Uma jornada que transforma dramas em glórias

Por Lisandra Detulio

Correspondente Direto de New York


“Eu, Tonya”, desde suas concorridas pré-estreias aqui em New York, vem lotando todas as exibições de todos os cinemas. Os espectadores precisam se deslocar a outras áreas para que possam conferir o mais recente filme do diretor australiano Craig Gillespie (de “A Garota Ideal”, “Horas Decisivas”) sobre a primeira mulher a completar um Triple Axels na historia da patinação artística durante a preparação para os Jogos Olímpicos de Inverno de 1994. Sua direção é soberba, com domínio absoluto, direto, nu, cru, orgânico e realista.

Baseado em fatos reais, o filme, que começa como um documentário-entrevista, em que personagens depõem sobre o ocorrido, acontece por dois pontos de interconexão narrativa, que representam dois protagonistas co-dependentes: a câmera e a figura da Tonya, que se comunicam todo o tempo, do início ao fim. O elemento técnico tem o “dom” de nos levar aos acontecimentos, seja quando a biografada esta na pista de patinação, e ou quando ela esta correndo dos tapas da mãe ou do namorado, nos aproximando e nos afastando na fúria construída.

Tonya Harding (a atriz australiana Margot Robbie – de “Esquadrão Suicida”, “Terminal”, “A Lenda do Tarzan” – em uma interpretação irretocável e de forma esplendidamente bizarra em um filme de gênero atriz – ela ficou feia para ficar linda na tela) cresce se destacando no esporte e aguentando maus-tratos e humilhações por parte da agressiva mãe (a atriz americana Allison Janney, de “Juno”, “A Espiã Que Sabia de Menos”, “O Lar das Crianças Peculiares”, “A Garota no Trem” – que imprime no papel não uma redenção positivista, mas uma reiteração estendida da negatividade), e ser “deixada” por seu pai, entre altos e baixos na carreira e idas e vindas em um relacionamento abusivo com Jeff Gillooly (o ator Sebastian Stan). Nós, público, esperamos um final feliz, que não acontece e nos posterga com falsas esperanças.

Estes dois protagonistas atuam com maestria, Margot e sua Tonya em um show de atuação, como nunca visto (apesar de já ser uma versátil e qualitativa artista) e a presença bruta e nada sutil da câmera (o cinegrafista merece, sem sombras de dúvidas, o Oscar), que tem o papel de nos imergir na trama (principalmente pela Steady Cam, que capta propositalmente o descuidado dos momentos decisões-limítrofes), como se estivéssemos assistindo dentro da tela, vivenciando pela sinestesia tudo que se passa com seus personagens. A vitória e a derrota. Tonya é uma menina defensiva (dura por fora), mas por dentro ela só quer ser amada.

A fotografia é outra maestria à parte: subjetiva, interativa (quando gira ao redor de Tonya patinando e ou quando a treinadora diz não poder treiná-la por causa da pouca idade da atleta – apenas quatro anos) e como se a câmera fosse Tonya e Tonya fosse a câmera. “Olha aqui você vai me treinar porque eu sou boa mesmo com 4 anos”, infere-se sem palavras com deboche e elegância no mesmo tom.

Tonya começa sua carreira muito nova. Ganhou sua primeira medalha ainda com 4 anos, e aos quinze conheceu seu primeiro namorado Jeff, que com o passar do tempo fica agressivo e é “apoiado” por sua mãe, que diz que a atleta merece sim “uns tapas porque é burra e abusada”. Ela convence-se que se “minha mãe me bate e me ama”, então, o namorado também pode bater e amar ao mesmo tempo. Não há como referenciar à figura materna do filme “Preciosa- Uma História de esperança”, de Lee Daniels. Contudo, há “males que vêm para o bem”. Se não fosse as cobranças, desaforos, xingamentos (como forma de estímulo – igual aos técnicos que incentivam com impulsos Bullying), agressões físicas e “apoio” extra-humano da pessoa que a gerou, Tonya não teria se tornado a “melhor patinadora da América”.

Sua vida não melhora. Na verdade, só piora. Quanto sofrimento e provas um indivíduo pode aguentar até sua tranquilidade? Ela apanha de todos, mas não desiste, mesmo quando os juízes dizem que ela “não é a imagem da competidora americana”, por não ter um “modelo de família ou uma apresentação exemplar”. Às vezes, esmorece, é logicamente aceitável, como se tornar uma garçonete. Só que quando sua primeira treinadora aparece e diz que Tonya precisa dar mais duro por causa da Olimpíadas que será em dois anos e não quatro, uma garra-frescor de vida e perspectiva futura a acorda.

Ela sempre teve dificuldades com sua apresentação. Quando criança não tinha recursos financeiros para se vestir de forma apropriada, Tonya nunca esteve “dentro do padrão americano”. “A América quer alguém para amar, mas também alguém para odiar”, diz e enfrenta de tudo, até mesmo desferir sobrevivências: jogos psicológicos, sociopatia, competições pessoais, “cartas” ameaçadoras, “planos” e definições como “O gordo sedentário que ainda mora com os pais e nunca transou na vida”. Uma tragédia acontece que faz Tonya não poder competir e virar lutadora de boxer.

Concluindo, “Eu, Tonya”, que foi exibido no Festival de Toronto 2017, e que concorre em diversas categorias no Globo de Ouro 2018, é um filme artisticamente certeiro, afiado, cirúrgico, que não perde o ritmo, e vai direto ao ponto a que se propôs. E que finaliza com uma das maiores verdades ouvidas no cinema: “There’s no such thing as truth, everyone has your own truth (“Não há tal coisa como a verdade, todos têm sua própria verdade”).

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