Tudo é político, inclusive a liberdade de ser o que quiser ser

Por Fabricio Duque


Todo ser humano, enquanto indivíduo que vivencia e compartilha regras legais da sociedade, é um corpo político. Sua unicidade completa a pluralidade. Na Constituição Federal, nossa carta magna máxima, explicita-se para que “iguais sejam tratados como iguais e diferentes como diferentes”, tudo por causa de sua complexidade diversificada. Cada caso é um caso e deve ser julgado com sensível responsabilidade humanizada. O mundo que nós existimos hoje não é, por pura lógica concretista, o mesmo de antes, ampliando transmutações comportamentais de ser, estar e decidir a opção sexual, a modificação do corpo incompatível e a possibilidade de ter ou não um filho. Contudo, mesmo com a estrutura do Estado Laico, a nação, alimentada por séculos de intervenção religiosa, já não conseguem distinguir o certo do errado, desaguando opiniões pré-prontas no medo do “fogo eterno” do inferno.

“Meu Corpo é Político”, de Alice Riff, exibido na mostra Outros Olhares do 6º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, e na quinquagéssima edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017, documentário que aborda o cotidiano de quatro militantes LGBTQIAPK (Lésbicas; Gays; Bissexuais; Transexual e Travesti; Queer, que são aqueles que não identificam a sexualidade em uma categoria específica; Intersexual, popularmente conhecidos como hermafroditas; Assexuais, que se relacionam sem atrações sexuais; Pansexual, que ama todos os gêneros sem distinção; e Kink, aqueles que buscam relacionamentos não convencionais como fetiches sadomasoquistas) que vivem na periferia de São Paulo, realiza um panorama do contexto social em que os personagens estão inseridos e de que forma sua atuação age nas ruas. Cada qual com seu propósito, necessidade e luta política.

Há a diretora de uma escola pública. Há a Testemunha de Jeová. Há a artista que foge do mainstream. Há a palestra com mulheres cis brancas. Cada vez estas siglas aumentam mais pela liberdade de uma nova descoberta, até então adormecida, de exteriorizar plenamente o que realmente são, estágio permanente, e não estar, uma circunstância.
O filme conduz seu público pela naturalidade orgânica de suas personagens, descrevendo detalhes, micro-ações e preparações aos shows.

É a rotina encenada do tomar banho, lavar roupa, comer e mexer no celular, acompanhada pela câmera presente, ora subjetiva, todo o tempo em contemplativos planos longos. Mas não é um filme caseiro, tampouco amador, e sim intimista, que convida o espectador a adentrar nesta liberdade existencial de usar grandes brincos com a palavra diva. Essas personagens precisam de constante afirmação. Aos outros para que não se surpreendam com a diferença e principalmente a elas, para que se sintam mais integradas. Uma delas é a artista queer Linn da Quebrada, que traz a experiência que interpretou em “Corpo Elétrico”, de Marcelo Caetano.

“Meu Corpo é Político” materializa as palavras. Busca-se dar um sentido. “Antes era senzala, agora, favela”, diz-se e tom de “teatro político” e de “transmutação” de uma mulher ao homem. “Se a classe não se adapta a gente, como nós nos adaptaremos ao mundo?”. A câmera direta integra essas personagens na multidão, que olha, observa e percebe. “Nome é sua história, é o que você carrega. Este não me representa. Tenho uma vagina em um corpo masculino”, sobre o nome de nascimento dado pelos pais. Sim, tudo é político. E por mais que tenhamos liberdades constitutivas, nosso existir é vinculado aos trâmites da legislação. Praticamente somos estatísticas e não seres humanos.

O documentário é também sobre não limitar possibilidades, como o “Funk, que é poesia da favela”. “Todo corpo é político. O meu também”, grita-se. Tudo é determinado pela padronização do visual. O que for diferente, “encontra” a “margem da sociedade”. Nós precisamos questionar o que é normalidade? Quem determinou isso ou aquilo? Por que ainda é assim? Por que se repete a opinião marcada pela binaridade de gênero comportamental retrógrado? O social precisa criar espaços. De permitir o empoderamento do negro, do gay e da mulher. De mitigar invisibilidades, a “heteronormalidae” e o simbolismo do rosa. De apagar o apagamento.

Os debates, aos moldes do filme ficcional “120 Batimentos Por Minuto”, de Robin Campillo, estimulam questionamentos dos núcleos afetados de não mais “desassociar a sexualidade”, de não mais sentir culpas, de não mais sofrer abusos psíquicos e físicos, de não mais se esconder. De ampliar novas belezas de novas mulheres. Se cada um pensasse mais na própria vida e se esquecesse da vida alheia, nosso mundo e nossa convivência representariam a pacificação e uma naturalidade espontânea do próprio viver. Tudo é político, inclusive a liberdade de ser o quiser ser.

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