Uma Naturalizada Adaptação Humanizada

Por Fabricio Duque


“Verão 1993”, da diretora Carla Simón (do curta “Born Positive”), estreante em um longa-metragem, que venceu o prêmio filme debut no Festival de Berlim 2017, é o representante da Espanha no Oscar 2018. A narrativa segue a estrutura de contemplar as ações pela percepção da pequena Frida (a atriz Laia Artigas), que passa por um momento de mudança obrigatória de partida (levando um visível sofrimento apático e a decorada oração “Pai Nosso” de “perdoai nossas ofensas” e de “oferendar” coisas aos entes queridos – um acalento e respiro), estreitando assim os limites entre ficção e realidade ficcional. Não é um documentário, mas a atmosfera, captada por uma assistida câmera mosca subjetiva, envolve o público em naturalismo de cinema direto, devido as micro-ações de reverberação espontânea.

A sensação de tempo pausado faz com que nós possamos observar o processo de adaptação de Frida. Seus próximos entendem seus silêncios para que aos poucos ela seja integrada no novo bucólico, orgânico, naturalmente visceral (o sangue dos animais) e interiorano ambiente, como uma fazenda, em que animais vivem soltos e que alimentos não são mais industrializados. Ela observa tudo com detalhes, calma e tempo, processando tudo em sua cabeça, falando sozinha sobre suas bonecas companheiras e “alertando” a outra criança a não “tocar para não estragar”. E a falta de luz da trama fornece a metáfora da mudança à escuridão.

Frida começa a se “defender” de todos, criando uma descontada crueldade infantilizada “bobagem” (quando joga o pente fora e ou quando diz que não sabe amarrar o cadarço). Está em crise. Depois de perder o pai, ela sofre também com a morte da mãe (“por um novo vírus que comeu todas suas defesas” – explicado de forma suavizada, mas com verdade, pela “nova mãe” – a atriz Bruna Cusí, que lembra a atriz Charlotte Gainsbourg), devido a uma doença que ela ainda não é capaz de compreender. A garota é obrigada a se mudar para a casa dos tios, em outra cidade. Apesar do afeto e compreensão da família, Frida manifesta um comportamento agressivo, especialmente com a prima mais nova.

“Verão 1993” é sobre como cada um lida com o próprio sofrimento. Uns com dependente vitimismo, outros com o querer da solidão. Frida busca implicar para chamar a atenção, ativando assim o descontrole dos outros. Mas quando a condescendência permanece, ela precisa modificar seus atos, partindo mais ao confronto radical, brincando de sexy “bitch mãe”, fingindo fumar um cigarro como um personagem burlesco e ou chupar “fálicos” picolés.

A trama começa a incomodar o espectador pelas iminências, mudando nossa opiniões iniciais de pena meramente sentimental à propositada pena mais humanizada. Nós sentimos a dor sem que o roteiro precise potencializar e manipular este sentimento. Nós percebemos que as influências da criação de Frida não eram assim tão convencionais e que a marcaram para toda a vida. E as de agora são mais ingênuas, quase inocentes, como o bloco dos “Cabeçudos” e brincadeiras de “peste alta, peste baixa”. Ela não chora mais. É corajosa ou está petrificada?

Com domínio absoluto da direção, o filme nos mostra algo que a protagonista possui e que gera aversão, medo e afastamento. Essa mudança não a permite “fugir” de novos exames e de “curas” consequentes. “Verão 1993” é sobre uma criança que precisa lidar com seus acontecimentos trágicos, a nivelando em um patamar adulto de existir. Frida precisa “descontar” em alguém sua raiva de ser imposta em um mundo hostil, mesmo com toda igualdade, humanidade e amor de sua nova família (por questão legal deixada em carta por uma “filha irracional”), que precisa lidar com diferenciado tratamento mas não exclusivo, sem a excluir do meio, com ordens e limites a qualquer criança (descer da árvore para não cair e não ser “selvagem”).

Há algo de Bernardo Bertolucci e seu “Beleza Roubada” por causa da naturalidade ritmada empregada de um acompanhamento de jazz nostálgico, e ou a cochilada com um livro enquanto s crianças assistem desenhos na televisão, e ou a imaginação de contato com a mãe, em elipses de tempos continuados. A iminência do perigo está nas brincadeiras “irracionais, mimadas e sem escrúpulos” das crianças, principalmente da “preciosa” e “presenteada” Frida, um “desastre” que sofre por “preferência da felicidade alheia” (por “influenciar outra criança com “mentiras podres e requentadas” e por “começar com o drama”), que cada vez se sente mais deslocada por querer ser amada e dormir junto com eles na cama. A adaptação não é fácil, porque acha que ninguém gosta dela. Ela então muda o foco e busca a emoção verdadeira. “Verão 1993” é um retrato realista e intimista de um comportamento imposto a uma criança que atravessa o medo e a paranoia e encontra o amor incondicional.

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