Uma representação atual dos seres-sementes

Por Fabricio Duque

Mostra de Cinema de Tiradentes 2018


O produtor e diretor Cavi Borges (ex-judoca e dono da locadora Cavídeo) é o grande estimulador de recomeços de cineastas que ficaram anos sem filmar. Os diretores não gostam que isso seja levantado, mas é um fato, inquestionável. Qual o problema de trazer ao mainstream obras essencialmente autorais? Nenhum.

Pelo contrário, esta ação é um serviço à história de nosso cinema nacional. O “desafiado” da vez é Sérgio Ricardo, que ficou quarenta e cinco anos na berlinda sem filmar um longa-metragem, após períodos de reconhecimento comprovado. Seu “A Noite do Espantalho”, de 1974, foi apresentado no Festival de Cannes e no de Nova Iorque.

Sérgio, mais ligado a projetos musicais, orquestrou uma volta ao cinema na década de noventa, mas foi frustrada. Tendo um projeto aprovado pela Embrafilme, coincidindo com sua extinção pelo Collor. Em 2016, cansado de esperar pela captação, o veterano cineasta decidiu, provavelmente com o estímulo impulsivo de Cavi, fazer na garra seu filme “Bandeira de Retalhos”. Se fazer cinema está difícil aos mais novos, o que dizer dos da velha guarda, estes sim que vivenciaram a sétima arte como amor incondicional e paixão visceral?

E em 2018, ”Bandeira de Retalhos”, já finalizado, estreia hoje, às dez horas da noite, no Cine-Teda, na 21a Mostra de Cinema de Tiradentes, na mostra Homenagem ao ator Babu Santana, que está no filme de ficção, baseado em uma história real, sobre moradores e líderes comunitários do Vidigal que impediram sua remoção da favela pelos governantes corruptos no fim dos anos setenta.

O longa-metragem, é pessoal, orgânico e inerentemente autoral. É cinema direto que se pauta na liberdade temática para desenvolver seus questionamentos sociais, suas críticas à política e suas terapias catárticas.

A abertura (seu preâmbulo) ambienta suas raízes e influências sócio-ancestrais do samba com hip-hop à batucada “de gente que de repente não valia nada” e com retalhos de atos políticos, momentos históricos e cenas de comportamento sociais antigas com o título de “Todo poder do povo”, frase esta explícita em nossa Constituição Federal, a lei magna de nossos direitos e deveres.

“Bandeira de Retalhos”, versão cinematográfica da peça de teatro, do Nós do Morro, é propositalmente amador-caseiro com o objetivo de imergir o espectador à realidade ficcional apresentada e à metáfora política do simbolismo máximo de representação de nosso país. A narrativa precisa ser urgente e passional. Foca-se muito mais no discurso-denúncia que na forma estrutural cinematográfica, improvisada pela câmera-mosca-personagem que integra o meio-moradia de 1977.

Ao inserir, paralelamente, trechos reais da luta contra a desocupação, nós percebemos que nada mudou. O hoje está exatamente igual aos dias passados setentista). O longa-metragem nos estimula algumas percepções referenciais ao espetáculo “Favela, um Musical” (dirigido por Márcio Vieira, e que venceu o Troféu Ítalo Rossi – Prêmio FITA de Teatro) e ao filme “Era o Hotel Cambrigde”, de Eliane Caffé. Aqui se busca muito mais uma dramaticidade coloquial que o humor caricato.

“Bandeira de Retalhos” torna-se um documento ficcional sobre a luta história de conservar o Morro do Vidigal e a felicidade das pequenas coisas de seus moradores, como dançar, lavar roupa e jogar conversa fora. “Pobre neste país é retalho, tem que dar duro”, diz-se com música nostálgica, à moda do compositor Cartola, e rebatido com “Retalho com retalho dá uma colcha”. Eles precisam lidar com a autoridade dos “paus mandados” policiais (que os enxerga como “marginais”, que “cumprem ordem do governador”, mas que “deveriam proteger” com mais humanidade). São os mesmos problemas.

A história versa com a investida do poder público em “mudar” os locais “favelados” a Antares (no bairro de Santa Cruz, “a tantas léguas daqui” ) por causa da “área de risco de desabamento”. Eles revoltam-se pela obrigação de ir a um “lugar longe”, pela autoridade em definir a segmentação geográfica, pelo querer de afastar “o fruto podre da cesta padronizada” e pela remoção imediata “sem mandato”. Estes “quilombolas”, indígenas da contemporaneidade, enfrentam com força e defesa enérgica e agressiva, embasando-se na legalidade dos direitos sociais constitutivos.

Sim, a remoção é a metáfora da expulsão do quilombo. É a visão de que representam o nada. ”A gente é semente que brota em qualquer canteiro para não ser dono de nada”, define-se. Mas são fortes, lutadores, solidários e cúmplices de uma vida simples de dormir na rede, sem entregar seus próximos, sua “família”. Não são ”dedo-duro”. As batidas policiais são constantes, tanto que todos dali se acostumam. Proteger o “marginal” “Bituca” é entender a humanidade os argumentos de sobrevivência do “bandido”. “Com que olho se olha um bandido desse?”, diz o “pajé” da comunidade, um homem cego (o ator Antônio Pitanga – com performance que nos remete ao universo do Cinema Novo de Glauber Rocha – e dança a “embolada”).

“Bandeira de Retalhos” é um teatro filmado. É representação do modelo do cinema-conceito. É a voz à revolta e ao desabafo dos menos favorecidos contra as “falcatruas” e a perda da “vista”. “Precisou acontecer isto para o povo mexer a panela “, diz-se. Não podemos negar e fechar nossos olhos às dificuldades e às limitações do filme. São muitas, muito explicado pelo baixíssimo orçamento. Assim, parte técnica sobrevive e se impõe, como por exemplo o som que não é equalizado, perceptível e inaudível quando personagens falam baixos seus textos. É preciso relevar, visto que é uma produção em “raça”, que sente “saudade do brigadeiro”.

Nossas percepções atingem a música “Gente Humilde”, de Chico Buarque (“que vontade de chorar”). “Se a natureza fosse sabia, não tinha inventado a gente”, diz com filosofia-poesia, intercalando imagens reais históricas do “O bicho que tá pegando”. É a guerra individual-coletiva contra a “propriedade privada”, que não tem medo de “chamar na chincha” e que “estão pronto pro troco”. Ainda que alguns, mais covardes, como o personagem do ator Babu Santana, “aceitem a injeção de graça na testa”.

“Bandeira de Retalhos” não deixa de lado a religião afro umbanda, reiterando nossa percepção ao mundo Quilombo. Se não eles unidos, quem pode ajudar? O advogado que acredita na causa justa. O núcleo humorista fica por conta do ator Bemvindo Siqueira, que com sarcasmo direto argumenta contra o “corno responsável que quer vingança”. Entre a Gruta da imprensa e o hotel Sheraton, a batalha era contra a “truculência aos oprimidos”, de “milicos pontuais”.

O filme é acima de tudo sobre a luta de classes. É um estudo de caso de um acontecimento histórico específico. É sobre o discurso utópico, declamado com didatismo e com poesia popular, corroborado pelo drone que ganha o aéreo e o panorâmico, pelo discurso de Sobral Pinto e pela visita do Papa, em 1980, no Vidigal (esta cenas pós créditos). Concluindo, é a guerra de hoje e a de ontem. Igualzinhas. É a personificação desfocada epifania da essência da luta, resumida em uma única foto. “Bandeira de Retalhos” nos insere na organicidade amadora da luta.

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