A jornada de uma operária a uma vida fora da janela

Por Fabricio Duque


A montadora Caroline Leone, dos filmes “Vermelho Russo”, de Charly Braun, e “Os Famosos e Os Duendes da Morte”, de Esmir Filho, estreia agora, em grande estilo, na direção do longa-metragem “Pela Janela”, após seus curtas “Dalva” e “Joyce”. A força de sua narrativa está na sutileza despretensiosa em pausar o tempo para que sua protagonista possa aceitar as modificações de sua vida.

A estrutura de “Pela Janela” é a de cinema direto, de vida ao redor, que em muito lembra “Corpo Elétrico”, de Marcelo Caetano, principalmente pela temática industrial. De um lado, uma trabalhadora operária que viveu toda sua existência “servindo” o patrão e acreditando que possui importância na construção da história , de fazer parte da família da empresa. Do outro lado, o mercado cruel, hostil, desumano, que não enxerga ninguém, apenas o lucro capitalista. E que ainda usa e abusa de sua ingenuidade (ela é levada a ensinar outros iniciantes trabalhadores).

O filme é cinema de contemplação. O espectador observa as micro-ações continuadas, por uma câmera mosca quase em transcendência documental que acompanha os silêncios, os medos, as crenças e as falsas esperanças de seus personagens, principalmente a da protagonista Rosália, a irretocável e precisa atriz Magali Biff (de “Açúcar”, de Renata Pinheiro, Sérgio Oliveira; e de “Deserto”, de Guilherme Weber), que imprime um controle absoluto em permear transformações emocionais.

Rosália é uma dedicada operária de 65 anos que dedicou a vida ao trabalho em um fábrica de reatores da periferia de São Paulo. Certo dia acaba demitida e é consolada pelo irmão José (o ator Cacá Amaral), com quem vive. Ele resolve levá-la em uma viagem de carro até Buenos Aires com o objetivo de distraí-la e no país vizinho Rosália vê pela primeira vez um mundo desconhecido e distante de sua vida cotidiana.

“Pela Janela” é a vida comum de uma “trabalhadeira” que o único erro que cometeu foi envelhecer. Acostumada com sua vida organizada e definida, que convive bem com sua resignação. De trabalhar, de lavar roupa, de fazer comida, de conversar socialmente no almoço, de sentir cansaço pelo pesado batente. E de cantar nas horas “vagas” (“Nasceu um pezinho de rosa”). Rosália é feliz no jeito e no tempo dela. E de se cuidar: passando seu creme no corpo à noite.

Uma das críticas do filme é sobre a insensibilidade do sistema industrial. De perpetuar a rotina à moda de “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin. De atropelar tudo, todos e todas, sem piedade, com a desculpa do progresso e ou do “processo de fusão” e ou do “mistério das exigências dos novos sócios”. Mesmo alguém que investiu trinta anos de sua vida e juventude, e criou uma ligação afetiva com o lugar. Nada disso importa. Só que homens não são mais homens e sim robôs-soldados treinados a também repetir a dormência de seus chefes. Estes incluem seus filhos e sobrinhos, que internalizam o individualismo-egoísmo crônico como um novo status quo.

Rosália sofre. Entrega-se à dor. Nós sentimos sua impotência e seu sofrimento. Que se manifesta calado, silencioso, quase monárquico. O roteiro estende ao máximo esta contemplação naturalizada, muito pela incrível direção de Caroline, que maestra com ritmo, cadência e equilíbrio exato das transições sentimentais.

“Pela Janela” é também um road-movie. Um filme de estrada a Argentina. Uma jornada on the road de aceitação das mudanças. É um “Felizes Juntos”, de Wong Kar-Wai, em versão low profile. A viagem faz bem. Ela começa a sentir a vida após trinta anos adormecida. Alienada como uma mulher que sofreu lobotomia. E que agora não está mais em coma. Sua apatia a deixa sem chão. Não sabe mais o que fazer. Mas aos poucos o mundo novo a acorda, como uma terapia silenciosa, homeopática, da pequena compra de uma panela, por exemplo. “As panelas parecem mais bonitas na vagem”, diz.

Rosália sente a água das Cataratas do Iguaçu. Tudo é “um igual diferente”. Ela aprende “as palavras também iguais”, as diferenças e as “cores” do novo idioma. Ela só tem agora observar os outros. O redor. Revive com o irmão a relação ordem e submissão de patrões e empregados. A nova estrada “que não acaba mais, uma reta sem fim que cansa e hipnotiza”. “A fronteira é muito perto para passar. É só querer”, metaforiza-se. Ela adentra outra cultura, outra classe social de normais tipos orgânicos, “pessoas com roupões” em banheiros compartilhados.

Entre panela de pressão, bicho de estimação, a saudosa música “Anahi”, de Cascatinha e Inhana, o chimarrão, as conversas com vizinhos, o dom do ensinar, Rosália adapta-se. Perde o medo da vida, mas “tem um pouco de medo da volta”. “Qualquer lugar é lugar se estamos tranquilos”, diz-se. É inevitável não inferirmos a Amelinha quando canta “Amar Quem eu Já Amei” (“Seu moço, eu venho de longe. Não sei onde vou chegar. Não tenho medo de seguir, mas tenho medo de voltar”).

Concluindo, um filme único, particular, autoral e que estimula a mudança para o bem. “Pela Janela” foi selecionado ao Festival de Roterdã (vencendo o prêmio FIPRESCI); no Festival de Washington venceu o Prêmio Especial do Júri). E integrou o Festival de Gramado em 2017.

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