Um show de horrores

Por Bruno Mendes


A honestidade ao assumir-se como “comédia popular”, utilizar amplas referências de figuras encontradas no dia a dia e falas comumente associadas aos atores em questões, muitos dos quais “personagens de si mesmos” no âmbito televiso e na internet, poderia se tornar um edificante mérito no filme “Os Parças” (dirigido por Halder Gomes e roteirizado por Cláudio Torres Gonzaga). Poderia. O completo esvaziamento criativo da direção e roteiro, porém, entregam ao público um produto não apenas esquecível, mas constrangedoramente equivocado e entediante do início ao fim e longe, MUITO longe dos rumos cinematográficos de, por exemplo, obras antigas dos Trapalhões, sempre divertidas, cativantes e surpreendentes, dentro dos desígnios despretensiosos e populares.

Rodada na capital paulista, na produção, Pilôra (Tirulipa), Ray Van (o famoso youtuber Whinderson Nunes), Toinho (Tom Cavalcante) e Romeu (o ator Bruno de Luca) são chantageados por um trambiqueiro da rua 25 de Março (o ator Oscar Magrini) e precisam produzir a festa de casamento de Cinthia (a atriz Paloma Bernardi), filha de um eminente contrabandista da área da 25. O problema é que eles não têm dinheiro, nem conhecimento prático para organizar o evento.

Tem-se início a confusão que poderia revelar sequências engraçadas e até colocar as reverenciadas figuras pops da atualidade – maior destaque nesse quesito para Tirulipa e Whinderson – em perspectivas mais amplas àquelas cujo público reconhece muito bem nos principais veículos midiáticos. Contudo, como a famigerada criatividade está em falta, as piadas revelam-se repetitivas e as figuras cômicas “são o que são”. Pior, se funcionam em suas respectivas zonas de conforto e, como é de se comprovar pela popularidade, fazem o público rir (pessoalmente não conheço o trabalho do Whinderson Nunes, portanto seria injusto fazer qualquer comentário sobre os vídeos dele na internet, mas Tirulipa já me fez rir bastante em algumas oportunidades), na telona o teor “ridículo” das elaborações cênicas propositalmente caricatas, não esbarram na almejada graça, nem quando o ‘humor físico’ é preponderante.

O insucesso das jovens estrelas do riso na obra também é evidente no veterano humorista e ator Tom Cavalvante, aqui em distintas situações exemplificado como o típico bêbado clichê, tão comum em um dos seus conhecidos personagens do passado. Cansa! E este não é este o único problema. Nas sequências que envolvem o quarteto, não há buscas naturais de comicidade, mas o despejo de piadas ininterruptas, como se bastassem por si só. E não, não bastam.

Vemos uma série de tiradas cômica (nunca novas) sobre sotaques e o jeito de ser do cearense e do paulista, com o uso insistente e estereotipado do vocabulário típico das localidades em questões. Não há desrespeito nas gracinhas, afinal o humor autorreferente (ou autodepreciativo, a depender da situação) habita a seara dos humoristas em cena, mas a falta de destreza da direção na criação das sequências e a ausência de um texto minimamente inspirado, colocam por terra qualquer tentativa de graça.

As sequências tenebrosas do encontro entre o contraventor da 25 de Março com os organizadores da festa, da festa de “despedida de solteira” ou momento em que a noiva prova o “vestido” junto aos estilistas fakes e todas as situações referentes aos consecutivos imbróglios da festa de casamento, são algumas mostras de que se não houver competente elaboração cinematográfica – creio destacar que em relação ao gênero e ao tom proposto foi flagrante a ausência da fina harmonia entre fruição de diálogos, emprego pontual da trilha e montagem – não haverá motivos para sorrir.

E mesmo que o nonsense seja o norte estabelecido no caminho narrativo , o desfecho da história – veja só – não é “tresloucado” ( se fosse, o filme poderia até estar em outro patamar, quem sabe?) e embarca em tedioso lugar-comum, na ânsia de atar nós e relevar um “ romance verdadeiro” para desfazer a farsa estabelecida até então.

Fazer comédia não é fácil e trocentos tons podem ser adequados em obras do gênero, com possibilidade de êxito ou não. Não há lista de regras para um filme “dar certo”, mas é imprescindível – utilizando novamente a tal palavra – usar e abusar da CRIATIVIDADE, em todos os sentidos. “Os Parças” não inova em piadas e talvez na expectativa de “homenagear” ou propagandear suas estrelas, parece deixá-las livres para um showzinho próprio. Pura sinceridade? É um show dos horrores.

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