A força da música de uma Broadway no Cinema

Por Fabricio Duque


“O Rei do Show”, do diretor estreante Michael Gracey (que começou como profissional dos Efeitos Especiais e que comparou este filme a “Amor, Sublime Amor”, de Jerome Robbins e Robert Wise; “Mary Poppins”, de Robert Stevenson; e “A Noviça Rebelde”, de Robert Wise), levou sete anos para ser finalizado.

E está indicado ao Globo de Ouro 2018, principalmente por optar pelo gênero musical, que une sua ambiência aos moldes de “Moulin Rouge – O Amor em Vermelho”, de Baz Luhrmann, com “Hairspray: Em Busca da Fama”, de Adam Shankman, com “High Scool Musical”, de Kenny Ortega (estes dois por causa da presença do ator Zac Efron), com o seriado “Glee”, com o universo de catarse pop abraçado ao tom estrutural da cantora Sia (de “Chandelier”, “The Greatest” e “Titanium”) com o da cantora Katy Perry com a energia de Justin Timberlake com Robbie Williams, e seu “Let Me Entertain You”, com até mesmo o folk pop do grupo Imagine Dragons.

O longa-metragem também sugestiona inferências ao seriado “Carnivàle”, da HBO e ao filme “Venus Negra”, do diretor franco-tunisiano Abdellatif Kechiche. Sim, o que não falta é encontrar semelhanças a outras obras. Tanto que “O Rei do Show” apresenta onze canções, escritas por Benj Pasek e Justin Paul, do musical “La La Land: Cantando Estações”, de Damien Chazelle.

A narrativa, ao estilo Off-Broadway (por seu conteúdo) e Broadway Mainstream (por suas coreografias) de ser, interage com os espectadores que participam como a plateia do próprio filme, que é convidada a cantar. É a surpresa da projeção, do querer, de acreditar no sonho. De origem humilde e desde a infância sonhando com um mundo mágico, P.T. Barnum (o ator Hugh Jackman, o Wolverine “X-Men” de “Logan”) desafia as barreiras sociais se casando com a filha do patrão e dá o pontapé inicial na realização de seu maior desejo abrindo um “fascinante” museu “exótico e macabro” de curiosidades (um “Circo dos Horrores”), que “não é para os fracos de coração”. O empreendimento fracassa, mas ele logo vislumbra uma ousada saída: produzir um grande show estrelado por freaks, fraudes, bizarrices e rejeitados de todos os tipos.

“O Rei do Show” conduz-se pelas diferenças intercaladas da observação das classes sociais. O universo aristocrático (tão distante) e suas aulas de etiqueta pelos olhares de um garoto “sem futuro, zero à esquerda”. “Podemos viver no mundo que criamos”, diz-se causando incredulidade por “ser louco” e “ajudado” pelos “diferentes”, “aberrações mutantes”. Tudo é fantasia, possível e inocente, buscando a mensagem de que não devemos nunca desistir de nossos sonhos, porque o que é nosso está guardado. É só encontrar. É a “magia do amor” com danças a frente da Lua que se aproximou para se agigantar. É a “máquina de desejos”. E de ser contra a perspectiva do “trabalhar e morrer” sem viver. E “tornar o mundo uma alegria”. “Hipérbole não é crime”, diz-se.

O que poderia ser uma punição, a demissão por exemplo, ganha contornos de esperança. E um crônico e incondicional otimismo envolve “o borra-botas” e sua família. É um filme de auto-ajuda sobre redenção, sobre ver “além dos olhos” a beleza interna de cada um. “O Rei do Show” é sobre os intermitentes fracassos às tentativas ao sucesso. É encontrar “algo sensacional”, “algo vivo”, que se mantenha perpetuado e que também “enriqueça” seus donos e pague seus artistas.

“O Rei do Show” “recruta” as “maravilhas do mundo”, “únicas e extraordinárias criaturas”, que saem da padronização social. Há o homem cão, o homem mais alto, a mulher barbada, todos, “guerreiros”, “criam vida” por suas “estranhezas”. Um gênero como esse não há como não tender ao sentimentalismo. Os gatilhos comuns são pululados indo de excentricidades ao Bullying e de uma casa nova a “sapatilhas de balé” das filha. “Um vende virtude, outro felicidade”, diz-se com frases de efeito.

O filme caminha na linha tênue da emoção demasiada (apoiada pela força da música) e da emoção pela sinestesia naturalista (do próprio tema despertado – nós sentimos as dores, as hesitações, os medos e as ansiedades). Entre ideias incomuns do “inesperado”, “ultrajes”, “indecências”, contratempos, conflitos, dramas, negativas de críticos “sisudos”, “prospera-se a controvérsia” e a presença da Rainha Victória. P.T. Barnum, um “showman vigarista”, “encontra”, em uma cantora de ópera (com “voz de rouxinol”), o passaporte à “normalidade” (“algo real não ludibriado”). De ser aceito sem “pedras”, “limitada apenas pela imaginação”. “Nunca é o bastante” é sua “kryptonita”. “Quando será suficiente?”, pergunta-se. “Não precisa ser amado por todos, apenas por algumas pessoas”, complementa sua família.

“O Rei do Show” converge a união dos mundos. Inserir o diferente no cotidiano. Torná-lo ordinário. E aprender a conviver com o muito que ganha sem perder quem o ama. É o belo e as feras. É uma celebração à humanidade, os apresentando como iguais. “A arte é sobre fazer os outros felizes”, finaliza-se. Ainda que, insistentemente, o longa-metragem busque afundar-se nos propositados clichês construídos, como foi dito, a força da música salva e o recupera momento a momento.

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