A incrível Viagem do Ser

Por Fabricio Duque


Podemos dizer, com domínio das palavras, que “Eu Sou o Rio”, dos realizadores Anne e Gabraz, é um filme que representa um novo gênero na cinematografia: é um filme espectro, que se desenvolve pela ação de uma estendida epifania contemplativa sobre o artista plástico “neo-concretista” junkie Tantão (que recebeu este apelido de sua irmã na infância). Aqui é muito mais sobre a liberdade do existir que antecipa a criação que um discurso pró ou contra as drogas sintéticas. “Vale a pena ou a pena vale?”, pergunta-se retoricamente durante a letra-catarse de uma música.

Nós espectadores somos envolvidos e imersos em um período de convivência com Carlos Antônio Mattos, seu nome verdadeiro, que acredita que “artista não morre, se mata” e que em 1983, junto com Márcio Bandeira e Lui, criou a banda de pós-punk Black Future. A narrativa pausa o tempo real, criando a cósmica sensação fantasmagórica da personificação da aura-alma que transcende aos olhos da câmera e seu público “voyeur”. “Música é feita de água. É a crise da água”, diz.

“Eu Sou o Rio”, que integra a mostra fora de competição da Nona Semana Festival de Cinema 2017, apresenta a hiperatividade, verborragia, a “mente fritada”, a paranoia idiossincrática do homenagem, que tem sua vivência respeitada por um filme que quer apenas o retratar, e não o julgar de forma alguma. É uma experiência-sinestesia de núcleos-elipses-momentos, de linguagem estilística, como a primeira cena que apenas ouvimos (à moda de “Blue”, de Derek Jarman, em versão monocromática) uma fragmentada hipérbole vocabular de palavras, termos, vozes, dicções, locuções, frases pontuais, sentença deslocadas, orações internalizadas e “implicantes” verbos.

E ou a câmera zoom tão próxima que se torna parte dos próprios personagens, abraçando “Sutis Referências” e “Noite”, de Paula Gaitán, com “Os Monstros”, da Alumbramento, com “Transeunte”, de Eryk Rocha. E ou a granulação da imagem digital, ainda escura quase invisível, mas que já permite enxergar alguma coisa. O longa-metragem, de dentro para fora, da escuridão à sã clareza, da invisibilidade ao foco principal (de ser tema de “meu amigo está fazendo um filme sobre mim”), compartilha a agitação em nível esquizofrênico em uma construção livre, de propósito amador e intimamente caseiro.

É a busca pela clarividência. É a retratação ao esgotamento de um ser humano que não “gosta de dormir” e que resiste até obter o silêncio de sua aceleração. Em um fim de semana deste músico e artista plástico icônico do underground carioca desde os anos 1980. E consegue. Que fala sozinho com seus quadros, amigos imaginários que são partes dele mesmo. Quantos Tantãos há dentro de um Tantão? “Eu Sou o Rio” é um filme sobre ele e para ele, que o segue de forma repetitiva-expositiva em seus caminhos, sua lupa para checar as fotos do facebook, seu cigarro e sua cocaína. Este filme é seu reality show com moldes de Andy Warhol. Sua importância. Sentir-se querido, afagado e expressando a voz de sua arte. “Esta é a validação da grande arte”, diz.

Todas as histórias são relevantes? Todos devem ser personagens do próprio filme? Sim! E cada vez nós espectadores embarcamos em suas ideias “viajandonas” de sua líquida “arte honesta” que extrapola os limites do estágio do ser, estar e do existir como forma. “Eu Sou o Rio” é concreto e abstrato ao mesmo tempo e mostra que todo artista é “incompreendido” quando está na pré-criação com seus devaneios e ócios. E que a cabeça criativa inicialmente só há uma lógica: a do próprio criador. Com seus disquetes e andar desengonçado.

Este é o seu “Quero Ser John Malkovich”, de Spike Jonze, e escrito por Charlie Kaufman, em reflexos vitrais. É humanizar a doidice que o artista tem de sair do próprio eu, acessar novos eu(s), voltar ao ponto neutro e retornar ao primeiro eu. Louco demais para você? Pois é, atire a primeira palavra quem nunca agiu dessa forma. Pelo menos se for um pensante-artista.

“Eu Sou o Rio” não é sobre o Rio de Janeiro. É sobre o fluxo “da água” do próprio cérebro, que vive constantemente em “crise”, integrando a cidade como cenário e passagem, em ações espontâneas dos outros que não percebem a câmera “escondida”, em venda de seus quadros por “realísticos reais”. Tudo contra a normalização, mediocridade e passividade de se resignar pela confortável apatia que assola mais os desejos, quereres, sonhos e possibilidades transcendentais. Concluindo, não há como não querer ser Tantão pela unicidade-particular-individual de ser muitos em um só.

“Mon Tante Tantan, Como tambor torto de circo, Qual o trapezista Lula, Flambante no vai lá, E com elegância cai, Salvo pelas cordas, Novamente voa e no subir, No descer é amparado decaído, Tanto faz se nas nuvens ou no chão”, finaliza-se com Guilherme Zarvos.

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