Um transporte à nostalgia de um cinema que fala e sente

Por Fabricio Duque


Há uma marcante e singular na diretora Helena Ignez: a de trazer ao presente a utópica-esperançosa-nostálgica atmosfera do cinema que experimentou no passado. Este frescor é traduzido pela vontade de reiterar características intrínsecas de uma catártica, sonhadora e impulsiva época datada que precisa ser acordada, remexida e redesenhada nos tempos do agora. A atriz-diretora musa do cinema, uma das criadoras da produtora Belair, junto com seu marido Rogério Sganzerla e a amigo Júlio Bressane, vestiu-se da inocência perdida desta era estética-conceitual de revolução intelectual, que inseria uma ingênua crença-discurso nas tentativas das mudanças políticas.

Em “A Moça do Calendário”, seu mais recente filme, não poderia ser diferente. Tudo porque Helena enxerga a vida como uma experiência existencial que precisa ser sentida em potencialidade máxima. Não há meio termo. E sim, exageros, hipérboles e catarses, estas que fornecem o tom de uma verdade sentimento-comportamental. A estética visual, com seus filtros coloridos e ângulos não convencionais, não é mero elemento técnico, e sim, uma metáfora que se personifica em imagens e performances.

Exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017, e que integra a mostra fora de competição da Nona Semana Festival de Cinema, ex-Semana dos Realizadores, o longa-metragem é único, de gênero híbrido, e amalgama política, sociedade, emoção, ficção e metalinguagem. É inventivo, interativo e de interferência confrontada. É um filme vertigem. E que se utilizou da “dificuldade de filmar para acertar”.

“A Moça do Calendário”, que buscou a força magnética e possuidora da literatura “Manifesto Antropofágico” do escritor Oswaldo de Andrade, conjugada com a música “Tarja Preta”, é essencialmente um filme de atores, que são respeitados como “criadores”, visto que a diretora é, acima de tudo, atriz, eternizando sua interpretação de forma icônica em “Copacabana Mon Amour”, de Rogério Sganzerla. “Dirigir é só uma função que cai ao ator. Não é mais importante, é só mais uma função. A câmera tem que servir ao ator”, diz Helena na coletiva de imprensa em Brasília, e ainda explicou que a cena que a câmera (“física, corporal, muscular e que contracena com o ator”) acompanha o personagem (“ator câmera”) foi realizada em um skate.

Sim, é Cinema Novo na veia. Em seu intrínseco estado mais bruto. É material não lapidado. Uma pretensão despretensiosa, como a “sinfonia de buzinas” e um “maestro” que realiza seu coloquial-popular-amador concerto. ”A Moça do Calendário” também transcende barreiras e universos desta imponente metalinguagem. O personagem com cor vive na ficção do preto-e-branco e vice-versa. Ou não. Talvez seja o contrário. Esta confusão é o mote proposital que nos imerge neste caldeirão esteticamente com cara de realização caseira.

”A Moça do Calendário”, que remete a “São Paulo S/A”, de Luís Sérgio Person, imprime adjetivação de “expressões de efeito” em seu discurso politizado esquerdista (a volta do Lula, o lançamento de um “projeto de ética na política”), que passeiam livremente entre o popular e o rebuscado, como a “falsidade” do “pré-capitalista primário” do “rude obsoleto” de mecânicos que se assemelham com encenação-homenagem a “Grande Otelo” (“o negro da oficina comunista”) e “Zé Bonitinho”. Seus personagens performáticos assumem poesias e “cabelo oxigenado”. Tudo é livre e possível. Tudo é um afetivo afago na nossa história intelectual-cinematográfica. Tudo é sobre a mecânica da vida. Sobre sonhos que atravessam realidades. Sobre “Uber doméstica”. “A favor de uma vida que vale a pena ser vivida”, diz um “dublê de dançarino”.

O filme narra a história do quarentão Inácio (o ator André Guerreiro Lopes) que, sem emprego fixo, trabalha como dublê de dançarino à noite e mecânico durante o dia. Quando não está nas pistas ou operando veículos, seus pensamentos galvanizam para um relacionamento platônico para a bela garota que estampa o calendário da oficina. Inácio é a fira do “pobre menino rico” por ter renunciado ao dinheiro de sua família e preferir trabalhar entre os assalariados.

Integra-se na paisagem mise en scène a vida dos que vivem na rua. E um Freud é lido em um “Brasil surrealista”, que “permite” a “sesta pós almoço” do trabalhador. É o funk e a legalização da maconha. É Zumbi dos Palmares, a palestra didática e reflexiva do povo africano. Aqui, os sonhos são mais importantes. As projeções são mais interessantes que a concretização, como a mulher desejada no sonhar. “A vida é um livro de paixão e uma revista de sacanagem”, dz-se. É militante sem abafar e cansar o discurso de que “sem o homem não há tempo, porque o homem trabalha”, enquanto objetiva o tempo a recriar imagens de “O que a Banana tem” na oficina, em narrações-monólogos de uma “Sociedade do Cansaço”. “O amor é o que eu faço com mais amor”.

”A Moça do Calendário”, baseado nos contos do próprio ator André Guerreiro Lopes, que infere Godard com Hong Sang-Soo (e seus encontros fortuitos em casa), é sobre a liberdade. Sobre voltar no tempo. Sobre o “sexo gritado” e seus “gemidos satisfeitos”. É sobre “negros e pobres preteridos da polícia”. “Escritores e intelectuais não sentem porra nenhuma a não ser com a arte de vocês”, alfineta-se com agressividade. É sobre a “sociedade do automóvel e do desempenho”. Sobre o “cumbu” financeiro. “Quem não bebe, não vê o dia girar”, ensina.

É também uma fálica obra de ficção científica. De “analisar a mente pela Espermocultura”. De experimentar o surrealismo das ideias que “viajam na batatinha” por “viciados em sexo” e com “profissão masoquista”. Tudo embalado pela trilha sonora dos anos setenta, que lembra em muito referências a “Jackie Brown”, de Quentin Tarantino.

”A Moça do Calendário” questiona os problemas sociais com humor e deboche, contra o “tudo que é função do lucro”, a “produtividade” e “iniciativa trabalhista fundiária”. “Você mente até para si mesmo”, diz-se “quando se comemora o fracasso” entre não-atores que olham curiosos a cena que acontece integrada ao redor. “Não importa o resultado da luta, a paixão nunca esmorece”. É um filme terapia. De dizer sem censura-engessamento as ideias sem filtro politicamente incorretas. De reviver “Romeu e Julieta” da “terra prometida”. De elevar a “sabedora” ao status de “grande deusa”. De “nunca mais ser escravo”. “Para deixar, precisa escolher um lado”.

É alegórico, fantasioso, patológico, terminal, realista, “neuronal”, teatral, de “dormir antes que o filme acabe”, de busca a “completude” pela “dança das cadeiras” e “perda da realidade”. Mas também otimista, esperançoso, de futuro protetor. “A alegria é um carro difícil de manobrar”, finaliza-se com a certeza de que é um filme de frases certeiras em momentos possíveis, com música “Carinhoso” que aumenta o amor pela própria vida. ”A Moça do Calendário” é uma ode ao ser humano, à vida, aos atores nossos de cada dia, que representam mesmo sem querer os papéis de suas existências. E que encaram a câmera, transpondo como um “Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen, com “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, a ficção na nossa realidade do agora.

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