O documento real de um povo

Por Fabricio Duque


O curta-metragem “Vai e Vem”, da diretora carioca Louise Botkay (de “Vertières I, II e III”), é muito mais que um simples documento etnográfico, por captar a essência cotidiana das vivências contemporâneas de um povo. A narrativa conduz-se pela potência de sua imagem estética, dividida em três quadros-telas, de instantes fragmentados, das micro-ações contemplativas, das esperas estendidas, dos silêncios temporais, dos detalhes singulares e das transformações comportamentais.

“Vai e vem” foi realizado com povo Hunikui do Rio Jordão, aldeia São Joaquim e Novo Segredo, no sul do Acre, fronteira Brasil/Peru. É uma viagem por essa cultura milenar, que, renunciando ao exotismo fácil das imagens estandardizadas, constrói um olhar experimental e contemporâneo sobre o cotidiano da floresta. O filme se desenvolve em forma de tríptico, uma colagem, uma teia constituída por uma série de planos sequência mostrados simultaneamente. Nesse trabalho, pretende-se suscitar uma experiência da presença, uma experiência de pessoas, tempos e espaços.

A diretora transcende o discurso e potencializa o aprofundamento desta retratação sem interferir no discurso, apenas documentar momentos, transmutações, adaptações e pseudo-liberdades destes indígenas, que cada vez embarcam mais na globalização padronizada, deixando para trás as raízes. Nós percebemos em uma foto religiosa, a mudança da crença no catolicismo. Nas vestimentas de roupas, um moralismo imposto. Na derrubada das árvores, a falta de culpa. Na brincadeira com um inseto, a crueldade.

O povo Hunikui está mais parecido com o homem branco. O olhar de fora de Louise Botkay, uma estrangeira em terra estranha, corrobora nossa observação “do que nós fizemos?”. Como adulteramos costumes e idiossincrasias de uma nação que chegou muito antes de nós? Como pudemos corrompê-los com nossos progressos.

“Vai e vem” aborda despretensiosamente sem julgar e assim nos imerge e nos acolhe em suas rotinas, permitindo a seu público humanizar e desmitificar a visão de excentricidade que buscamos compactuar e acreditar como definitiva. É um filme único. Um resgate de únicos períodos pontuais de vidas que permanecem a mesma existência tentando ser mais e mais como nós, os civilizadores e exemplos patamares de objetivo. Ledo enganos, meus caros! Não somos melhores que vocês. Este é aquela típica obra lúcida que nos confronta translucidamente com o que realmente somos.

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