Gandhi versão touro

Por Bruno Mendes


Pode-se dizer que os caminhos da animação O Touro Ferdinando (dirigido por Carlos Saldanha, responsável pelos sucessos da trilogia Era do Gelo e Rio e Rio 2) seguem em torno da busca de adequação a um mundo de conceitos estagnados e, mais que isso, a uma proposta revolucionária de quebra de paradigmas. Vê-se a tentativa de aceitação do comportamento sensível e altruísta daquele que a fúria, força e “macheza” são condições naturalizadas e cobradas na sociedade. Touro, pelos elementos pontuados na narrativa, torna-se um produto de cultura atualíssimo e brinda o público de todas as idades com leveza e diversão ao propor reflexões sérias e contextualizadas com o que nos deparamos por aí.

Adaptado do romance homônimo lançado em 1938, o filme traz a história de Ferdinando, um touro que desde pequeno não demonstra a agressividade típica do animal e não tem a mínima ambição de participar de touradas. Após fugir do ambiente onde fora criado, encontra uma família que o trata com carinho e – felizmente – vive como sempre quis, rodeado por flores e sem dissabores. No entanto, após uma sucessão de acidentes ele é capturado e mandado de volta para o pasto onde vivia inicialmente, lá reencontra conhecidos e parte para novas aventuras: não entrar na arena de touradas e fugir dali são as principais.

Os desafios do protagonista são destacados desde os primeiros minutos da produção, quando Ferdinando é provocado constantemente pelos parceiros e jamais desperta reações de raiva. Completamente deslocado naquele microcosmo hostil, o animal de forma comovente busca proteger uma flor vermelha que nasce no solo feio e sem graça do campo. Tal flor surge como correto – ainda que óbvio – elemento alegórico, que representa o raro espaço de bondade e até inocência em um habitat que mais se parece um campo de concentração. A briga inglória da ternura e fragilidade contra a opressão reinante já proporcionam um vislumbre maduro e até certo ponto profundo logo nas primeiras sequências.

Não pense, contudo, que a aventura se valida positivamente apenas pelo conjunto de reflexões capaz de evocar, fator importante para justificar o mérito da produção, sem dúvidas. Mas O Touro Ferdinando é, sobretudo, uma animação divertida, engraçada e praticamente todos os personagens despertam o interesse do espectador, afinal cumprem funções importantes na trama. A cabra atrapalhada que fala sem parar, o touro com os olhos cobertos que pensa não enxergar e o cachorro rabugento que não esconde a felicidade ao balançar rabo são alguns dos numerosos coadjuvantes elaborados com maestria para cativar crianças e adultos.

Há várias sequências de perseguição em áreas urbanas cheias de gente (com direito a bebê, policiais e freiras) e até a tentativa hilária do pesadão de quase uma tonelada passar despercebido e não quebrar nada em uma loja de artigos “muito quebráveis”. A lucidez criativa e a dosagem rítmica certeira empregada por Saldanha transportam o espectador para aquele universo fílmico sem dificuldades. Nota 10 para a suspensão da descrença, tudo é possível.

A animação aposta na simplicidade e não perde com isso. Inexistem, por exemplo, os detalhes cirúrgicos nas feições dos animais que indicariam o repertório de sentimentos de cada um. Por outro lado, a oposição entre os cenários: pasto triste, quase opaco x sítio familiar montanhoso e colorido por flores, expõe em arranjos animados o principal sentido da trama.

O Touro Ferdinando não inventou a roda. Encontra-se um pouco de Rei Leão, pitadas de Tom e Jerry e até pode lembrar Rio ou a Era do Gelo, e por intermédio do equilíbrio entre comédia, drama e aventura, encanta o espectador e deixa aquele sabor especial ao acender das luzes, ou seja, ao contrário de tantos escapismos, a produção congrega méritos ao ponto de não se tornar imediatamente esquecível.

Se por um lado a nova obra de Saldanha reflete um mundo sombrio, amargo e preconceituoso, também destaca que a melhor atitude para promover mudanças na sociedade está na insistência do companheirismo, respeito e da promoção da paz.

Lembro que quando criança, certo colega relatava com orgulho: “meu pai sempre diz que não é para levar desaforo para casa e que se eu voltar para casa chorando apanho ainda mais”. Torço para que pais e crianças de hoje levem a sério os conselhos do touro animado.

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