes tons seja o elemento mais instigante desta produção que consta como uma das maiores surpresas de 2017. É fácil sentir angústia, segundos depois sorrir com alguma piadinha e logo depois (ou ao mesmo tempo) ficar estranhamente confuso com a ambientação fora do comum. A estranheza da obra é conduzida com correção, afinal a tensão está intrínseca à narrativa do primeiro ao último minuto, não existindo espaço para “gordurinhas” no roteiro. Em curtas palavras. Tudo ali interessa.

O jovem negro Chris (o ator Daniel Kaluuya, de “Black Mirror”) vai conhecer os pais da namorada branca Rose (a atriz Allison Willians): o pai cirurgião (o ator Bradley Whitford) e a mãe psiquiatra(a atriz Catherine Keener), uma psiquiatra com a habilidade de hipnotizar pessoas. No início há insegurança, mas a moça o tranquiliza ao afirmar com convicção que eles não são racistas. Então, a viagem é feita e logo chegam a uma grande casa bonita, contornada por vegetação (destas residências comuns em obras assustadoras). A experiência parecia aceitável e tranquila, mas Chris não demora a perceber o comportamento estranho de dois empregados e certas atitudes da matriarca denunciam que há algo errado naquele ambiente.

Corredores, escadas, arbustos que parecem esconder segredos. Além da localização geográfica e do tipo de construção da casa da “família feliz”, a configuração cênica de “Corra!” não se distância dos scared movies de fantasmas ou serial killers. A direção também faz referências a alguns clichês do gênero: personagens misteriosos que aparecem em janelas de uma hora para outra ou surgem caminhando entre cômodos pela madrugada quando há pouquíssima luz. Vale registrar que situações tensas são pontuadas pelo aumento abrupto da trilha sonora, porém sem o exagero de certos exemplares que mais parecem um ‘trem fantasma’.

Os instantes densos da narrativa são norteados pela perspectiva de Chris, ao vivenciar momentos um tanto quanto sui generis (momento eufemismo) naquele espaço físico com pessoas “de bem”, em especial quando acontece uma festa cheia de caucasianos. Em cada olhar, resposta curta ou não-dito, o ator Daniel Kaluuya é sábio ao entregar irritação e até incredulidade diante de alguns absurdos proferidos ou mesmo insinuados.

Chris escuta que “escuro tá na moda”, aos sorrisos constrangedores observa uma mulher desconhecida apertar seu braço e elogiar sua forma física, como se só os seus atributos físicos estivessem em evidência e escuta que se fosse mais forte seria uma lenda no MMA. É claro que as flechadas preconceituosas estão alinhadas ao arranjo fantasioso do filme e fortalecem o olhar do protagonista sobre a impressão do “algo aqui está errado”.

Por outro lado, no nosso mundo sem instâncias mágicas do cinema é muito fácil encontrar flagrantes igualmente tenebrosos aos apontados acima. Você já deve ter escutado por aí “eu não sou racista, meu melhor amigo é negro”, “eu trato meus empregados como se fossem membros da família”, “eu não tenho preconceito, mas….”. Pois é, a loucura da obra de Jordam Peele nos faz sentir asco do microcosmo filmado, mas certos momentos da tal vidinha de boletos a pagar não deixa de ter passagens violentas e degradantes.

A sarcástica – e sutil – referência aos “monstros” reais de cada dia está dentro do conjunto de méritos de um filme que utiliza da moldagem padrão do horror/suspense ao longo de sua trajetória. Não há pretensão de ser uma espécie de tratado sociológico, ou tecer elucubrações filosóficas sobre a discriminação racial ou social, mas a pancada irônica conduz o espectador a um campo de reflexão, algo sempre importante em filmes ou outras produções artísticas.

“Corra!” e ágil, o suspense capta a atenção do público e o clima angustiante paira no ar ao longo de distintas sequências. É ficção. É “absurdo”. É comédia “fora da hora”, mas acima de tudo é um cinema tão ousado e surpreende quanto a tal da realidade.

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