Um Filme Frio e Sem Vida

Por Fabricio Duque


Baseado no best-seller homônimo do norueguês Jo Nesbø (sétimo livro da série do detetive Harry Hole), “Boneco de Neve”, do sueco Tomas Alfredson, é um filme, de romanceados núcleos-partes, que almeja ser “Seven – Os Sete Pecados Capitais”, de David Fincher, com “O Homem Que Não Amava As Mulheres” com “Fargo”, dos Irmãos Coen. Tenta-se entender o porquê de um resultado desastroso, visto que o diretor realizou obras de estética interessante em “O Espião Que Sabia Demais” e de existencialismo naturalista de uma vampira em “Deixa Ela Entrar”.

Realmente não se sabe. Talvez o Sr. Tomas Alfredson buscasse diversificar, imprimindo uma estética narrativa ininteligível aos olhos de espectadores comuns, com uma edição frágil, solta e totalmente perdida. Mas esta decisão reverberou em seu próprio processo de direção, que afasta a atenção do espectador em uma narrativa altamente clichê e exponencialmente óbvia, pululada de gatilhos comuns desengonçados e aparvalhados sem nexo e sem interesse.

É um filme quebra-cabeças de gênero thriller, que objetiva recorrentemente a iminência do susto como fio condutor e como foco principal. Todas as ações, decisões, reações, reviravoltas e diálogos são conduzidas e elencadas pela estrutura palatável-mastigada-didática em que se explica tudo todo o tempo. Esta uma característica do cinema americano, que padroniza suas produções com estereótipos e caricaturas que se condensam a não galvanização derrocada do final.

“Boneco de Neve” contrói-se por um urgente amadorismo em camadas-segredos em descoberta. É um caso policial. Na primeira parte temos a trama de uma família disfuncional que sofre psicológica e fisicamente nas mãos e palavras do tio-pai. Na segunda, temos a contemplação de um personagem apaticamente disfuncional com o cotidiano a seu redor, dormindo na praça e com obras em casa, que precisam “pulverizar” o ambiente.

Oslo, Noruega. Harry Hole (o ator Michael Fassbender – que “perdeu seus poderes de ler a mente e descobrir assassinos”) é um policial reconhecido pelos casos resolvidos no passado (neste está “sem talento”), mas que sofre a decadência de problemas de alcoolismo (mas não bebe uma gota sequer) e de “pai ausente”. Após encontrar por acaso com a agente novata Katrine Braft (a atriz Rebecca Ferguson), ele passa a investigar o desaparecimento de uma série de mulheres. A peculiaridade é que o responsável enviou ao próprio Harry um cartão enigmático, com a imagem de um boneco de neve, que está sempre presente nos locais onde as vítimas são atacadas.

A narrativa, que infere a estrutura do seriado “Sense8”, (talvez pela presença da atriz transexual Jamie Clayton fazendo investigações hackers como na segunda temporada) hesita no elemento susto e imprime propositalmente um tom estranho extra-sensorial (como se todos estivessem fora de seus corpos, flutuando em uma onda cerebral cósmica – perceptível pela fotografia que acontece por reflexos em vidros, como fronteiras de fora), de pontas-elipses soltas, de uma edição que “junta errado” tentando ser “Instinto Selvagem”, de Paul Verhoeven.

O filme infere com silêncios e explicita com detalhes, fragmentos, pistas e reviravoltas frustradas. E cansa o espectador. Não há aprofundamento em seus diálogos forçados por frases clichês. É artificial, superficial, sem química e frio. Muito frio. Até a cena sem camisa. Até o sexo com roupa. Até o médico de unhas pintadas. Até o computador antigo que data épocas. Sim, é ladeira abaixo. Quando o espectador pensa que não pode piorar, piora para surpresa do mesmo, como a plástica-botox de Val Kilmer.

“Boneco de Neve” quer a todo custo ser David Fincher. Quer que Harry tenha aura de “Shame”. Quer ser “Seven” perdido em um “galinheiro”. Há gêmeas. Há maníacos suicidas. Há mulheres com “espírito livre”. Há o toque da “Família Adams” no celular. Há mulheres submissas. Mulheres fatais. Há tudo. Menos vida e talento. Mesmo com a produção executiva de Martin Scorsese, que inicialmente foi considerado para assumir a direção do filme. “A produção do filme foi muito apressada. Parte do roteiro não foi filmada e o período de estadia da equipe na Noruega foi encurtado”, declarou Tomas Alfredson.

Trata-se do segundo filme a receber financiamento do novo programa de incentivo estadual da Noruega, que visa atrair mais produções estrangeiras no país. O primeiro filme a ser beneficiado pelo programa foi “Pequena Grande Vida”, de Alexander Payne, exibido no Festival do Rio 2017.

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