Viva o herói solitário!

Por Bruno Mendes


Jackie Chan é um ícone da cultura pop. Filmes como A Hora do Rush, Karatê Kid, Quem Sou eu e Bater ou Correr embora tenham qualidades e premissas distintas, são registos certos de um cinema divertido e elétrico naquele campo da porradaria meio que “cara dos anos 90”. Portanto, o lançamento da obra O estrangeiro (dirigido por Martim Campbel, responsável por 007 contra GoldenEye, 007- Cassiono Royale e A Máscara do Zorro) não deixa de proporcionar curiosidade, ainda mais pelo fato de Chan protagoniza-la e assinar a produção.

Explosivo e passeando com fluidez entre gêneros distintos como ação, drama e suspense político, o longa pode pecar por certa bagunça no roteiro ao não estabelecer harmonia na confluência de tramas. De todo modo, congrega elementos capazes de iluminar a memória afetiva da turma que já se divertiu com as estripulias do um dos mestre das artes maciais mais famosos das últimas décadas e também é eficiente ao elencar nuances dramáticas com precisão. Há cenas realmente densas e os semblantes de tristeza e compreensível “ausência de chão” do personagem de Chan nas situações mais marcantes do primeiro ato são comoventes e dignos de elogio.

Na trama Quan ( Jackie Chan), dono de um restaurante chinês em Londres, vê a filha morrer em um atentado terrorista cometido pelo Exército Republicano Irlandês (IRA) e decide se vingar dos responsáveis no melhor estilo ‘justiça com as próprias mãos’, afinal conclui que existe lentidão por parte das autoridades policiais britânicas em encontrar e punir os culpados. Na busca por vingança, encontra Liam Henessy ( Pierce Brosnan, que já trabalhou com Campbel no 007 dirigido por ele em 1996), ex membro do IRA, que hoje faz parte do governo irlandês.

É claro que Quan não é um cidadão pacato qualquer: o espectador pode esperar habilidade no “um contra um” – dois, três… – e na pontual utilização de artefatos bélicos ou explosivos improvisados em sua jornada por justiça. Nas sequências de ação é injusto aguardar o balé coreográfico daqueles duelos de outrora, afinal o sexagenário astro nascido em Hong Kong obviamente não esbanja tais desenvolturas. No entanto, as brigas ganham em “verdade” diante da simplicidade da troca de socos, chutes ou golpes com objetos.

A construção minimamente “suja” e desleixada de todos os confrontos físicos estabelece harmonia com a aura trágica e “séria” da história. Chan ainda é herói, a atmosfera fantasiosa ali está (em qual obra de Campbel esta não imperou?), mas observa-se um sentido adulto – reforçado pela tintura política, ainda que tímida e despretensiosa – no qual voadoras espetaculares, cambalhotas e tantas outras firulas, que soariam pertinentes em outras abordagens, aqui se mostram pouco necessárias. Bom acerto.

A tensão entre Quan e Henessy tem contornos interessantes e Pierce Bronsnan acerta o tom ao compor um sujeito de moral dúbia e, levando-se as possibilidades finitas deste tipo de produção, multifacetado. O antigo membro do grupo terrorista precisa estabelecer posições éticas e validar o caráter diante do contexto político atual, mas ao mesmo tempo está preso a questões intragáveis do passado. Embora transpareça frieza e os atos rudes diante dos encarregados que o cercam pontuem autoridade e certa aparência de controle da situação, Henessy não consegue esconder a insegurança e a impulsividade em instantes desafiadores.

Voltemos a falar das ‘possibilidades finitas deste tipo de produção’. O Estrangeiro nega voos impossíveis e não se perde em pretensões, bom sinal. Por outro lado, um personagem descartável aqui, outro acolá e subtramas pouco producentes que dão o ar da graça principalmente nos últimos atos, ainda que não soterrem os méritos elencados até aqui, não fariam falta se deixassem de existir. Qual a função daquele jornalista?

Enfim, brigas, fugas impossíveis, explosões planejadas, embates verbais e eficientes nuances dramáticas compõe um filme com trajetória claramente definida. Não há anseios em problematizar o terrorismo no velho continente e as ações investigativas da polícia inglesa são expostas de modo superficial. Com exceção de Quan e Liam Henessy, todos ali todos “bonequinhos de luta” em universo fílmico que equilibra com habilidade a despretensão e o já citado tom adulto.

Muitas vezes é louvável pontuar que o artista “saiu da zona de conforto”, vangloria-se nobreza na atitude. Apesar de certa remodelação na roupagem, em O Estrangeiro, Jackie Chan segue sendo ele mesmo. Nada mal, muito pelo contrário.

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