Um passado melancólico em terapia de choque cognitivo

Por Fabricio Duque


“Yvone Kane”, da diretora Margarida Cardoso (de “A Costa dos Murmúrios”, “Sob o Olhar Silencioso”) é um filme sobre a memória e sobre o não esquecimento político de militantes icônicos. É acordar a resistência, a luta e a verdade dos acontecimentos históricos. A narrativa busca a essência estrutural do cinema português, que referencia os realizadores Pedro Costa a Miguel Gomes, passando por Manoel de Oliveira, com um que a mais do escritor e biólogo moçambicano, Mia Couto, reverberando a característica principal de conjugar uma solitária, individualista e nostálgica melancolia resignada (recorrente quase ininterrupta) com a contemplação naturalista-poética do tempo estendido, principalmente pelas expressões reflexivas e silenciosas que transpassam mais insights que palavras. A fotografia corrobora essa objetivação de uma cósmica epifania pelos ângulos conceituais em sombras-reflexos retratados, como uma fantasmagórica percepção de ultra realismo.

A frase “A revolução não morre”, em uma cena no cemitério, reitera esse cinema direto, cru, orgânico, de discurso utópico quase solitário e unilateral. O público percebe também uma semelhança com a cinematografia política-reacionária de Lucia Murat e seu “A Memória Que Me Contam”, talvez pela presença de Irene Ravache, atriz que vivencia, sem vaidades (de sutiã enquanto olha radiografias), personagens que questionam dúbia e polemicamente discursos em campo existencial. E pela integração do popular às encenações da ficção de uma médica que atua socialmente, e tenta descobrir os limites-fronteiras-muros de início e fim deste “mortos enterrados”.

Na África, Sara (a atriz brasileira Irene Ravache) é uma médica que passou anos da sua vida militando pela causa revolucionária mas agora se tornou uma mulher marginalizada, solitária e ultrapassada. “Era Marx” e agora “trabalha com as freiras”. Quando sua neta morre (“que existiu”), sua filha Rita (a atriz Beatriz Batarda, de “Colo”) retorna a cidade em que passou sua infância para reencontrar a mãe. A exemplo da vida passada de Sara, ela resolve investigar a verdade sobre a história de uma ex-guerrilheira e ativista política, Yvone Kane, morta (por “tropas racistas”) sob circunstâncias suspeitas, que foram encobertas pelo governo. “Yvone Kane”, filmado em Moçambique, é um filme de ficção, que “persegue seu interesse pela temática colonial e pós-colonial, numa perspectiva muito singular, explorando a memória, as perdas, a culpa e a inevitável inscrição da História nas vidas de seus personagens”.

É um filme sobre duas versões. Duas mulheres. Duas visões. E duas épocas. O passado e o presente. Um que se escondeu. E o outro que acorda com intensa passionalidade-intimidade. Uma que não sente mais medo pelo sofrido e calejado caminho. A mente divaga e já não sente mais nada. A outra que vive constantemente em um estado de alerta. É a paranoia do medo. Da iminência da violência que não faz desligar. A fotografia cria a ambiência de lampejos incorporados, à moda da teofania fantasmagórica, quando sobrepõe imagens sensoriais por reflexos, possibilitando fusões do dentro com o fora, como percepções pós-corporais. O existencial com a realidade concretista do estar e com os silêncios inferidos que se apresentam mais explícitos que palavras.

“Yvone Kane” é uma obra política. E principalmente feminista. De luta das mulheres sempre “empenhadas”. “O resto tinha pouca importância”, diz-se. Mas também é sobre desmistificar a utopia – e as “questões ideológicas” – “rumo ao socialismo científico” do “destacamento feminino” – que “fazia tudo em nome de uma causa” – “a construção de uma sociedade sem classe” – uma “nova nação socialista”. É sobre não deixar as lembranças dos perseguidos (“anjos quase esquecidos”). Ainda que por visitas guiadas ao museu como aulas didáticas e decoradas. De esmiuçar os resquícios que ainda existem.

A filha Rita, escritora, deseja averiguar e aprofundar o que realmente aconteceu (“vivos para reparar os mortos”). A narrativa busca traduzir uma naturalidade, de tempo pausado, mais encenada nas pequenas ações, com irretocáveis e equilibradas interpretações dos não atores. “Morrer para quê? Naquele tempo tínhamos medo das pessoas, de tudo”, diz-se. “Esta é a verdade que nos serve por enquanto, e é uma bela história”, complementa-se sobre a versão que acalenta destas guerrilheiras “sacrificam as próprias famílias para proteger o outro”.

“Yvone Kane” confronta religião, política e indivíduo social. “Deus distraído e a dormir”, diz-se e é rebatido com “Todos têm que acreditar”. “Paz não é silêncio”, com tréplica. um dos pontos altos é o sarcasmo naturalista. “Assustou-se com este tom lamuriante de suspiro final?”, poesia nua, crua e sem tons sensíveis exagerados, como as manipulações das produções americanas, em fases de perspicácia cirúrgica. “Nada para perdoar e nada para chorar”, finaliza-se com a “piscina dos espíritos presos”.

O filme participou do Festival do Rio em 2014, além dos festivais internacionais Festival de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Fé; Festival de Cinema das Noites Negras; do 39º Festival Guarnicê de Cinema em 2016 e do 17º Festival du Cinema Bresilien de Paris, em 2016, onde Beatriz Batarda ganhou o prêmio de melhor atriz (2014).


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