Olhares Distantes

Por Fabricio Duque


O título do filme “Ninguém Está Olhando”, da diretora Julia Solomonoff (de “Hermanas”, “El último verano de la boyita”), já expande camadas preceptorias-existenciais-aprofundadas do comportamento social, que foca na figura do imigrante e que busca a “grama verde” do novo país “Meca” “Eldorado” do sucesso. É o Jardim do Éden. Pecado, culpa e necessidade. Ninguém está olhando porque a fama ainda não chegou. Ninguém está olhando quando se comete ilicitudes furtivas. E ninguém está olhando porque ninguém se importa mais com o ser humano, apenas com as próprias idiossincrasias individualistas. É sobre a busca do futuro pelo que cada um escolheu. Nós inferimos a “O Segredo do Meu Sucesso” pela ideia de que nós somos os próprios responsáveis pelo nosso sucesso.

A narrativa conduz-se pela naturalidade, estimulando a contemplação da espontaneidade das micro-acoes do protagonista, visto que é um filme de ator porque a câmera o acompanha em todos os momentos, o focando como material principal de um estudo de caso. “Ninguém está olhando” também é sobre a inversão de papéis. O protagonista tenta sobreviver como baba, mas é um ator que figurativamente foge ao estereótipo. É latino mas é loiro e “parece europeu”. De olhos claros. É gay, mas não indica nenhuma feminilidade. Joga bola, usa barba e não transparece gestos mais indicativos, tampouco ”afetações”, características “padronizadas” e “intrínsecas” da homossexualidade.

Ele também é orgulhoso e corajoso por ir a América para lutar pelos sonhos e por um futuro mais famoso. Mas todas as dificuldades são encontradas. É um caminho árduo. É o “Rent” de um argentino, com seu inglês “que precisa melhorar”, que se aventura na cosmopolita ilha de New York, que retrata o cotidiano-ambiente-meio, integrado ao que acontece ao redor, como a bateria de um músico que interage na edição com sua batida. E ou um “love”pichado em uma rocha. E ou a rádio que anuncia a matéria dos planos ao final de semana.

“Ninguém Está Olhando”, que venceu os prêmios de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Montagem e Prêmio da Crítica (Abraccine) no Cine Ceará 2017, é um filme metafórico por palavras em uma câmera mosca (ao estilo do documentarista Frederick Wiseman), que documenta a vida como ela é, condensada pela estrutura narrativa do seriado “Looking”, da HBO, com “Deixe a Luz Acesa”, de Ira Sachs. “Ser é permanente, estar é circunstancial”, diz-se. Outro ponto que podemos analisar é a questão da política étnica de extra-territorialidade com linguagem pluralista e globalizada. Quem o olha e observa seus atos (por exemplo, trocar fraldas, jogar bola e ser o alvo de diretas e verdadeiros flertes), disparando picardias e zoações (“curso para ser pai”), é o grupo de babás imigrantes, que quando a polícia chega, precisam dispersar por causa de estarem vivendo na ilegalidade com ou sem vistos expirados.

Nico (Guillermo Pfening) é um ator de trinta anos tomou uma decisão que mudar sua vida. Após romper de maneira abrupta o relacionamento às escondidas que tinha com o casado Martin (Rafael Ferro), seu produtor na série de TV “Rivales”, decidiu abandonar sua carreira local promissora na Argentina para começar do zero em Nova York almejando conhecimento internacional. Envolvido com um filme do novo cinema mexicano, ele precisa encontrar meios de se manter na cidade enquanto as filmagens não começam. Para tanto, cuida do bebê (“dá uma mão, mas sem se comprometer”) de uma amiga (que dá aulas de Yoga e que acha uma “tortura tirar leite”), trabalha como garçom, tenta outros testes de elenco e, para sobreviver, faz bicos, “freelas”, e aplica pequenos golpes (no melhor estilo do “jeitinho brasileiro”). E nós espectadores “aprendemos” até como trocar etiquetas em lojas. Nico é um “fofo” trambiqueiro. “Nova York é para isso: comprar duas malas para levar tudo o que comprou”, diz-se.

“Ninguém Está Olhando” apresenta a naturalidade da diversidade sexual, em que gays, lésbicas e heterossexuais convivem em harmonia. Contudo, há algo na condução da trama que não envolve o espectador. Talvez seja as elipses. Talvez a edição fragmentada que não aprofunda os dramas vivenciados de Nico. Talvez esta artificialidade seja proposital para inferir que a atmosfera da novela (mescladas com sua realidade de epifanias-lembranças) que ele realizava, e ou que o protagonista já não vive dentro do próprio corpo devido suas constantes preocupações. “As novelas argentinas são muito tristes. As do Brasil são mais bonitas”, fofoca-se. Sim, parece episódio de uma novela mexicana devido a seu distanciamento. Nós não somos dali, estamos ali sem estar. Nico está na boate gay, mas não está. Faz sexo no banheiro, mas não faz. Até conversa com a diretora Petra Costa, que interpreta a si mesma em uma roda de amigos. Mas ainda não está ali.

O longa-metragem corrobora a maestria do cinema argentina que é sua tipicidade do humor ácido-sarcástico que se escondem em uma pseudo inocente falta de entendimento, como as conversas com a mãe. O público é convidado a fazer parte da vida de Nico. E das reviravoltas e confrontos com o passado recente ainda em terapia, construindo rotinas no High Line. Tudo muda quando o “amigo exibido” (que faz mais sucesso que ele) e racista (“comer um chocolatinho quente” para se referir a uma mulher negra) chega, o tirando de sua zona de conforto com um “pouco de liberdade”, o “atrasando” ao status de um turista na Times Square, o fazendo acordar do transe e o estimulando a auto-destruição. “Não pode ser tímido ou orgulhoso”, ensina-se.

Em Rivales, Nico ficou em coma. Talvez esta seja a deixa do filme para explicar sua ambiência. Ele não acordou ainda. Está sonhando, perdido em um mundo qualquer ininteligível, esperando migalhas. “Ninguém Está Olhando”, para arredondar o roteiro, pulula gatilhos comuns, como conflitos, e ações óbvias, como a cena da descoberta da amiga mãe do bebê e ou do desconforto moralista com a outra amiga. Tudo para potenciar seu fracasso transmutado por seu orgulho a fim de criar a urgência decisória da redenção. No final percebemos mais explicitamente o tom “soap opera” de vivenciar novos sonhos do ser e do estar.

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