Uma questão antológica da alma humana

Por Fabricio Duque


Na peça “Tubarões”, criação dramatúrgica coletiva da autora Daniela Pereira de Carvalho  a personagem, interpretada pela atriz Bianca Joy Porte, sente saudade de seus mais que amigos. É uma vontade de reencontrá-los, de saber de suas vidas, de sentir seus toques, de tomar um café e de memorar pessoalmente idiossincrasias vivenciadas no passado. Já na música “Sonhos”, de Caetano Veloso, a saudade é um sentimento “melhor que caminhar sozinho”. E em tantas outras esferas de nossa cultura.

O diretor Paulo Caldas (de “Deserto Feliz”, “Baile Perfumado”, “O País do Desejo”, e roteirista de “Cinema, Aspirinas e Urubus”), em seu documentário “Saudade”, aceitou o desafio-responsabilidade de traduzir em palavras e na tela exponencial do cinema este sentimento-sensação tão simples, mas tão complexo, que só existe definição nos mundos latino-americanos. Será por causa de nossa passionalidade imbuída de não controlar os excessos emocionais?

Um olhar íntimo e um retrato aprofundado sobre a saudade sentida pelos brasileiros e pelos indivíduos lusófonos que vivem longe de sua terra natal, habitando comunidades lusófonas em diversos países do mundo. Através de viagens a países que falam a língua portuguesa, os aspectos plásticos e sensoriais da linguagem são traçados.

“Saudade”, o filme, é, acima de tudo, um estudo, de filosofia pensante e analítica sobre a organicidade estrutural desta palavra, que representa o sentir falta de cada um de nós por alguém próximo ou passageiro.

Sim, saudade é querer lembrar. É buscar estreitar o tempo de se estar longe da companhia viva na memória. No México, há o Dia dos Mortos, para os entes falecidos sejam festejados e não esquecidos. Talvez a ausência não sentida seja a maior dor a quem ainda ama.

A narrativa de “Saudade” vai do panorâmico (o tempo no universo espaço, como o astronauta que “vê muita coisa sem interagir” – “é medo e felicidade”) ao específico (personificar a tradução do sentimento aqui homenageado). “Se eu não for embora, não poderei voltar. Quem fica, padece”, diz-se.

O filme começa ambientando silêncios, espaços inabitados, cenários solitários, navios abandonados (estes que mais parecem “Terra Estrangeira”, de Walter Salles), e ao efeito visual de voltar ao tempo, ao antes. Tudo para focar no nômades, estrangeiros que trocaram seus países natais com o intuito de encontrar uma nova vida. É a procura por Eldorado. Pela paz e felicidade.

Nestes, deslocados geograficamente, a saudade é mais pungente. Eles pensam “com os olhos”, alimentando tristezas da alma por aqueles que deixaram. “A saudade é uma questão antológica do homem, por ter sido expulso do paraíso. E o desejo latente da volta. É uma condição metafísica”, diz-se. Nós somos “desgarrados”, “desterrados”, “migrantes” étnico-sociológicos.

“O termo saudade, que vem do árabe, não é pacificador. É inquietação que saúda a negritude de nossa alma. É a bilis negra. Uma espécie de melancolia”, diz-se. É inerente ao ser humano sentir saudades do que viveu e do que ainda não vivenciou.

Há uma nostalgia patológica, exemplificada em centenas de dezenas de filmes, músicas, livros e espetáculos teatrais. “Guardiões da Galáxia” é um desses exemplos pela imaginação defensiva que “solicita uma presença” para que a saudade pode co-existir.

“Saudade” entrevista escritores, poetas, diretores de cinema, na maioria portugueses de um Portugal “vitimado” (“papel comprado por causa dos quarenta e ouro anos de ditadura”) e resignado em um “discurso velho e muito antigo”, que se comunica pelo fado, uma forma de aceitar as dores e as transformar em poesia coloquial de uma epifania atemporal de seus nostálgicos cancioneiros (“se não tem nada, tem saudade”). “Saudade é um atributo místico, sempre ligado ao passado. É uma terminologia colonial”, diz-se.

O documentário de Portugal viaja a São Paulo, depois a Alemanha, permanecendo na busca exaustiva de traduzir a palavra saudade, que “não existe” na Europa (que “não tem tempo de olhar para trás” – “uma pessoa que só vive para o presente, é uma casa sem alicerce”), apenas “uma sensação de “dor do mundo”.

A escritora Adriana Falcão segue seu discurso pelo “tudo descartável de hoje”. “A moda é desapegar”, diz. Em seu livro “Mania de Explicação”, de literatura infanto-juvenil existencialista, ela diz que “Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue”.

E não para por aí. Fábio Vitrola aprofunda a ideia de que antigamente o long play possuía dois lados A e B, e nos dias atuais, só há um lado, o A, que cabe todo o B, C, D e milhares de outros. “Saudade, um sentimento que quando não cabe no coração, escapa pelos olhos”, cita-se Bob Marley. Deborah Colker “incorpora a saudade no corpo”.

“É cerebral. Vem do corpo. Ela sai e não entra”, diz-se. Nós somos saudosistas por causa da guerra, da morte, por não “devolvermos a saudade”, entre cenários da Capela de Ossos, em Évora, que diz “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos (referência esta que influenciou o nome do documentário “Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos”, de Marcelo Masagão – uma colagem de instantes saudosos).

Com depoimentos de Ruy Guerra, Arrigo Barnabé, Milton Hautoum, Miguel Gonçalves Mendes, José Celso, Arnaldo Antunes, Karim Aïnouz (e seu “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”), Johnny Hooker (e sua música “Volta” – tema do filme “Tatuagem”, de Hilton Lacerda), João Paulo Câmara, entre outros, é sobre a sensação, “gostosa” ou “dolorosa” ou com um “pé na angústia” ou conflituosa (“para o amor, a saudade é corrosiva”) ou até da “rola do marido”. Do imaginário ou do real.

Até mesmo a fotografia daqui causa saudade, quando o foco deixa o personagem refletivo no espelho para se “dedicar” ao do palpável. É sua “Alice Através do Espelho” de Lewis Carroll. “Saudade é ser, depois de ter”, finaliza-se.

Concluindo, é um filme colagem de frases, sensações, descobertas, estudos filosóficos. É tudo sobre a saudade, sua chegada e sua partida. Sim, nós espectadores sentiremos saudade deste exemplar único chamado “Saudade”.

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